

        Morri E Agora?

Psicografado pela mdium Vera Lcia Marinzeck de Carvalho




com explicaes do Esprito Antnio Carlos

Petit

editora

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Outros livros psicografados pela mdium Vera Lcia Marinzeck de Carvalho:

com o esprito Antnio Carlos

 Reconciliao

 Cativos e Libertos

 Copos que Andam

 Filho Adotivo

 Reparando Erros de Vidas Passadas

 A Manso da Pedra Torta

 Palco das Encarnaes

 Histrias Maravilhosas da Espiritualidade

 Muitos so os Chamados

 O Talism

 Aqueles que Amam

 O Dirio de Luizinho (infantil)

 Novamente Juntos

 A Casa do Penhasco

 O Mistrio do Sobrado

 O ltimo Jantar

 O Jardim das Rosas

com o esprito Patrcia

 Violetas na Janela

 Vivendo no Mundo dos Espritos

 A Casa do Escritor

 O Vo da Gaivota

com o esprito Rosngela

 Ns, os Jovens

 A Aventura de Rafael (infantil)

 Aborrecente, no. Sou Adolescente!

 O Sonho de Patrcia (infantil)

 Ser ou no Ser Adulto

 O Velho do Livro (infantil)

 O Difcil Caminho das Drogas

 Flores de Maria

com o esprito Jussara

 Cabocla

com espritos diversos

 Valeu a Pena!

 O que Encontrei do Outro Lado da Vida

 Deficiente Mental: Por que Fui Um?

Livros em outros idiomas

 Violets by my Window

 Violetas en Ia Ventana

 Reconciliacin

 Deficiente Mental: que Fui Uno?

 Viviendo en el Mundo de los Espritus

Sumrio

Introduo.

um

A enfermeira 9

dois

Mala vazia 23

trs

A artista 33

quatro

Em Coma 43

cinco

Preconceito 54

seis

Ana Preta 70

sete

O Presidirio 78


oito

O Suicida 88

nove

O Vestido Vermelho 98

dez

Atesmo 106

onze

O Poltico 118

doze

Maria, a sequinha 128

treze

Sombra de uma rvore140

quatorze

Os Abusos do Sexo

153

quinze

A Guerra 163

dezesseis

Somos Espritos  172

dezessete

A Eutansia 181

dezoito

Deus lhe pague e obrigado 191

dezenove

Depois de muito tempo indaguei: "E agora?"

200

Introduo


Muitas vezes j desencarnei. E, em todas indagava-me, ao ter conscincia de que
mudara de plano: O que ser de mim? Tive medo, na maioria das minhas
desencarnaes,
ao me defrontar com essa situao. E a resposta somente foi tranqila, quando
tive boas aes me acompanhando. Morri! Desencarnei! Como definir essa passagem?

uma viagem que fazemos? Para onde iremos? Como ficaremos? Como ser nossa vida
no Alm? Quem ir conosco? Tantas
perguntas! E como receamos as respostas... Viagem? Talvez seja melhor dizer
"mudana". E so muitos os locais para onde poderemos ir. A espiritualidade 
enorme.
H lugares lindos, e outros nem tanto. E somente nossas obras nos acompanham. Os
prudentes levam consigo as boas aes que lhes do, de imediato, agradveis
frutos,
o merecimento de ser acolhido em planos elevados onde h amigos que os orientam
e auxiliam. Infelizmente as ms obras so pesadas


e prendem quem as coleciona em lugares no to agradveis e seus frutos so
amargos. Tambm fazer essa mudana sem obras  como estar oco, vazio e infeliz
Continuamos
no Alm como somos, com os mesmos conhecimentos, costumes, odiando ou amando aos
outros.

E a maioria das pessoas ao ter o corpo fsico morto, indaga: E agora? E
acontecimentos vm  mente. A mudana est feita! Ser uma passagem feliz para
aqueles que
viveram encarnados fazendo jus ao merecimento de ser socorrido e permanecer
entre amigos bondosos Tero surpresas desagradveis os que agiram sem piedade e
sem seguir
os ensinamentos de Jesus, que recomendou que fizssemos ao prximo o que
gostaramos que fosse feito a ns.

Convidamos alguns amigos para que narrassem como foi defrontar-se com a
desencarnao.

Espero que nossos leitores acreditem nos casos aqui narrados, pois so
verdadeiros. E que aproveitem a oportunidade da encarnao, vivendo no bem para
o bem, a fim
de merecer, ao desencarnar, serem socorridos.

Antonio Carlos

Vero 2004

captulo um

A enfermeira

Estava atrasada. Levantei-me no horrio de costume.

Como sempre, toda manh em casa era uma correria. Meus dois filhos, um moo e
uma adolescente acordavam para ir escola e meu marido para ir ao trabalho.
Naquela
manh, meu filho me pediu:

"Mame, por favor, pregue o boto na minha camisa, quero ir  escola com ela."

E l fui eu pregar o boto. Todos saram, eu me atrasei, no peguei o nibus no
horrio costumeiro, mas sim outro, dez minutos depois. Atrasada, atravessei
correndo
a avenida em frente ao hospital em que trabalhava e um carro me atropelou. Senti
o baque e me vi cada no cho. No senti dor, fiquei tonta e o que me aconteceu
depois, pareceu-me que sonhava.

Vi que me colocaram em uma maca, entraram comigo no prdio do hospital, indo
para a sala de emergncia.

 No conseguia mover-me nem falar. Reconheci os enfermeiros amigos ao meu lado,
olhando-me preocupados. Senti o doutor Murilo me examinar e escutei:

"O estado de Snia  gravssimo!"

Deu ordens que julguei serem certas.

"No est adiantando!" - escutei e reconheci a voz de

Ivone, uma competente enfermeira.

"Morreu!" - falou algum.

"Snia, infelizmente no resistiu, est morta!" - expressou-se doutor Murilo.

"Eu no!" - pensei aflita. - "O que est acontecendo meu Deus? Por que ser que
acham que morri! Tenho de falar, reagir e mostrar a eles que estou viva."

-Calma, enfermeira Snia! Tranqilize-se. Sabemos que voc est viva. Durma!

Escutei e no identifiquei quem falou. Uma mo quente fechou meus olhos com
carinho. Achei que me deram algum sedativo. Senti que estava sendo medicada e
dormi.

Mas no foi um sono tranqilo. s vezes sentia que mexiam comigo. Tentava
tranqilizar-me, achando que estava sendo operada ou que me faziam curativos.
Depois ouvi
meus familiares chorando, principalmente minha filha, me e irm.

Pensei: "Eles j sabem e esto chorando junto ao meu leito. Isso no 
permitido. Ser que abriram exceo porque trabalho aqui?".

- Morreu to jovem!

- Coitada da Snia, foi atropelada quando ia para o trabalho!

10


Sentia um torpor e no conseguia entender o que me acontecia. Conclu que era a
anestesia que estava me fazendo delirar.

- Snia - escutei uma voz forte falando comigo -, vamos lev-la para um local
sossegado. Acalme-se e tente descansar.

"Vou para a U.T.I." - pensei.

E esforcei-me para ficar tranqila. Senti algum mexer no meu corpo, mas no
senti dor, apenas aquele estado terrvel de torpor. Parecia que sonhava, queria
acordar
e no conseguia.

Senti que me levaram para outro local e deitaram-me numa cama. Abri os olhos um
pouquinho e vi que estava numa enfermaria. Pessoas de branco carinhosamente
acomodaram-me
e uma delas falou:

- Snia, voc ir dormir tranqila!

Ainda escutava choros e lamentos; depois dormi.

Acordei. Acabou aquele estranho torpor. Olhei para o local onde estava, era uma
enfermaria bem-arrumada, limpssima e silenciosa.

- Onde estou? - ouvi minha voz indagar e ressoar pelo quarto.

Duas senhoras me olharam. Ningum respondeu.

"Estou no hospital" - pensei. - "Que pergunta boba a minha. Estou me lembrando.
Fui atropelada!"

Curiosa, levantei o lenol. Estava vestida com uma camisola branca e pasmei:
nenhum ferimento. Movi-me com facilidade e pensei:

11


Aconteceu algo estranho! O que ser que houve? Talvez tenha batido somente a
cabea e agora estou saindo de um coma.  isso! Mas por que no estou na U.T.I.?
Por
que no estou num quarto particular? Temos convnio!".

Um senhor entrou no quarto e uma das senhoras que me olhou, falou:

- Doutor Jos Augusto, Snia j acordou!

- Que bom! Como est, garota? - perguntou ele me olhando e sorrindo.

Parecia que o conhecia, mas no me lembrava de onde. Observei-o bem. Tive a
certeza de que ele no era mdico do hospital.

"Ser que fui transferida?" - pensei.

Como no respondi, ele perguntou novamente:

- Snia, como est se sentindo?

- No sei, acho que bem. Estou saindo do coma?

- No, voc no estava em coma - respondeu o senhor gentilmente.

- Onde estou?

- Na outra parte do hospital.

- Que outra parte? - indaguei curiosa.

- Na que fica do outro lado - respondeu uma das senhoras, intrometendo-se na
conversa.

- Lado?! - balbuciei.

- Do Alm - ela falou rapidamente e baixinho.

- Snia - falou o senhor -, voc compreender aos poucos o que lhe aconteceu. 
muito importante se esforar para ficar calma e tranqila para se recuperar.

12

Uma senhora me trouxe um suco. No estava com vontade, no quis. O senhor
afastou-se, foi conversar com outra pessoa. Fiquei ali aborrecida, sem
compreender o

que se passava.

Fingi dormir e quando o senhor se afastou e tudo ficou quieto, levantei-me com
facilidade e sa escondida do quarto, passei por um corredor e vi uma escada,
desci
e, aliviada, reconheci o hospital em que trabalhava. Estava como sempre, lotado,
pessoas indo e vindo. Voltei para o quarto e deitei no meu leito.

"Deve haver uma explicao para estar aqui" - pensei.
- "Depois, por certo, aquele senhor me dir o que aconteceu. Certamente fizeram,
de algum setor do hospital, esse local mais tranqilo, onde me trouxeram para me
recuperar."

Dormi de novo. Acordei e pensei em tudo o que me ocorreu e achei estranho,
principalmente porque escutei, sem compreender como, minha filha chorando.

"Ela veio me visitar e chorou. Por que no me acordou? Mas est chorando agora!
Por que a escuto e no a vejo?"

Quando o senhor entrou no quarto, chamei-o:

- Senhor, por favor, venha c um pouquinho. O senhor  enfermeiro ou mdico?

- Sou algum que cuida de vocs.

- Escutei essa senhora cham-lo de doutor Jos Augusto. No me lembro de ningum
com esse nome na equipe mdica. Bem, isso no tem importncia. Estava vindo
trabalhar,
atravessei a avenida e um carro me atropelou; depois no me lembro direito o que
aconteceu. Escutei o doutor Murilo

13

dizer que meu estado era grave, entrei num torpor, num sono estranho, com sonhos
confusos. O senhor pode me dizer o que houve?

- De fato, voc foi atropelada - respondeu ele, tentando me esclarecer sem me
chocar. - Foi conduzida para a sala de emergncia. Snia, voc, sendo
enfermeira, j
viu muitas pessoas morrerem, no ?

- Sim j - respondi. - Trabalho com doentes terminais. No comeo ficava triste
quando uma pessoa morria, at orava por ela, depois isso se tornou rotina, era
meu
trabalho, cuidava de todos com carinho e a morte no me

incomodou mais.

- A morte do corpo fsico  algo natural! Voc  religiosa? - perguntou ele.

- Sou, vou  igreja quando d, gosto de orar no sossego de um templo - respondi.

- E o que pensa da morte?

- No sei... - respondi sacudindo os ombros. - Por que est me perguntando isso?

- Porque o corpo fsico nasce e morre. Ns o usamos para viver na Terra durante
um perodo. Voc no pensa na morte, em morrer?

- Eu no! Ainda mais agora que sobrevivi daquele atropelamento em que ainda no
me recuperei. A pancada na cabea me deixou confusa, deve ter afetado meu
crebro.

Falei um tempo sobre o que sentia e tinha explicao para tudo. Doutor Jos
Augusto me ouvia atento. Aproveitando que fiz uma pausa, ele falou:

14



- Snia, no esquea que a morte do corpo fsico  para todos, e que somos
sobreviventes depois dessa ocorrncia.

Mudei de assunto aceitando um suco que me foi oferecido. No estava gostando nem
um pouco de estar ali, achei muito estranho. Quando minhas companheiras de
quarto
dormiram, levantei devagarzinho e sa do quarto. Uma senhora de aparncia
agradvel, aproximou-se quando estava no corredor perto da escada.

- Snia, aonde vai? Est fugindo?

- Sa somente para dar uma voltinha - respondi.

- Voc pediu permisso? - indagou-me. - No pode sair e andar por a, pode ser
perigoso. Volte, por favor! Voc est em recuperao e tem de obedecer s normas
do
hospital. Como enfermeira sabe disso, no ?

Fingi que ia voltar, mas corri e desci as escadas. Passei correndo pelos
corredores movimentados do hospital. Entrei na ala reservada ao corpo docente,
no vestirio
das enfermeiras. Apressada troquei de roupa. Sa do prdio, parei em frente da
avenida, quis estar em casa. E, logo estava. Aliviada, nem pensei como vim,
achei
que estava esquecendo alguns detalhes.

Meu lar estava bagunado. Tentei arrum-lo e no consegui. Quis colocar objetos
nos seus lugares, mas eles continuavam onde estavam. Cansada, sentei numa
poltrona
e adormeci. Acordei com meus filhos chegando com minha me. Corri para abra-
los, mas eles no me deram ateno. Pareciam no me ver. Escutei minha filha
dizer:

- Estamos contentes, vov, por estar aqui nos ajudando.

15


Conversaram sem me dar ateno.

"Acho" - pensei - "que esto bravos comigo porque fugi do hospital."

Meus dois filhos e minha me fizeram uma faxina na

casa. Ela foi embora, meu marido chegou, estava abatido e triste. Tambm nem me
olhou. Chorei. E minha filhinha

chorou tambm. Meu marido a abraou.

- Filha, no chore! Estamos todos sofrendo. Tente reagir, temos de continuar
vivendo.

- Sinto tanta falta dela!

"Ser que minha filha est chorando porque minha me, a av dela, foi embora?" -
pensei.

Os trs se abraaram. Foram dormir, nem me deram ateno. Resolvi ir para o
quarto. Deitei na minha cama. Encostei-me no meu marido. Ele se revirou,
levantou e foi
para a sala, ligou a televiso. Fui tambm, disposta a conversar com ele.

Falei por minutos que estava bem, por isso sa do hospital e que eles no
precisavam me tratar assim. Meu esposo sempre fora muito atencioso comigo,
fingiu to bem
que parecia no me escutar. Sentei-me no sof e dormi.

Assim se passaram dias. At que escutei minha me e minha filha conversando.
Diziam que iam ao hospital pegar alguns objetos meus que estavam l.

"Bem" - pensei -, "se esto me tratando assim, com desprezo porque fugi de l,
vou com elas, assim me desculpam e fica tudo bem."

Entrei com elas no carro. Pararam no estacionamento

do hospital, acompanhei-as e entramos no prdio.

Fiquei olhando o movimento e quando percebi as duas sumiram. Resolvi ir para a
enfermaria onde estive, mas no encontrei as escadas. Fiquei andando pelo
corredor,
acabei indo ao setor em que trabalhava, dos doentes em estado grave. Fiquei num
canto olhando. Vi um senhor, que j conhecia, era um doente difcil, exigente e
abusado.
Maltratava com palavras rudes quem cuidava dele. Por duas vezes passara as mos
em mim. Agora estava morrendo e, morreu. Vi dois vultos escuros o pegarem pelos
braos,
deram-lhe um puxo e ele se transformou em dois. Um quieto, ali no leito, outro
gritando e desaparecendo com os vultos. Tremi de medo. Logo em seguida, outra
morte,
uma senhora tranqila morreu orando e foi envolvida por uma luz. Tambm se
transformou em duas. Uma ficou dormindo serenamente, e

a outra foi embora com a luminosidade

Estava estupefata, ento, vi aquela senhora que tentou me impedir de fugir.

- Oi, Snia! Que bom ter voltado! Espero que tenha compreendido o que ocorreu
com voc.

- Acho que estou louca!

Ela me abraou com ternura.

- No, Snia! Por favor, no se iluda mais! Observe-nos! Somos, voc e eu,
diferentes dessas enfermeiras e desses doentes. Voc no est louca! Quando foi
atropelada,
seu corpo fsico morreu, porm voc continuou viva, porque o esprito no morre.

- Morta eu?! E agora? - perguntei aflita e com medo.

17

- Aceite essa forma de viver. Venha, vou lev-la para a parte do hospital onde
abrigamos desencarnados necessitados de orientao.

Pegou na minha mo e foi me puxando. Ao passar pelo corredor principal, vi na
parede uma foto do doutor Jos Augusto, ele foi um dos fundadores do hospital e
morrera
h muito tempo.

- O retrato do doutor Jos Augusto! - exclamei. - Ele me ajudou. Via sempre
essas fotos quando trabalhava aqui, por isso que, ao v-lo, achei que o
conhecia.

Aquela senhora me colocou no leito. Chorei por horas com d de mim e com medo.
Senti-me abraada. Era o doutor Jos Augusto.

- Snia - falou ele carinhosamente -, minha amiga, no chore mais! A vida
continua.

Adormeci tranqila.

Acordei sentindo-me bem. Compreendi tudo. Minutos depois, o doutor Jos Augusto
veio me visitar e perguntei para ele:

- E agora?

- Ir aprender a viver com esse corpo que agora reveste, o perisprito, para
depois continuar sendo a boa enfermeira que sempre foi.

- Explique-me, por favor, o que aconteceu comigo pedi.

- Voc, h oito meses e quinze dias, ao atravessar a avenida, foi atropelada e
desencarnou. Foi trazida para c e um dia fugiu.

18


- Parece que faz somente alguns dias que fui atropelada!

- exclamei.

- Porque ficou confusa e dormiu muito.

- Foi por isso que ningum em casa me viu. Coitados!

- No poderiam v-la. Voc, Snia, iludiu-se e no quis aceitar a situao. Via,
em seu trabalho, muitas pessoas desencarnarem, mas no pensou que isso
aconteceria
com voc.

- Como fui para minha casa? Como troquei de roupa?

- quis saber curiosa.

- Ns, desencarnados, locomovemo-nos com a fora do pensamento, da vontade. Isso
se chama volitao. Para fazer esse processo consciente necessitamos aprender.
Alguns
o fazem sem saber, usam da vontade, como voc fez. Quanto  troca de roupas,
podemos plasmar vestimentas e objetos, tambm se faz conhecendo e depois de um
aprendizado,
ou como voc, que usou a fora mental, sem saber.

-Vi, na U.T.I., duas pessoas morrerem. Um senhor foi levado por vultos escuros e
uma senhora por uma luz - falei, olhando para o doutor Jos Augusto, esperando
por
uma explicao.

- A desencarnao no  igual para ningum - ele me esclareceu gentilmente. -
Aquele senhor infelizmente viveu fazendo maldades, e desencarnados que no o
perdoaram,
levaram seu esprito para regies trevosas a fim de se vingarem dele. A senhora
que viu com luz foi uma pessoa bondosa e amigos vieram busc-la para lev-la a
locais
de agradvel moradia. H tambm desencarnes como o seu, em que o esprito
permanece junto ao corpo morto, vendo

19

de forma confusa arrumarem-no dentro do caixo e o velrio.

Voc foi desligada duas horas antes do enterro. Outros, no querendo abandonar o
envoltrio carnal, so enterrados junto.

Admirei-me com as explicaes coerentes que aquele bondoso doutor me dava.

-Ainda bem que no me cremaram! - suspirei aliviada.
- Meu marido quer ser cremado. O que acontece com espritos que tm o corpo
fsico morto reduzido a cinzas pela cremao?

- Nos locais onde so cremados, trabalham equipes de socorristas que,
independentemente de merecerem ou no, desligam esses espritos da matria
morta. Quem fez
por merecer um socorro  levado para casas de auxlio,- outros, que viveram
imprudentemente ou sem fazer o bem, somente so desligados - alguns ficam a
vagar e muitos
retornam ao antigo lar.

- Existem ento desencarnados, como o senhor se refere aos que morrem, bons e
maus? Corri risco em ter sado daqui sem permisso? - indaguei-o.

- H, no plano espiritual, espritos bons, maus e os que tm a inteno de se
melhorar s que no tiveram coragem o suficiente para se dedicarem ao bem. Voc,
Snia,
correu perigo, de desencarnados maus a pegarem e faz-la escrava. Ns sabamos
onde voc estava e um socorrista ia

v-la sempre, tnhamos notcias suas.

Agradeci-o pelo auxlio e pelas explicaes. Dessa vez fui obediente, recuperei-
me, compreendi que fizera minha partida do plano fsico e como quem parte,

20

chega, vim para o plano espiritual. Fui transferida para uma
colnia, onde aprendi a viver desencarnada e a ser til.
Tinha sempre notcias dos meus familiares, depois de anos, pude v-los e estar
com eles nos momentos importantes. E foi uma felicidade quando o doutor Jos
Augusto
me convidou para servir como enfermeira, ser socorrista no hospital em que
trabalhei quando encarnada.
E a vida fantasticamente continua!

     Sonia

Explicaes de Antonio Carlos

Iludir-se  fcil. Temos tendncia a acreditar no que queremos. Assim, Snia
iludiu-se. Escutou, ao ser levada para a sala de emergncia, que seu estado era
grave,
que morrera. Agarrou-se tanto ao corpo fsico que socorristas que serviam no
hospital tiveram dificuldades para deslig-la - seu socorro somente ocorreu duas
horas
antes do seu envoltrio carnal ser enterrado. Deu para si mesma explicaes para
tudo o que estava lhe acontecendo de diferente. Ao ficar numa parte do hospital
que no conhecia achou que era uma nova ala. Na sua casa terrena pensou que a
famlia no falava com ela, por estarem bravos, por ter fugido etc.
Normalmente poucas pessoas se preparam para esse fato natural que  a
desencarnao. Infelizmente, sempre achamos que isso acontece com os outros e
quando

21


chega nossa vez, apegamo-nos a detalhes para crer que continuamos na matria
fsica. Se tivermos conhecimento, fazemos essa mudana com mais facilidade.
Embora necessitamos
fazer jus para merecer o socorro. No aceitar a desencarnao no depende do
motivo que levou os rgos do corpo fsico a findarem suas funes. O desencarne
de
Snia foi brusco. Talvez, se tivesse doente por meses, ter-se-ia preparado e
aceitaria sem tantas dificuldades a mudana de plano. Mas, infelizmente, tenho
visto
doentes de anos tambm se iludirem. No deveramos ter pavor da morte, e sim
entend-la e designar esse fenmeno pelo nome certo: desencarnao, aceitando
essa outra
forma de viver. com aceitao e compreenso, tudo fica mais fcil e agradvel.

22

captulo dois

Mala vazia



Que coisa! No sei o que est contecendo comigo. E esta dor est bem chata!" -
resmunguei aborrecido.

Estava a caminho do banco e, no momento, parado no trnsito. Uma senhora que
caminhava pela calada me informou do ocorrido:

- Teve um acidente na esquina, nada grave, logo o trnsito vai ser liberado.

- Obrigado! - agradeci sorrindo.

E os pensamentos vieram novamente:

"Se eu tivesse tido mais pacincia com duas companheiras e freqentadoras do
centro esprita em que tentava ser til, elas no haviam brigado e se afastado
da casa
" As duas me fizeram perder a pacincia - tentei me justificar.

"Somente se perde o que se tem. E voc, tem a virtude da pacincia?"

'Acho que deveria ter tentado apazigu-las."

23

E o monlogo prosseguia; embora tentasse pensar em outras coisas, voltavam os
pensamentos em que dialogava comigo mesmo. E assim foi durante todo o dia.

Lembrei-me das vezes em que fiquei nervoso no meu segundo lar: a casa esprita.

'Acho que no fui caridoso com Toninho. Tambm ele estava levando alimentos
arrecadados para sua casa."

"Tentou ao menos saber o porqu de ele fazer isso? Ser que no estava passando
necessidades?"

'Aparentemente no tinha motivos, ele estava empregado" - justifiquei-me.

Pensei tambm em alguns fatos desagradveis que ocorreram em minha vida
familiar. Ainda bem que foram poucos, e todos eles me pareceram sem importncia.
Estava sendo
bom filho, esposo e pai, senti que eu mesmo no tinha queixas sobre mim nessa
parte, com a famlia.

Assim como tambm no estava me cobrando as ati-

tudes que tive com outras pessoas que conviviam comigo no trabalho e na
sociedade.

Dei um longo suspiro. O trnsito foi liberado, prestei ateno e me dirigi ao
banco.

Enquanto esperava ser atendido, os pensamentos voltaram:

"E se tivesse me dedicado mais  assistncia social?

Participado com mais atividades nas campanhas? Acho que no fiz visitas aos
doentes que poderia. No levei consolo aos pais que tiveram filhos
desencarnados. Poderia
ter feito mais, muito mais."

24



O gerente me chamou:

- Senhor Nelson, por favor!

"Chega! Que pensamentos persistentes! Se no fiz, vou fazer agora e pronto!"

Aproximei-me do gerente e o cumprimentei.

- Como est, senhor Nelson?

- com algumas dores na coluna; vou marcar uma consulta com meu mdico - respondi

Resolvi o problema com o gerente, voltei ao escritrio e  noite, em casa,
depois do jantar, sentei-me no sof para ler o jornal e novamente preocupei-me
com os
pensamentos:

'As malas, ser que esto arrumadas?" - indaguei, pensando nelas.

Desde que me tornara esprita compreendera que a morte  somente uma mudana na
forma de viver e tranqilizei-me; antes tinha um medo terrvel desse fato que 
natural
a todos ns. Ento resolvi acumular obras boas que me acompanhariam nessa viagem
em que faria s. Imaginei algumas malas e nelas, dia aps dia, colocava
mentalmente,
algo que julgava ter feito de bom.

Tomei um remdio para amenizar as dores e fui dormir.

Acordei de madrugada com uma forte dor, no consegui nem falar. Devo ter gemido,
pois, acordei minha esposa que acendeu a luz. Vi temor nos seus olhos. Ouvi-a
falar
ao tele-

fone, chamando a ambulncia e os filhos. Tenho dois que j esto casados.

Ela pegou na minha mo, senti-me seguro. Outra dor forte, aguda, que me deu a
impresso de que algo explodia

25


em meu peito; fui apagando. Esse "apagando" quer dizer "sumindo". Ainda vi minha
esposa passar as mos sobre meu peito, ajeitar minha cabea e me chamar:

- Nelson!

Acordei. Dei uma olhada no local onde estava. Era um

quarto estranho. Somente mexi os olhos. Estava num leito com lenis brancos. Do
lado esquerdo havia uma janela fechada, por onde entrava tnue claridade. Do
lado
direito, duas portas, uma mesinha de cabeceira e uma poltrona.

- Devo ter desencarnado! - exclamei baixinho.

Estava bem, tranqilo e me sentindo confortvel. Sem

saber o que fazer resolvi ficar quieto.

"Se eu no tiver desencarnado e estiver em um hospital de encarnados, falando
que morri, eles acharo que enlouqueci.  melhor esperar" - decidi.

No demorou muito, um senhor entrou no quarto. Olhei-o e achei que o conhecia.

- bom dia, Nelson! Como est passando? - ele me cumprimentou sorrindo.

- bom dia! Estou bem! - respondi.

- Est precisando de alguma coisa?

- No, obrigado. O senhor  mdico?

- No sou mdico, e sim seu amigo - respondeu. Fiquei sem saber se perguntava
onde estava e o que

me acontecera. Ele, vendo-me encabulado, explicou:

-Voc, Nelson, sofreu um infarto e est se recuperando. "Sem soro? No vejo
instrumentos hospitalares. No

devo estar encarnado!" - pensei.

26



ria

-! Sem

n hospital >enlou-

,ondeu.

" estava e o que L explicou: "^se recuperando, pitalares. No

Olhei novamente para ele. Veio na minha mente a lembrana dos amigos da casa
esprita. Recordei-me da descrio dos mdiuns videntes sobre os nossos
orientadores
desencarnados, lembrei-me com detalhes do que falavam de um deles, o que estava
sempre ao meu lado, orientando-me. Jos, assim o chamvamos.

Enquanto me recordava desse fato, ele ficou quieto. Observei-o bem.

"Parece com ele ou  o prprio Jos?" - indaguei-me.

Resolvi perguntar:

- O senhor  meu amigo porque trabalha no centro esprita que freqento? Do lado
espiritual?  o Jos?

- Sim, sou. Tenho imenso prazer em t-lo aqui conosco.

- O que aconteceu?

- Como j disse, voc teve um infarto e os rgos do seu corpo cessaram suas
funes. Ns, os companheiros desencarnados, que por anos trabalhamos com voc,
pudemos
deslig-lo da matria morta e traz-lo para c. Est na ala de recuperao da
colnia, situada no espao espiritual da cidade onde viveu encarnado.

Olhava-o atento, ele sorriu e perguntei em tom de indiferena - parecia que o
assunto era corriqueiro, como se indagasse: "Voc leu esse livro?".

- E meus familiares?

- Comportaram-se e agiram muito bem, demonstrando os conhecimentos adquiridos.
Sendo espritas, deram exemplos de como se deve agir nesses momentos ainda to
difceis
para os terrqueos. Voc recebeu muitas oraes dos

27

companheiros e teve um velrio e um enterro tranqilos, dignos de um aprendiz do
Evangelho.

Fiquei quieto. Depois de dois longos minutos, esse senhor, percebendo que eu
desejava ficar sozinho, sorriu e se despediu.

- Nelson, vou deix-lo a ss um pouquinho. Volto logo. Acenei com a cabea
concordando, e ao ficar sozinho,

fiquei a pensar:

"Ontem no estava me sentindo bem. Tive aqueles pensamentos estranhos. No, acho
que no eram estranhos, eram reais. Deixei de fazer muitas coisas, e outras fiz
de forma errada. E a morte me surpreendeu...".

Comecei a ficar inquieto, a suar, senti minhas mos geladas.

"No fiz o que deveria ter feito! No julgava que isso ia ser cobrado."

Passei a respirar com dificuldade e senti uma dorzinha no peito.


Senti um pavor que me paralisou no leito, devo ter arregalado os olhos. Falei
alto, repetindo a indagao:

- E agora?

- Nelson, por favor! - disse Jos, entrando no quarto novamente. - Calma!

E estendendo as mos sobre mim, deu-me um passe. Fui me tranqilizando.

- O que lhe aconteceu? Voc estava to bem! - ele indagou.

28



- Sou infeliz! Deixei de fazer muitas coisas - queixei-me.
- No me dediquei como deveria  assistncia social, no apaziguei as
discrdias, no fiz...

- Pare! - ordenou-me Jos. - No se recrimine assim! Voc vai agora me dizer o
que fez de bom para a casa esprita.

- Eu? O que fiz?

- Sim, voc! Que tal lembrar-se dos passes que aplicou, das entrevistas em que
aconselhou e consolou a muitos, das orientaes que deu a desencarnados
necessitados
de ajuda por meio dos trabalhos de desobsesso, dos livros espritas que
emprestou, doou e...

Foi falando dos pequenos atos que fiz, e fui melhorando. Jos parou de falar,
indaguei-o aflito:

- E agora? O que fao?

- Primeiro, descanse para se recuperar; depois aprender a viver sem o
envoltrio fsico e a ser til  colnia que o abriga.

- O senhor falando assim, parece fcil - expressei-me.

- , de fato  fcil. Lembre-se, Nelson, de que a vida continua sem saltos e sem
complicaes, por isso no a complique. No se deixe abater por pensamentos
negativos
como esses que teve. Pense no presente,  no momento atual que devemos fazer o
bem para sermos bons um dia.

Envergonhei-me do vexame que dei, Jos sorriu compreendendo.

- Nelson, todos ns sabemos que os rgos do corpo fsico um dia cessam suas
funes. Mas, quando ocorre conosco,  um acontecimento especial, porque esse
momento

29

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho - Antnio Carlos

 nosso. E ns  que passamos. Agora, durma para descansar, ficarei aqui at que
adormea.

Quando acordei vim a saber que trinta dias j haviam se passado da minha mudana
de plano. Cobrei de mim mesmo o que deixara de fazer quando encarnado,
amargurei-me,
entristeci-me, sentindo-me um pouco fracassado. Quem pode, tem obrigao de
fazer. E sofri, julguei a mim mesmo. Mas compreendi que no basta se lamentar e
me esforcei
para melhorar. Se no realizei mais coisas, agora estava tendo a oportunidade de
realizar.

Fiz uma viagem em que mudei de plano, e somente o que me acompanhou foram as
minhas obras! Voltei com a bagagem quase cheia, aproveitei encarnado muitas das
oportunidades
que tive. Aprendi, erradiquei alguns vcios, adquiri virtudes, mas me incomodava
o espacinho que deixei vazio.

Resolvi reagir. Levantei-me e imaginei as malas que quando encarnado mentalizei,
aquelas em que fui colocando meus atos. Abri o armrio do quarto e tambm a
primeira
mala. Continuei a imaginar, ia pegar meu aprendizado para colocar dentro da
gaveta. Parei. Compreendi que no se guardam conhecimentos adquiridos em locais.
Eles
estavam dentro de mim.

Retornara  ptria espiritual. E voltara sabendo como era, o que encontraria. Eu
estava num lugar de maravilhas e com amigos. Ajoelhei-me e agradeci a Deus;
lgrimas
rolaram pelo meu rosto. Senti-me agradecido e dei graas.

Fiquei mais cinco dias no hospital, depois fui hospedado numa casa com amigos.
Encantei-me com as belezas da

30



colnia. Lera em livros espritas descries das cidades espirituais, mas v-las
pessoalmente  uma felicidade indescritvel.

O tempo passou, de aprendiz tornei-me servo til, um morador pelos muitos
servios prestados. Pude saber e estar sempre com meus familiares, e assim
amenizar minha
saudade.

Hoje, acho engraado ao recordar aqueles momentos em que receei, sem razo,
estar desencarnado. Sofri muito naqueles minutos. Mesmo com conhecimento no me
isentei
de ficar inseguro, de sentir medo. Ainda bem que aquela agonia passou rpido.
Hoje estou muito feliz, tentando no deixar mais nenhuma obra que possa ser
feita,
sem fazer. E, penso nas malas, no quero deixar nenhuma vazia, porque sei que
mudarei de plano novamente. Um dia, reencarnarei novamente. E quero ter uma boa
bagagem,
com boas obras, pois elas so tesouros conquistados.

Anseio servir sempre para ajudar a melhorar a Terra - o planeta que temos por
graa para morar -, pois tornando-o melhor, teremos um lar de bem-aventuranas.

      Nelson


Explicaes de Antonio Carlos

A histria da vida de Nelson  um exemplo. Foi um servo til, tanto que mereceu
um socorro imediato e foi levado para uma colnia. Infelizmente so raras as
pessoas
que ao desencarnarem no se sintam como ele, que poderia ter feito mais a si e
ao prximo, julgando-se

31


devedoras, porque oportunidades de praticar o bem, faz-lo a outros e a si mesmo
todos temos, quando encarnados. Tranqila  a desencarnao dos que agem como
Nelson;
felizes e bem-aventurados os que realmente retornam  ptria espiritual, tendo
no plano fsico feito tudo o que podiam.

32

captulo trs

A Artista

entia-me muito doente. Sabia que a doena que padecia era incurvel, estava
sofrendo muito e o tratamento tambm era dolorido.

Pedi muitas vezes ao mdico, que conhecia desde criana, para interromper o
tratamento.

- Esses remdios me fazem mais mal do que bem! exclamei.

Ele explicou por minutos que eu estava errada e que, embora doloroso, era o que
a medicina oferecia etc.

- Meu querido doutor deve ter pensado melhor e ter feito o que eu queria. S que
no est mais me visitando! falei suspirando.

Meu mordomo, secretrio, nem sei mais o que ele era para mim, porque fazia de
tudo em casa, entrou na sala em que eu estava. Talvez, pensando melhor, a
definio
que poderia lhe dar, era de apaixonado-amigo.

33

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho - Antnio Carlos

Silencioso e triste abriu a cortina de uma das janelas. Nada falou. Estavam ele
e uma das empregadas que ficou comigo, obedecendo-me. Eu no queria conversar.
Primeiro,
por no gostar mais de falar; no tinha assunto a no ser de doena e isso me
cansava. Segundo, porque depois que meu filhinho faleceu, desinteressei-me de
tudo.

Tinha bastante dinheiro e o mordomo, administrava-o bem.

Fechamos a casa com ns dentro, isso para que jornalistas vidos por notcias
no conseguissem alguma foto minha doente. J no parecia mais a jovem que fora.
E
ele, meu mordomo, no me dava motivos para recrimin-lo. Abriu a cortina da
janela que dava para os fundos da casa.

- Como agora no gosto de jornalistas! - expressei-me baixinho.

Ele me olhou, ou talvez para a poltrona em que eu estava. Aproximou-se
devagarzinho e arrumou a manta que estava sobre a poltrona, cobrindo-me.

Olhei-o agradecida. Sabia que ele me amava e foi somente por esse amor
verdadeiro que ficou comigo. Era meu empregado h anos. Um dos meus namorados
insinuou que
ele era apaixonado por mim. Ri naquele momento.

Depois da tragdia, fiquei doente e ele ficou ao meu lado, compreendi que esse
homem me amava, mas era tarde demais.

Pensei nos reprteres e jornalistas, agora me escondia deles. Antes no fora
assim, gostava de ser fotografada, exibia-me diante das cmeras. Fazia de tudo
para
ser entrevistada e sair em jornais e revistas. Mas o tempo passou e eu mudei.

34
"Pense na sua vida e preste ateno nas mudanas que houve!"

Escutei algum me falar, mas como no vi ningum, achei que eram pensamentos
meus. s vezes sentia que escutava meu filhinho, achava que era por sentir muito
sua
falta.

Cochilei e acordei na minha enorme cama.

- Estou muito sozinha! Nenhuma visita! - falei resmungando.

Proibira as visitas e quando algum vinha me ver, no as recebia. E,
ultimamente, at o mdico da famlia no vinha mais. Nem meu irmo, ele se
zangara por no querer
ir para o hospital. Estava tendo o sossego que desejava, mas me sentia sozinha.

Nos tempos de glria, aparentemente fui feliz. Fama, sucesso e com isso,
dinheiro. Fora os maridos, amantes e muitas badalaes.

De uma relao mais sria, nasceu meu filho. Amei-o muito. com a separao, ele
ficou comigo e nos tornamos grandes companheiros, unidos por uma relao
maravilhosa
que somente existe entre me e filho. Estava com ele sempre que possvel. At
recusei alguns trabalhos para ficar juntinho dele.

Meu filho crescia forte, bonito e muito inteligente.

Viajava a trabalho sempre. O mordomo e as empregadas ficavam com meu filhinho,
que adoravelmente, cativava a todos, sendo em casa um reizinho muito amado.

Meu filho nunca saa sozinho, levavam-no e buscavam-no na escola. Um dia em que
eu estava viajando, tendo

35

um dos professores do seu colgio falecido, as crianas foram dispensadas mais
cedo e ele voltou para casa de carona. O porto da frente de nossa casa era todo
de
grade com pontas. Meu filho em vez de tocar a campainha, resolveu, sabe-se l
por que, pul-lo.

Caiu e ficou ferido por uma ponta no pescoo. Pessoas que passavam pela rua
viram, gritaram, meus empregados acudiram. O mordomo aflito levou-o para o
hospital,
onde morreu de hemorragia.

Sofri tanto, no queria acreditar. Quis, com sinceridade, ser enterrada com ele.

Fiquei depressiva e adoeci.

Fizeram o que eu pedi, no conversavam comigo e no recebiam visitas. Mas no
estava satisfeita. A solido me

deixava mais triste e a doena me fazia delirar. Ora escutava algum que me dava
a impresso de ser meu menino a me falar para analisar a situao, ora sentia
pessoas
orarem por mim. Ao sentir isso, achava que eram fs querendo que me curasse. Mas
s vezes, sentia ou escutava pessoas chorarem achando que haviam me perdido.
Eram
sensaes estranhas que me deixavam confusa; desejava que passasse logo, mas no
passava.

Por tempos vivi nessa agonia e tristeza, sem conseguir definir se foram meses ou
anos.

Um dia, o mordomo entrou no quarto, ento resolvi sair do meu mutismo.

- Voc tem sido um leal amigo! Pode falar, vamos conversar.

36

\

Ele no respondeu. Estranhei e repeti:

- Sente-se aqui perto de mim. Vamos conversar! Ele deu uma olhada pelo quarto e
saiu.

"Ser que o ofendi? Certamente o fiz, mas no foi por querer" - pensei.

Conquistara, usando de minha beleza muitos homens, mas no o seduzi, nunca tive
a pretenso de ter um caso com um empregado.

- J viu como  o corpo dele e como  o seu? - a voz que ouvia de vez em quando
me falou.

- vou telefonar para meu mdico ou para meu irmo! No consegui tirar o fone do
gancho. Toquei a sineta

que fora colocada na minha mesinha de cabeceira desde que ficara doente. Nada.

Depois de um tempo, o mordomo entrou no quarto. Olhou tudo, passou a mo pela
cmoda, pegou um portaretrato com fotos minhas, olhou-as com carinho e disse
baixinho:

- Perdoe-me! No pude impedir que seu irmo, seu herdeiro, vendesse tudo! Amanh
vir o caminho para retirar alguns mveis que sero leiloados. Logo, os novos
proprietrios
estaro aqui e modificaro tudo. Irei embora! Esta casa deveria ser um santurio
e no deveria ser modificada.

"Como?!" - gritei. - "O que est falando? Meu irmo vendeu tudo? Como pde se eu
ainda no morri?"

- Veja a diferena! - escutei a voz.

Olhei para ele examinando-o e depois para mim. Estvamos muito diferentes. Ele
sadio e eu doente. Mas a voz
37
insistiu. Analise-o novamente. O mordomo chorava sentido. Ento percebi que seu
corpo era grosseiro e o meu leve e diferente.

Pedi para ele ficar no quarto comigo, mas ele saiu.

Escutei barulho. Abriram o quarto, meu irmo e o mordomo entraram, meu mano deu
ordem:

-Voc, por favor, pegue tudo o que era de uso pessoal e os retratos, coloque-os
nestas caixas, vou lev-las comigo, depois resolvo o que farei.

- Ela nos far falta! - falou o mordomo.

- J faz! Entenda que no posso mais deixar esta casa sem moradores, e no
pretendo residir aqui.

- Compreendo! - expressou o mordomo triste. "Por que faz isso?" - gritei.

Meu irmo suspirou e disse como se falasse a si mesmo.

- Minha irmzinha morreu! Uma artista como ela, no deveria nunca morrer! Tem
pessoas que vieram  Terra para

serem eternas.

Abri a boca de espanto.

"Eu, morri?!"

Deviam estar enganados. Estava ali, doente, mas viva. Olhei-os, estavam srios,
expresses sofridas e no iam brincar com esse assunto srio: a morte. Tremi de
medo.

E novamente a voz:

- Calma! Voc nunca pensou nas coisas boas que fez? No estava com vontade, mas
me lembrei. Pratiquei

muitas caridades, tinha muito dinheiro. Nunca maltratei ningum e ajudava sempre
que podia, todos a minha volta.

38



- O que mais quer nesse momento? - a voz me perguntou.

-Ver meu filhinho! - respondi em tom de splica.

- No ter medo? -No!

Senti algum pegar na minha mo. Olhei-a e vi uma mozinha. Deliciei-me com o
contato e com o carinho. E junto da mozinha foi se materializando a figura do
meu
filho.

- Filhinho do meu corao! Voc veio me ver! Sinto tanto sua falta!

- Mame, tive meu corpo fsico morto e continuei vivo em esprito. Tenho lhe
pedido para observar nossos empregados, os dois que ficaram nesta casa.

- Meu irmo quer vend-la! - expressei-me sentida. Nisso o mordomo voltou com as
caixas. Abriu a cmoda, foi pegando alguns objetos e colocando-os dentro.

- Ele  nosso amigo querido! - disse meu filho. Observe*o, mame, ele 
diferente de ns. Ns dois morremos, ele no!

O mordomo chorava, e eu tambm.

- E agora meu filho? Que fao? - indaguei com ansiedade e medo.

- Venha comigo! Aqui  local de moradia para quem ainda tem o corpo carnal, ns
que o deixamos, temos outros locais para viver.

Abraamo-nos, confiei e fui com ele, que volitou comigo. Fui abrigada numa
colnia e internada num hospital. Minha adaptao foi longa. Sentia-me doente,
tive de
receber

39
muita ajuda para me sentir novamente sadia. Quando melhorei, senti falta das
atividades artsticas, de ser admirada pelos fs. Mas, acostumei-me,
principalmente
tendo ao meu lado meu filhinho. E a vida continuou muito diferente para mim. Era
acostumada ao luxo e a ser servida, ali tudo era lindo, mas simples, e tive de
aprender
a servir.

Ao desencarnar, meu esprito foi desligado da matria e meu corpo enterrado com
pompas. Continuei em casa, sem compreender o que me acontecera. Fiquei muito
tempo
confusa. Meu filho ia sempre me visitar, tentando me explicar que meu corpo
fsico morrera; era dele a voz que ocasionalmente eu escutava.

E o mordomo, amigo fiel, de fato me amou, dedicou-se a mim com fidelidade. Ficou
o quanto pde em minha casa, tomando conta de tudo.

Fs compadeceram-se comigo na tragdia que me abalou, com o acidente em que meu
filho desencarnara e com a minha doena. Meu desencarne foi sentido. Muitos
oraram
por mim, outros choraram. Mas tudo passou. Aos poucos foram me esquecendo,
alguns ainda se lembram do meu trabalho, labutei muito para conseguir ser
conhecida e
admirada.

Sofri como uma pessoa comum. E somente compreendi e indaguei: "O que fao agora
que morri?", tempos depois, quando tive conscincia desse fato. Foi uma sensao
muito estranha, senti um vazio, como se passasse por uma porta, e essa se
fechasse e no saberia o que encontraria pela frente. Ainda bem que Deus 
misericordioso
e permitiu que encontrasse meu filhinho.
40
Tenho planos de aprender para ser til aqui na espiritualidade. Desejo trabalhar
auxiliando os que sofrem. Quero esquecer o passado, mas, s vezes, sou
reconhecida
aqui no plano espiritual.

- Voc no foi artista?

- Sim, respondo

Depois de observada e de alguns comentrios, retornamos s atividades. Sei que
esses fatos sero cada vez mais raros, porque tudo muda, passa, e conosco
permanece
o que de fato somos.

Explicaes de Antnio Carlos

Essa convidada no quis se identificar. Porque nomes so para sermos
identificados por uma encarnao. Podemos nos tornar conhecidos por muitos
motivos, por sermos
talentosos ou por um trabalho srio, seja esse
nas artes, na cincia, na religio etc. J tivemos muitos *
nomes, e com certeza, teremos outros mais. E todos ns nos defrontamos com a
morte do corpo fsico, famosos ou no. E essa foi a histria dela. Muitos
indagam o
que acontece com pessoas conhecidas que tm muitos fs. A desencarnao para
elas no  diferente. O corpo carnal morre. E o socorro logo em seguida  para
aqueles
que fizeram jus. Assim como se comenta entre os encarnados a mudana de plano de
pessoas famosas, na espiritualidade tambm se ouvem comentrios quando isso
acontece.
41
Dizem os desencarnados maldosos e cheios de inveja: "Teve de tudo e do melhor:
homens ou mulheres, carros, viagens, comeu muito bem, fez tudo o que queria. E
agora?
Morreu! Se pudermos a traremos para c e sentir ento o que  viver sem nada!
Vai ter de sofrer! Etc."

Entre os bons se escuta:

'Admirava seu trabalho! Como foi esforada! Como trabalhou para chegar aonde
chegou! Praticou muitas caridades. Era bom filho ou boa filha, e era timo pai
ou tima
me! Etc. Que Deus a abenoe e que ela possa compreender sua mudana de plano,
aceitar seu desencarne e ser socorrida.'

Quase sempre lamentos e choros de fs as incomodam, mas as oraes de carinho
fazem uma barreira em que desencarnados trevosos no conseguem se aproximar. E
para
onde vo depois, se  para o umbral ou para uma colnia, depender somente
delas. Ser conhecida foi resultado de um trabalho e o foi por uma ocasio, mas
so os
nossos atos que nos acompanham e nos faro ficarmos bem ou no.

42

captulo quatro

Em Coma

Estava sentado na minha poltrona preferida, sentia muito cansao e no conseguia
concentrar-me para ler o jornal. No passara o dia bem, tivera muitas
preocupaes
e aborrecimentos.

De repente, senti uma dor forte na cabea, quis gritar e no consegui. Vi um
tnel, passei rpido por ele e fui ao encontro de uma luz clara e brilhante.
Senti-me
amparado

por uma pessoa.

- Ainda no  hora, espere!

Confuso, parei; no consegui ver nitidamente a pessoa que me segurou pelo brao
e que falou comigo de modo carinhoso.

Olhei para baixo, estava na sala de minha casa, s que a um metro e meio acima
da poltrona. Vi-me sentado, quieto, plido, com a respirao descompassada e
barulhenta.

Meu filho aproximou-se e me chamou:

43


- Pai! Papai! O senhor est sentindo alguma coisa? Como no respondi, ele se
inclinou para me ver melhor

e gritou:

- Me! Corre aqui! Papai no est passando bem! Eles correram e telefonaram
chamando uma ambulncia.

 Minha esposa segurou minha mo e chorou aflita. O socorro veio, colocaram meu
corpo na maca. A pessoa que me amparava disse:

-Vem!

Aproximei-me do meu corpo e no vi mais nada at que despertei. No conseguia me
mexer nem falar, mas via e ouvia. Estava na U.T.I. de um hospital e acordei com
um mdico com voz agradvel. Senti que ele pegou na minha mo.

- Vamos l, Niquelino, acorde! Sei que voc  muito trabalhador, no v agora
dar uma de preguioso. Voc teve um acidente vascular cerebral e est no
hospital.
Deve se recuperar. Daqui a pouco  hora de visitas, vou pedir para fazer sua
barba. Vamos reagir!

Quis mexer-me, mas no consegui. Aproximou-se de mim outra pessoa que me
barbeou, limpou-me, mas essa

pouco conversou.

Chegaram as visitas, minha esposa e filha. Fizeram-me carinho e beijaram-me, foi
uma sensao agradvel, muito gostosa. Minha filha falou comigo, disse que tudo
estava bem e que haviam conseguido parcelar minha dvida.

Foram embora e pensei que se no tivesse ficado to preocupado, talvez no
estivesse doente. Mas sempre fui muito honesto, estava endividado e no
conseguia quitar
a


dvida. Isso muito me aborrecia, para no dizer enervava, a ponto de no me
alimentar direito nem dormir

Fiquei com muita pena da minha esposa e dos meus dois filhos. Eles cuidavam de
tudo sozinhos E eu nada mais

podia fazer, pois estava no hospital, vtima daquele acidente vascular, conforme
dissera o mdico

Estava em coma e sentia uma sensao estranha. Dormia, acordava, mas no me
mexia. Ouvia e via os enfermeiros, mdicos e as visitas. s vezes, via pessoas
diferentes
que me orientavam.

- Calma, Niquelino! Seu corpo fsico est em coma e seu estado  grave. Ore,
pense em Deus!

Conseguia fazer oraes as quais havia decorado, e outras fazia como se
conversasse com Deus. E ao Pai Celeste

pedia pelos meus.

No tinha medo. Sentia que todos me queriam bem. Escutei duas enfermeiras
conversando.

- Ser mesmo, Mrcia, que as pessoas em coma ouvem o que conversamos?

- O doutor Cludio acha que sim. Ele  esprita! Talvez seja por isso que ele 
to bondoso e caridoso. Conversa com os doentes em coma como se eles o
escutassem.

- Acho que  por isso que o doutor Cludio est sempre nos pedindo para termos
pensamentos alegres, otimistas e tratarmos muito bem esses doentes.

De fato, doutor Cludio - agora sabia seu nome -, era muito simptico.
Continuava falando comigo, incentivando-me a reagir.

45



Queria atend-lo, mas no sabia como No queria morrer, queria ficar perto de
minha famlia e ajud-los a sair da situao difcil em que estvamos.

Quando de novo vi aquele senhor diferente, porque ele se erguia no ar como um
balo, indaguei-o-

- O que fao para reagir como o doutor Cludio quer?

- Mantendo-se calmo e tranqilo.

- J estou - respondi

- Vamos aguardar. Tudo tem seu tempo - respondeu ele tranqilamente.

Acho que piorei Na visita, minha esposa chorou e meu filho me beijou muitas
vezes.

Vi o tnel de novo, a luz, ansiei para ir para aquela claridade brilhante e fui.
Aquele ser diferente me deu a mo e disse:

-  tempo! Venha!

Adormeci tranqilo. Acordei sem os aparelhos e virei no leito calmamente.
Esforcei-me e consegui sentar-me na cama. Vi com clareza aquele senhor; estava
sentado
ao lado do meu leito, sorriu e me cumprimentou:

- bom dia, Niquelino! Como se sente?

- Sa do coma? O que me aconteceu?

- Niquelino, seu corpo fsico no tinha condies de continuar no plano
encarnado e voc em esprito est aqui, entre ns - explicou ele.

Fiquei quieto, pensamentos vieram e parecia que via o mdico dizer que faleci,
desligarem os aparelhos, meu corpo ser velado e o enterro.

46



- Sinto-me bem - respondi depois de alguns segundos. Estou confuso! Morri? E o
que  morrer de fato?

- Os rgos do corpo carnal param e esse falece. Ns continuamos vivos, somos
espritos e uma outra forma de vida nos  apresentada.

Chorei.

- O que ir me acontecer? - perguntei emocionado,

temeroso e ansioso.

-Viver de outro modo - respondeu o senhor tranqilamente, tentando me dar
segurana.

- E os meus? Minha famlia? Que ser deles, passvamos por grandes dificuldades.

- Passavam, disse bem, tudo passa... No se preocupe com eles - aconselhou-me o
senhor bondosamente.

Mas me preocupei. Sentia-me bem, pelo que me falavam, estava em um posto de
socorro na parte espiritual do hospital, onde estive em coma, sendo tratado com
carinho.
Mas achava que no merecia estar ali me sentindo bem e os meus com tantos
problemas. Quis ir para perto deles; quis tanto que fui.

No entendi como, num instante estava em casa.

Minha esposa e meus dois filhos j haviam resolvido quase todos os nossos
problemas, no achei que foi da melhor forma. Na minha opinio, deveriam ter
tentado sair
do aperto financeiro. Eles quitaram todas as dvidas, entregando a nossa pequena
fbrica aos credores e venderam at a casa onde morvamos. Chorei ao escutar de
minha esposa:

- Foi melhor assim. Niquelino morreu de tanto se preocupar, e no quero que isso
acontea comigo ou com vocs.


Voc, meu filho, tem um diploma, conseguiu um emprego, ser um bom funcionrio e
far carreira dentro dessa empresa. Filhinha, voc logo casar e ir ajudar seu
marido na loja dele. Vamos mudar para aquele pequeno apartamento. Nossa despesa
ser menor, no precisarei de ningum l para me ajudar e estou pensando em
voltar
a costurar.

Fiquei pela casa, comecei a ter dores de cabea, enjo, muita tristeza e, s
vezes, sentia-me perturbado, no sabia h quanto tempo estava ali.

Meu filho chegou  noite em casa com um livro e comeou a l-lo. Escutei-o
comentar com minha esposa:

- Mame, esse livro  timo!  um relato de uma jovem que desencarnou, teve o
corpo fsico morto aos dezenove anos. Ela chama-se Patrcia e o livro Violetas
na
janela. O que est escrito aqui vai de encontro com meu raciocnio. Parece que
sabia disso tudo, tinha esquecido e agora ao ler recordo-me. Ganhei-o de
presente
de um colega de trabalho. Ao me ver triste com a morte de papai, ele quis me
ajudar me dando esse presente. Disse que esse livro iria me auxiliar.

As duas, minha esposa e filha, foram dormir, e meu filho ficou lendo, estava
interessado. Fiquei ao seu lado.

- Papai! Meu pai! - disse meu filho baixinho. -Amo-o, quero que esteja bem e em
paz a no plano espiritual, numa colnia linda! O senhor deve estar pensando em
ns,
pois sempre nos amou. Mas no deve! Passamos por uma lio

1  CARVALHO, Vera Lcia Mannzeck de Violetas na Janela Esprito Patrcia So
Paulo Petit Editora (Nota do Editor)

48



e estamos acertando. Sentimos sua falta, mas como o amamos, queremo-lo feliz a
na espiritualidade! Receba meu beijo!

Estalou um beijo com a boca. Levantou-se e foi para seu quarto.

Fiquei pensando. Eles me queriam bem e desejavam que estivesse feliz, e eu
queria o mesmo para eles. Ali no era o meu lugar. Mas sim aonde meu filho
queria que
estivesse. Chorei e orei. Pensei naquele senhor que tanto me ajudara e ao qual
nem agradeci. Acho que fiquei horas assim, orando, pedindo e chamando aquele
senhor.
E ele veio.

- Vem, Niquelino!

Voltamos ao posto de socorro. Senti-me diferente agora, tive a certeza da
mudana de plano. Agradecido, paciente, tentei fazer tudo o que me recomendavam.
Passei
a receber pensamentos de incentivos de meu filho, da esposa e filha que tambm
leram o livro. Obedeci-os. Fui transferido para a colnia que eles tanto queriam
que
estivesse. Encantei-me com tudo o que vi e recebi. Aprendi a viver desencarnado
e passei a ser til.

Atualmente, tenho permisso para v-los So visitas agradveis. Eles se tornaram
espritas, passaram a ser mais tranqilos e esperanosos. Minha filha se casou,
tudo deu certo para ela. Minha esposa e filho moram num apartamento pequeno, ele
trabalha muito, est bem, e minha esposa costura e tem muitas freguesas. Estou
feliz
como eles queriam que eu estivesse.

Para mim, a desencarnao me pareceu natural, tudo transcorria bem, mas quis
voltar para casa por me preocupar

49



demais. Sei que errei em sair de um local de socorro sem permisso. Voltei
porque quis muito e fui impulsionado pela vontade. Volitei sem saber e depois
no soube
retornar Quando se est abrigado em postos de socorro, sair  mais fcil. Temos
nosso livre-arbtrio para sair de locais de socorro, porque l no se fica
preso.
Isso no ocorre para quem est preso no umbral, l somente se sai pelo socorro.
Poderia ter ocorrido comigo muitos transtornos nesses vinte dias em que fiquei
no
meu lar terreno, porque l estive sem preparo, conhecimento ou permisso.
Poderia, sem querer, trocar energias com os encarnados, ou at sug-los,
vampirizar seus
fluidos vitais, prejudicando-os. Poderia tambm acontecer de desencarnados

mal-intencionados me pegarem e me maltratarem. Certamente iria perturbar cada
vez mais, ter dores atrozes sentindo com intensidade os reflexos do meu corpo
fsico.

Ainda bem que nada disso ocorreu. Recebemos a graa de um presente. Foi pelo
livro esprita que meu filho ganhou e leu que pde compreender e agir diferente,
fazendo-me

querer o socorro.

No  fcil deixar tudo o que amamos e julgamos ser nosso. Mas, querendo ou no,
a desencarnao nos faz deixar. A resposta que obtive para: "E agora?" foi que a
desencarnao  uma mudana e por ela defrontamos com uma continuao de vida
totalmente diferente. Necessitamos de coragem e incentivo dos que amamos e se
isso
acontecer,  como receber um empurro, um alento que nos d vontade de estar bem
para agrad-los. Hoje, no tenho mais esse sentimento de apego nem me preocupo
demasiadamente

50



com minha famlia. Somos solitrios, porm no devemos deixar de ser solidrios.
A vida continua...

  Niquelino

Explicaes de Antnio Carlos

Convidei Niquelino porque ele ficou em coma por cinqenta e dois dias. O coma
no  sentido igual para os que passaram por essa experincia. Para muitos, o
esprito
fica no corpo fsico sem se afastar, sentem como se dormissem, no se recordam
de nada. Temos muitos relatos de pessoas encarnadas que saram do coma, umas no
se
recordam, outras se lembram de muitos fatos. O mesmo se sucede com os que
desencarnaram, alguns se lembram desse perodo e outros no.

O tnel e a luz podem ser tambm sintomas fsicos, desligamento de clulas
cerebrais. Nem todos os que desencarnam vem essa luz ou tnel, ou se vem no
acham o
fato to importante, no lhes chama a ateno para mencionarem. Eu no me lembro
nas minhas desencarnaes de t-las visto. Mas, tambm temos outra explicao
para
essa luz, ela pode ser de amigos desencarnados que esto juntos nesse momento
importante que  para os desencarnantes. Muitos so desligados quando vem a
luz, outros
no, como vemos em muitos relatos. Niquelino a viu por

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duas vezes, na sala de sua casa quando apareceu o senhor citado, o socorrista, e
quando desencarnou. Niquelino, na U.T.I. do hospital, afastava-se do corpo, isto
, seu esprito, alma, ligado pelo cordo prateado ao corpo fsico, via os
encarnados que ali se encontravam e at alguns desencarnados. Tinha noo do que
se passava
ao seu redor. Isso ocorreu em alguns momentos e no o tempo todo. Ele foi uma
pessoa boa, caridosa, religiosa e muito honesta, teve por isso quem o auxiliasse
e
socorresse. O que aconteceu com ele, ocorre com muitos. Sentindo que seus afetos
queridos esto sofrendo acham que  imerecido sentir-se bem. Niquelino resolveu
ir auxili-los. S que ningum ajuda sem saber. Ele saiu do posto de socorro
impulsionado por sua vontade forte e foi para seu lar terreno.

E como muito acontece, um bom livro esprita auxiliou os encarnados,
incentivando-os a ajudar o afeto desencarnado. Patrcia, a autora do livro que
beneficiou a
famlia do convidado, disse-me que o livro Violetas na janela tem ajudado muito
mais os desencarnados, porque quando os que esto no plano fsico o lem, passam
a incentivar seus afetos que foram para a espiritualidade, desejando que esses
estejam bem, e muito os ajudam.

O grande problema de muitos desencarnados  a preocupao com seus bens, os
materiais ou com aqueles que amam. Como esto? Que iro fazer sem mim?

52



Como deix-los em dificuldades? So indagaes que se resumem em: "E agora?". Em
vez de pensarem neles, preocupam-se com os outros. Sofrem at que compreendem
que
todos os problemas se resolvem e que

o amor continua.

Ser desapegado de bens materiais para pessoas que querem ser boas  mais fcil.
Mas ser desapegado dos afetos  mais difcil. Devemos aprender a amar sem apego,
pois  esse amor sem posse que  o verdadeiro.

captulo cinco

Preconceito

que ser de mim quando morrer? Ai, meu Deus! - exclamei baixinho.

Estava num leito do hospital morrendo em conseqncia da aids. Sofria com muitas
dores, enjoos, tonturas e mal-estares. Meu corpo definhava e, injees, sondas
me
maltratavam.

Glorinha entrou na enfermaria com um vasinho de flores e uns pacotes de
bolachas.

- Oi Tonz! Como est Jos Antnio? - cumprimentou-me beijando-me.

- Mal, amiga. Acho que estou para morrer - respondi.

- Nem fale isso! Voc viver muito - disse animando-me. Falou por minutos dando-
me notcias de amigos e de

pessoas conhecidas. Gostava de Glorinha. Prestei mais ateno quando me falou do
orfanato.

- As crianas perguntam de voc, do palhao Ton. Quando lhes falei que estava
doente, os pequeninos oraram

54



para voc se curar. Ontem fizemos uma festa para eles. Estou indo l tambm s
quartas-feiras para dar aula de reforo, fao o que voc me aconselhou. Isso me
faz
muito bem. Pedi para a diretoria do orfanato me empregar e se isso acontecer no
farei mais programas. vou viver do meu salrio, s que no terei mais dinheiro
para
comprar presentes para a garotada.

- Faa isso, Glria! Veja bem o que pode ocorrer com nosso corpo, no somos
nada. Voc no dar presentes, mas dar carinho, que para os rfos  mais
importante
do que os objetos materiais.

Terminado o horrio de visita, Glorinha foi embora e fiquei pensando. Tinha
muitos amigos e eles vinham me ver, traziam mimos e agradavam-me, tentando me
animar.
Avisei meus parentes que estava doente. Tinha irmos, sobrinhos, tios e muitos
primos. Somente um irmo veio me ver. Lembrei-me com tristeza dessa visita; ele
foi
frio, discreto, cumprimentou-me sem me encostar.

"Boa tarde, Jos Antnio! Queria me ver?"

Queria falar tantas coisas para ele, mas diante de sua expresso de desprezo,
disse somente.-

"Queria lhe dizer que tenho um apartamento que est usufruto de voc e dos
nossos irmos. Quando os avisarem

que morri, venda-o e repartam o dinheiro."

"Voc tem dinheiro em bancos? Est precisando de alguma coisa?"

"No, obrigado, tenho tudo o que necessito. No tenho dinheiro em bancos,
somente possuo o apartamento. Gostaria de saber da famlia, d-me notcias
deles" - pedi.

55

 -"Estamos todos bem" - respondeu ele. - "Ainda bem que papai e mame esto
mortos para no terem mais essa vergonha de saber que voc morrer de aids por
ser homossexual."

Virei o rosto e esforcei-me para no chorar. Acho que ele queria me dizer umas
verdades segundo a opinio dele, mas teve o bom senso de se despedir e ir
embora.
No tive mais nenhuma visita da famlia.

A enfermeira veio me medicar. Era atenciosa e delicada.

- Obrigado! - agradeci, tentando sorrir.

- Tratar de voc  um prazer, Jos Antnio.  to educado e no reclama. Acho
que  por isso que tem tantos amigos.

Muitos dos meus amigos eram homossexuais, garotos e garotas de programa, mas
tambm tinha muita amizade pelos companheiros de trabalho, com o pessoal do
orfanato,
vizinhos e proprietrios dos locais em que fazia compras.

No estava com vontade de ler e comecei a pensar na minha vida, em fatos que
nesses anos tinham me acontecido. No gostava de recordar o passado, mas no
lutei com
meus pensamentos, deixei vir as recordaes.

"Homem no tem essa atitude! Vai levar uns tapas para aprender!"

Meu pai me deu uma surra. E no podia chorar para no apanhar mais. E assim foi
minha infncia, surras de papai, mame e ironias dos irmos e parentes.

"Voc  menino! No  mulher! Ponha isso na cabea e aja como homem, pelo amor
de Deus! No nos envergonhe!"

56



No entendia o porqu das agresses. Agia com naturalidade. As surras me levaram
a fingir, a tentar fazer coisas que meus irmos e amiguinhos faziam. Mas era um
desastre. No jogava bem os ]ogos ditos masculinos, no gostava de brigar e fui
me isolando. As meninas gostavam de mim e eu delas, como amigo, mas me era
proibido
ficar perto delas. Vivi a infncia querendo fazer uma coisa e tendo de fazer
outra. Percebi que queria ser menina. E como queria!

Estava sempre triste e infeliz. Era desprezado em casa, e quando recebamos
visitas, tinha que me esconder, ficar no quarto, para no envergonhar a famlia.

Na adolescncia foi pior. Passei-a isolado. No podia ter amigas e os garotos
corriam de mim. Meus irmos me detestavam, pois quando brigavam na rua eram
chamados
de irmos de marica e outros adjetivos depreciativos.

Comecei a orar para Deus me fazer homem mesmo. Ento minha me me falava:

"Voc no deve orar.  uma peste maldita! Sua prece ofende a Deus. Voc pertence
ao demnio!"

De tanto me dizer isso, tinha receio de orar e ofender

a Deus.

Um dia, ao voltar sozinho da escola, ouvi um chamado. Era um moo que se
apresentou. Chamava-se Jlio. Convidou-me para tomar um caf num barzinho em
frente. Enquanto
tomvamos o caf, ele conversou comigo:

"Vejo-o sempre sozinho. No tem amigos?"

"Queria t-los, mas no posso conversar com as garotas e os meninos fogem de
mim."

57



"Por qu? Est doente?" - perguntou Jlio.

'Acho que pior que doena  ser assim..."

"Homossexual?"

"No o sou, acho que sou somente diferente" - respondi, querendo chorar.

"Entendo-o. Embora eu no tenha sofrido tanto preconceito, sou como voc e
muitos outros."

Passamos a conversar sempre, Jlio me esperava no bar e ia encontrar com ele
quando saa da escola. Ficamos amigos. Um dia, um dos meus irmos nos viu. Em
casa,
apanhei dele, de mame, do papai, e fiquei marcado, muito machucado, deixaram-me
de castigo sem alimento. Dias depois, consegui sair de casa, quando mame foi
fazer
compras. Fui ao bar perto de onde morvamos e telefonei para o Jlio. Ele estava
preocupado comigo e me convidou para ir morar com ele.

Fugi. O que me levou a sair de casa foi, que sem ter culpa, era a vergonha da
famlia ou como diziam, a infelicidade deles. Escrevi um bilhete explicando que
ia
embora e pedindo desculpas. Arrumei minhas roupas e sa antes de mame voltar.

Jlio morava em outro bairro, mas perto. Fui para o apartamento dele. Tratou-me
como amigo. Ele tinha um bom emprego, morava num apartamento confortvel.
Transferiu-me
de escola, passei a estudar  noite, e me arrumou um emprego. ramos somente
amigos.

Ele me ensinou tudo o que sabia. Indicava-me bons livros para ler, como deveria
agir, falar, vestir e o que acontecia comigo. Conheci outros homossexuais e
compreendi
que

58



outras pessoas sofriam como eu, passando pela mesma discriminao.

Escrevi muitas cartas aos meus pais, porm no foram respondidas.

Embora temeroso, um dia, em horrio em que sabia que mame estava sozinha, fui
visit-la. Fui recebido friamente.

"Entre" - disse ela -, "no quero que lhe vejam a na porta. Foi bom ter vindo."

Alegrei-me, para, em seguida, ter uma grande decepo.

'Aqui esto algumas roupas suas, quero que as leve. Como tambm quero que no
escreva mais, no necessitamos de notcias suas, sabemos que mora com um homem.
Por
favor, se nos quer algum bem, v para longe, onde ningum o conhea e no nos
venham dizer que o viram.

Quis dizer a ela que nada fizera de errado; porm, diante de seu olhar rancoroso
e frio, nada disse, e mame continuou a falar.

"Voc, Jos Antnio  um perdido! Vai morrer e ir para o inferno,  l o seu
lugar. Deixou que o demnio tomasse conta de voc, est perdido. Ns tentamos
corrigi-lo,
mas o demo foi mais forte. Quando morrer ir para o inferno queimar pela
eternidade!"

Sa de casa atordoado, sofri muito e voltei para o apartamento. Jlio me
consolou.

At ento, nada fizera de errado. No compreendia o porqu de sofrer assim, ser
discriminado; chorei muito.

Jlio resolveu mudar; fomos morar num bairro bem longe do local onde meus pais
moravam. Enturmamo-nos com outros homossexuais.

59



"Se vou para o inferno sem ter cometido pecados, ento vou comet-los" - pensei.
- "Por certo no sou mesmo filho de Deus. Se fosse, por que Ele me fez assim?"

Tive amantes.

Estudei, cursei uma Universidade, e me tornei um excelente profissional.

Jlio adoeceu, cuidei dele com muito carinho, a famlia dele tambm o ajudou.
Ele ia  igreja e orava. Um dia, com muitos amigos no apartamento, um deles me
perguntou
por que no ia a nenhuma igreja e no orava. Jlio respondeu:

Tonz" - era assim que muitos dos meus amigos me chamavam - "tem vergonha de
orar, acha-se indigno".

"Voc indigno?! Nunca conheci algum to digno! Voc  uma pessoa boa! Eu lhe
devo uns dez favores. Acho que se algum deve se envergonhar de orar so os
hipcritas,
os corruptos, os que tiram dos pobres. Se Deus o criou assim, no ir se
envergonhar de voc."

Sorri.

com dinheiro honesto do meu trabalho, comprei um timo apartamento para onde
Jlio e eu nos mudamos. Foi tambm nessa poca que amigos me convidaram para
visitar
um orfanato. Aquelas crianas sem afeto me comoveram. Passei a visit-las,
vestia-me de palhao para alegr-las. Tornei-me um voluntrio. Aprendi a
disfarar meu
jeito feminino, no queria ser, na minha opinio, mau exemplo. Era bem
remunerado. Do meu ordenado pagava nossas despesas, pois no quis que Jlio
trabalhasse mais,
o restante doava para o orfanato.

60



Jlio morreu. Foi muito triste nossa separao.

No local em que eu trabalhava, encontrei com um exvizinho, os pais dele ainda
moravam perto dos meus. Ele me deu notcias. Meus irmos haviam se casado, meus
pais,
j velhos, estavam doentes e necessitando de dinheiro.

Resolvi visit-los. Receberam-me friamente. Ofereci ajuda

"Trabalho meu pai, sou honesto e bom profissional."

"Se no  dinheiro do pecado, aceito. Mas no venha aqui, mande pelo banco."

E assim fiz at que morreram.

Apaixonei-me. Tive ento um relacionamento srio, ele era como eu, honesto,
caridoso, trabalhador e ia comigo ao orfanato.

Descobrimos que ramos soro-positivos. Ele adoeceu, e eu cuidei dele at quando
piorou e sua me o levou para a casa dela. Essa senhora bondosa me tratava bem.
Ele
sofreu muito e depois morreu. Senti-me muito sozinho e no tive mais nenhum
relacionamento.

Dediquei-me ainda mais s crianas do orfanato; elas

me amavam.

- Fiz coisas boas tambm, no fui somente ruim! falei baixinho.

- (os Antnio, trouxe uma pessoa para v-lo! - falou uma enfermeira sorrindo e
me apresentando  visita. - Esse  o padre Lus; e esse  o nosso paciente
favorito!

- Boa tarde!

O padre me cumprimentou sorrindo, respondi baixinho e abaixei a cabea
envergonhado. A enfermeira afastou-se e,

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho - Antnio Carlos

aps perguntar como estava, ao que respondi com monosslabos, ele me indagou:

- No gostou da minha visita? Estou incomodando-o?

Senti-me envergonhado diante da presena de um sacerdote, pois achava ser um
representante de Deus na Terra. Como no respondi, ele falou:

- No se envergonhe por estar doente!

- Tenho aids e a adquiri pela minha homossexualidade.

- No vejo nada de errado em ser homossexual disse ele.

- Mas tive parceiros!

- No acha que j pagou por esse erro? Voc est sofrendo! Por que no pede com
sinceridade perdo a Deus por esses pecados j que reconhece que os praticou?

- No tenho perdo! - falei, sentindo-me sufocado.

- Deus perdoa sempre! Agiu por acaso pior que um homicida ou ladro? Forou
algum a ter relaes com voc?

- No senhor. Isso no fiz!

- Pode ter certeza que Deus o entender - falou o padre com convico.

Tive vontade de contar a ele meus medos, mas estava me sentindo muito mal, a
enfermeira teve de me colocar outra sonda para que respirasse e no consegui
falar.
O padre me abenoou e disse palavras de incentivo. Piorei, at que dormi
tranqilo.

Acordei sem nenhuma sonda e respirando quase normalmente.

62



- bom dia Jos Antnio! Como est voc? - cumprimentou-me uma enfermeira, que eu
no conhecia, com alegria, parecendo-me que cantava.

- Sinto-me bem! Melhorei graas a Deus! - respondi.

- E vai melhorar ainda mais. Que tal tomar uma sopa?

- Obrigado. Mas ser que consigo?

- Claro que sim!

E foi me dando as colheradas. Na primeira temi no engolir, mas tomei toda, e me
senti fortalecido.

Melhorei muito e senti-me aliviado pensando que certamente no iria morrer dessa
vez. Oflia, assim chamava a enfermeira, mimava-me, parecia adivinhar o que
queria.
E dias se passaram tranqilos. Ela me levava ao jardim, local onde gostei muito
de ir. Mas essa bondosa senhora tinha uma conversa estranha, gostava de falar em
morte, tema que me apavorava. Dizia que todos morrem, que entendemos
erroneamente esse fato natural, que o inferno no existe etc. No queria ser
indelicado com
ela e no queria falar desse assunto. Estava me recuperando e j no me sentia
com o "p na cova", como costumvamos nos referir aos doentes terminais. Decidi
lhe
pedir com carinho para falar de outras coisas.

Estava no jardim, sentado  sombra de uma rvore florida, quando senti que
algum me observava, olhei para a porta que dava para o corredor e vi um menino
que ao
perceber que o vi, afastou-se.

'Aquele garoto parece muito com Aldo. Mas no  ele. Aldo j morreu! No, no
pode ser ele!" - pensei.

63



Quando Oflia veio me buscar para retornar ao quarto, indaguei:

- Oflia, tm crianas internadas neste hospital?

- Como pacientes, no. Crianas aqui somente como visitas. Por que pergunta?

-  que vi uma criana, achei-a parecida com Aldo, um menino que conheci no
orfanato e que teve cncer. Sofreu muito, coitadinho, e morreu - respondi.

- que...

- No me fale mais que todos morrem, por favor interrompi.

- Est bem, vou falar de outra coisa. los Antnio, o que voc faria para algum
que ajudou carinhosamente pessoas que voc ama muito?

- Seria muito grato a ela e se pudesse ajud-la faria com todo carinho e amor.

- Pois fao isso - disse Oflia. -Faz?

- Sim, a voc.

- Como, se no a conheo? - perguntei curioso.

- Voc ajudou meus filhos. Rogrio e Aninha. Lembra-se deles?

Lembrei-me. Rogrio e Aninha eram internos no orfanato. Dois irmos que se
queriam muito. Sim, eu era amigo deles. Incentivei-os a estudar, paguei para
eles cursos
de ingls, computao e profissionalizante. Quando Rogrio fez dezoito anos,
aluguei um apartamento pequeno para os dois, eles saram do orfanato,
continuaram a
estudar e foram

64



trabalhar. So excelentes pessoas, deram valor ao que receberam. Depois de algum
tempo no precisei mais ajud-los financeiramente, mas os visitava e os
aconselhava.
Os dois acreditavam que os pais haviam falecido. Olhei bem para Oflia, ela no
me pareceu ser capaz de abandonar os filhos.

- Eles acham que voc morreu! - expressei-me decepcionado.

- Jos Antnio, voc est gostando daqui, melhora e faz sessenta e cinco dias
que est conosco e nesse tempo no tem recebido visitas de amigos. Sabe que est
num
hospital onde no se aplicam medicamentos dolorosos. No lhe parece diferente?

Ela tinha razo, mas se melhorava, para que saber. Fiquei curioso ao escut-la e
indaguei:

- Por que abandonou seus filhos?

- No os abandonei! Eu os amo! Eu morri e voc

tambm! Pronto, disse!

-Uuu...

Senti-me mal, com falta de ar e tremi de medo.

- Calma, Jos Antnio! Tranqilize-se! J faz dois meses e meio que morreu! Que
desencarnou! Fique calmo! - ordenou Oflia.

Fui acalmando-me.

- E agora? - perguntei. - vou para o inferno? vou queimar pela eternidade?

- Claro que no! Vai continuar sua recuperao at ficar sadio e depois ir
aprender a ser til na espiritualidade.

- Estou com medo!

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- Jos Antnio, se voc tivesse de ir para um local de sofrimento, j teria ido.
Est aqui junto de pessoas que lhe querem bem. Aldo est ansioso para lhe dar um
abrao.

com um sinal de mo Oflia chamou algum. Vi Aldo sorrindo, vindo ao meu
encontro. Se j no estivesse morto, certamente morreria de medo. Ao v-lo, tive
a confirmao
de que ela no mentira. Ele me abraou.

- Palhao Ton, que alegria v-lo se recuperando.

- Aldo, morri! Que tristeza! vou ser julgado por Deus e ir para o inferno.

- Chega Jos Antnio! - falou Oflia enrgica. - Se continuar falando assim vou
ficar brava com voc.

Aldo pacientemente me explicou que o inferno como eu acreditava no existia, mas
sim lugares tristes para onde iam os que fizeram maldades. E que Deus no nos
julgava,
e no O vamos como uma figura, porque Ele  um esprito e est em todos os
lugares e dentro de ns.

Fiquei com medo, Aldo e Oflia me tratavam com muito carinho. Compreendi que
desencarnara e esforcei-me para me recuperar. Dias depois estava bem e no tive
mais
receio. Recuperado, fui para uma outra parte do hospital fazer um tratamento,
no seria na espiritualidade um homossexual. com estudo, entendi que esprito
no tem
sexo, mas que o ser masculino ou feminino deixa reflexo no perisprito, e ao nos
livrarmos desses reflexos, tornamo-nos seres humanos,  o que de fato somos.

Soube do meu passado, de minhas vivncias anteriores para compreender porque fui
homossexual. Queria muito

66

reencarnar e o fiz sem preparo. Sentia-me ainda muito feminino, mas animei um
feto masculino. Fora anteriormente muito preconceituosa, fiz por isso muitos
sofrerem
e infelizmente tive de aprender pela dor, sentindo o peso do preconceito para
no o ser mais, aprendendo assim que somos seres humanos, filhos de Deus,
criaturas
rumo ao progresso.

Nesse curso que fiz, ouvi muitos relatos, fatos que levaram espritos a
reencarnar sendo homossexuais. Um senhor que participava disse-nos que na sua
encarnao
anterior fora uma mulher e ela e o marido assassinaram o

filho por ele ser homossexual. E as causas so muitas. Benditos aqueles que no
so promscuos! Quando aprendemos a viver na espiritualidade sem os reflexos do
corpo
fsico, no sentindo fome, sede, necessidade de dormir, tambm deixamos de nos
sentir masculinos ou femininos, para compreender que somos espritos, seres
criados
pelo Pai para sermos felizes. Podemos aprender pelo amor, e esses ensinamentos
sempre nos so oferecidos e, quando recusados, a dor vem nos impulsionar na
nossa
caminhada.

O tempo passou rpido e fiz muitos amigos. Sou muito agradecido pelo socorro que
recebi, quis ser til. Trabalho no falta e o fao com entusiasmo e gratido.
Sou
feliz!

Jos Antnio

Explicaes de Antnio Carlos

Repito que ao desencarnarmos somente nos acompanham nossos conhecimentos e
nossas aes ou atos, bons ou ruins.

67

Aqueles que voltam sem eles, retornam  ptria espiritual sentindo-se vazios,
ocos, e essa sensao os faz sofrer

O erro de Jos Antnio foi ser promscuo e ele teve por conseqncia a aids Se
assim no fosse, ele ficaria mais tempo no plano fsico e certamente
desencarnaria
sem precisar sofrer tanto, doente. O que o padre lhe disse foi o que aconteceu,
resgatou com a dor da doena
seus erros.

E promscuo so todos os que abusam, sejam homens ou mulheres.

Jos Antnio sofreu com o preconceito muito mais do que nos narrou
Preconceituosas so pessoas que no vem uma trave no seu olho, mas vem bem na
do outro, atiram
pedras esquecendo-se de que tambm tm vcios e pecam.

Esse convidado fez amigos, colecionou "Obrigados" e "Deus lhe pague". E muitos
que se sentiram beneficiados por ele, foram sinceramente gratos e quando ele
necessitou,
retriburam.

As crianas do orfanato oraram por ele. Oraes com gratido produzem uma
energia benfica maravilhosa. Oflia, uma me grata, tratou-o como filho do
corao. Nesse
relato fica claro que a amizade  um tesouro e que o amor cobre multides de
pecados. Mesmo sem

2  KARDEC, Allan O Evangelho Segundo o Espiritismo Captulo 10, item 9 So
Paulo Petit Editora (N E )

68

pedir socorro ele foi socorrido. Outros pediram por ele,

que fez por merecer.

Amizade sustenta-se com compreenso e tolerncia,

e a fortalecemos quando fazemos aos amigos o bem

carinhosamente e espontaneamente, e que s vezes

nem notamos.

Que bem precioso  a amizade!

Captulo Seis

Ana Preta

Estava cansada. Sentia-me isolada. H tempos que a maioria das pessoas no me
davam ateno. Resmungava:

- Deve ser porque sou negra, feia e desdentada!  por isso que as pessoas no
conversam comigo. Devo tambm estar doente! Bbada! Doente de tanto beber pinga!

No gostava de recordar o meu passado. Tive um lar at a adolescncia. Minha me
era empregada domstica, cuidou de mim do modo dela e tive muitos padrastos. com
quatorze anos apaixonei-me por um homem de trinta anos que morava numa fazenda e
fui embora com ele. Minha me chorou, pediu para no ir. Essa fazenda era longe
e l tive de trabalhar muito e cuidar dos filhos dele. Ele se embriagava e me
batia. Um dia, fugi e voltei para a casa de minha me. Ela havia morrido e no
encontrei
mais nada dela. Sem ter onde ficar, fui para uma casa de prostituio. No
gostei e logo sa de l com outro homem. Ele tambm se embriagava e

70

motivou-me a beber. Viciei-me. Morvamos numa casinha, num bairro pobre. Ele, s
vezes, trabalhava, mas bebia cada vez mais. Tive com esse homem trs filhos. Ele
no os quis, deixei-os no hospital para serem adotados. No terceiro parto, o
mdico me operou para no ter mais filhos. Esse meu companheiro morreu e desde
esse
dia, tornei-me andarilha e tive muitos outros amantes. Todos como eu,
embriagavam-se. Quando mais jovem, at trabalhava de vez em quando, depois no
conseguia fazer
mais nada e passei a esmolar.

Vivia pelas ruas, passava s vezes dias sem comer. Pessoas generosas me davam
roupas, alimentos e quando ganhava dinheiro, comprava bebidas

Bebia com amigos que agora no falavam mais comigo. Eu estava dormindo embaixo
de um viaduto, e comendo resto de lixo. As pessoas certamente cansaram de mim,
nem
respondiam quando lhes pedia esmolas.

Resolvi parar de me queixar e ir ao bar ali perto. Ia sempre l; nem os
freqentadores nem o dono conversavam comigo, mas me deixavam beber com eles.

- Ol, Ana Preta! Vem c, fique perto desse bebum e beba com ele.

s vezes, achava que estava enlouquecendo. A bebida estava me deixando doida.
Via as pessoas diferentes, umas mais ntidas, outras nem tanto. Fiz o que um
homem
me aconselhou.

De repente, entraram umas pessoas no bar. Eram estranhas, amedrontaram a
maioria. Estavam armados com correntes e barras de ferro.

71



"So bandidos!" - pensei, e tremi de medo.

O mais estranho  que algumas pessoas que estavam no bar nem ligaram; pareciam
nem perceb-los. Esses homens, com aparncia de maus, olharam para todos os
lados
e pegaram um dos freqentadores.

-Voc vem! Ter de prestar conta ao nosso chefe!

O coitado gritou, pediu socorro. Alguns, estavam apavorados como eu, agrupamo-
nos num canto, tremendo de medo sem saber o que fazer. Os outros nem pareciam
v-los.
Amarraram aquele que foram buscar com as correntes, e saram. No quis beber
mais e resolvi ir embora. Alguns pensaram como eu e saram tambm. Um deles
comentou:

- No temos segurana nem depois de morto! Coitado do Joca, os maus o pegaram.

No meu canto, embaixo do viaduto, fiquei pensando em tudo o que estava
acontecendo. H tempos no tinha companheiro, achava que era por estar doente e
muito feia.
A solido me amargurava. Pensei no que aquele homem disse: "No temos segurana
nem depois de morto!".

No sabia orar, mas tinha f em Nossa Senhora Aparecida - sua imagem era negra
como eu. Estava inquieta sentindo falta da bebida, mas mesmo assim, ajoelhei-me
e
pedi para Maria, me de Jesus, ajudar-me.

Lembrei-me de umas pessoas e resolvi ir at a casa delas esmolar, pois sempre me
davam algo. Uma vez um dos meus companheiros me disse que elas eram espritas e
que viam e conversavam com os mortos. Para mim, eram bondosas.

72



Fui l e fiquei parada olhando a casa. Uma senhora veio at mim e me indagou:

- O que a senhora quer?

- A senhora me dar pinga se pedir? -No!

- Ento quero algo para comer.

- Venha comigo. Vamos, o dono da casa e ns, a um local onde voc receber
ajuda.

Fiquei desconfiada, mas esperei. O dono da casa saiu e essa senhora me puxou
pela mo.

- Vamos Ana Preta! J  tempo de voc compreender muitas coisas.

Entramos em um local tranqilo. Senti-me bem, era limpo e algumas pessoas me
cumprimentaram, outras pareciam nem me ver. Essa senhora me colocou junto de
outras
pessoas que como eu, estavam desconfiadas.

Achei tudo muito bonito. Uma senhora alegrinha falou que devemos amar e pensar
em Jesus. Um senhor falou bonito, mas entendi pouca coisa. Gostei mesmo foi das
oraes.

Percebi que as pessoas se diferenciavam umas das outras. Aproximei-me de uma
moa que estava sentada, havia um grupo desses que achei diferente, sentados em
volta
de uma mesa.

- Fale com eles Ana Preta! - pediu uma senhora. Cumprimentaram-me e eu respondi.
Como me deram

ateno e me perguntaram como estava, falei de mim, da minha tristeza, solido e
acabei chorando.

Um moo que conversava comigo fez-me ver que para se comunicar com eles, eu
deveria falar e a moa que estava

73

 sentada repetia, porm ela no estava me imitando. Ele me pediu que prestasse
ateno em nossos corpos e vi naquele momento
que no ramos parecidos. com delicadeza
me explicou, at que compreendi, que h tempos, meu corpo fsico morrera.

Lembrei-me do acidente. Era de noite, estava embriagada, atravessei sem prestar
ateno a rua e um carro me atropelou. Achei,
naquele instante em que bati a cabea,
que dormi. Acordei embaixo do viaduto, no me lembrando direito o que
acontecera.

Mas foi nesse atropelamento que desencarnei. Senti um medo terrvel, d de mim e
indaguei:

"O que ser de mim agora?"

Diante daquelas pessoas soube, ento, que alguns estavam encarnados e outros
desencarnados. Todos, porm, eram bondosos
e me ofereceram ajuda; tranqilizei-me e
aceitei o convite de ficar com eles.

Fui levada a um hospital; tinha um forte reflexo do corpo fsico, das doenas e
uma vontade imensa de beber.

Havia bebido tanto na minha vida encarnada, viciando-me de tal forma, que para
me livrar dessa vontade tive de fazer um
longo tratamento. Nesse perodo em que estive
no hospital, estudei e aprendi a trabalhar, fazendo limpeza no local que me
abrigava.

Quando terminei o tratamento, pedi para ajudar as pessoas que se embriagavam.
Foi-me explicado que no estava preparada
para isso, que deveria fazer outro trabalho.

Fui ser til na escola, fazendo limpeza e me dei muito bem.

74



Hoje sou chamada somente de Ana e meu aspecto est bom: estou limpinha, sadia e
alegre.

At chorei de emoo quando o senhor Antnio Carlos me convidou para contar s
pessoas o que senti quando desencarnei. Como
narrei, no instante em que meu corpo
fsico morreu no senti nada, estava embriagada e fiquei por anos vivendo e
ignorando esse acontecimento. Foi somente numa
reunio esprita, de desobsesso que vim
a saber que mudara de plano e que necessitava aprender a viver na
espiritualidade. Foi difcil para eu me livrar da vontade
de me embriagar, mas quando pela compreenso,
livrei-me dos meus vcios, do reflexo do corpo fsico, tornei-me muito feliz.

   Ana

(Explicaes de Antnio Carlos

Ana foi, quando encarnada, uma andarilha que se embriagava. O choque foi grande
no atropelamento e os rgos de seu corpo
fsico pararam de imediato suas funes.
No impacto foi desligada, isto , seu esprito vestido do perisprito saiu do
corpo carnal morto. Esse fato pode ocorrer
com muitos indivduos vtimas de choques
violentos. Ela voltou para seu canto, sem entender o que lhe acontecera. Achava
que as pessoas no queriam conversar com
ela, mas quando ia aos bares encontrava
outros desencarnados, viciados na bebida. Iam vampirizar os encarnados que se
embriagavam.

75



Desencarnados no bebem, no comem alimentos ou bebidas da matria. Vampirizam,
ou seja, sugam de quem come ou bebe fluidos
e sentem como se bebessem ou

se alimentassem.

A cena do bar, descrita por Ana, aconteceu porque espritos moradores do umbral
vieram pegar um desencarnado que estava
l. Os desencarnados que vagam correm perigo
de serem capturados e levados para o umbral e l serem maltratados ou obrigados
a trabalhar

como escravos.

Quando Ana pediu ajuda, lembrando-se de Nossa Senhora Aparecida, foi instruda a
procurar quem podia auxili-la. A senhora
que ela viu na frente da casa era uma
trabalhadora da espiritualidade e mentora do morador daquele lar. Ambos, a
senhora e o encarnado, freqentavam um centro
esprita, ao qual Ana foi levada. L ela
recebeu a orientao de que necessitava. Como o trabalho de desobsesso 
importante! Como se faz o bem a tantos iludidos!
Que esses trabalhadores

continuem a realizar essa tarefa e, sempre, com amor e carinho. Lembrando: quem
orienta no precisa, com certeza, de orientao,
pois j foi instrudo a respeito
do assunto.

Vcios so adquiridos e quem se vicia, torna-se dependente deles. Libertar-se,
deixar de ser viciado, cabe  prpria pessoa.
Mas, tanto encarnados quanto desencarnados
recebem ajuda. Ana necessitou de uma terapia para se livrar do forte reflexo que
tinha.

76



Realmente, ela no est preparada para ajudar pessoas viciadas No plano
espiritual existe cautela, e ela s estar apta
a fazer esse trabalho quando provar a si
mesma que tendo oportunidade no voltar a beber. Infelizmente muitas pessoas
iguais a ela passam anos enganando-se, iludindo-se
e achando que esto vivendo na matria
densa, no corpo carnal Ela somente teve conscincia dessa sua mudana quando
compreendeu, pela orientao de um encarnado,
num centro esprita, que seu envoltrio
carnal morrera e aflita quis saber o que aconteceria com ela. Ana somente
sentiu-se viver novamente quando se livrou do
vcio.

77

captulo sete

O O Presidirio

Nem todas as aes que consideramos prazerosas tm reaes agradveis!

Estava triste pensando nisso. Meu corpo fsico havia morrido h dias. Sofri
muitas dores, tive cncer nos rins. A falta
de um diagnstico mais detalhado e de um
tratamento abreviou minha estada encarnado.

Estive preso em um grande presdio e continuei ali. Bastava subir uma escada,
que antes no via nem sabia que existia, para
estar numa outra enfermaria. Ainda me
sentia adoentado, sem, porm, sentir as dores terrveis.

Acabrunhado, tentava disfarar meu temor e me indagava: o que ser de mim agora?
Havia morrido e continuava vivo. Confuso,
sem entender bem o que me aconteceu, vi
por ali companheiros que tambm haviam falecido, e deles escutei:

- Marcelo, a vida  assim mesmo, ora l e ora c!

78



- O corpo de carne morre e nossa alma vem para esse lado!

-Alguns saem daqui e outros no! No se aborrea e procure no se entristecer!

Apesar de ouvi-los, continuei triste porque ningum sentira meu falecimento, nem
fora ao meu enterro, e no recebera nenhuma
orao.

- Venha, Marcelo, vamos para cima descansar!

Esse desencarnado que me falou, era diferente, estava limpo e era agradvel de
se ver

- Converse comigo - pedi -, explique-me o que me

aconteceu.


- Marcelo, seus companheiros tm razo, seu corpo

fsico morreu, e quando isso acontece continuamos vivos, vivendo com esse corpo
ao qual chamamos de perisprito. Muitos,
quando isso acontece, saem do presdio e
outros continuam, ficam aqui para aprender.

- Voc  diferente! Esteve preso? - perguntei.

- No! No estive, quando encarnado, em presdio, estou aqui trabalhando,
ajudando e aprendendo.

Fiquei alguns dias nessa enfermaria. Sentindo-me melhor, desci, e l estavam
meus companheiros que ficaram no corpo carnal.
Percebi a diferena. Vi que a construo
da enfermaria em que estava era espiritual e os encarnados

no a viam.

Estranhei muitas coisas. Muitos desencarnados estavam

ali, alguns pareciam enlouquecidos, outros com dio profundo dos encarnados que
ali estavam, a eles ficavam unidos,



79



permanecendo presos tambm. Outros, como eu, mudaram de plano e no sabiam o que
fazer, E tambm haviam desencarnados que
eu sentia serem bons, que chamvamos de
Anjos do Senhor ou de socorristas, estes auxiliavam a todos. Trabalho duro o
deles!

Aproximei-me de um socorrista, que tentava cuidar de um encarnado que havia sido
surrado. Ele me explicou:

- Como v, nosso trabalho  difcil! Ele no est receptivo, isto , vibrando
bem para receber nossa ajuda. Est com raiva.
No tenho muito o que fazer. Outros encarnados
poderiam ajud-lo.

- Voc fica aqui o tempo todo? Ou pode sair? - quis saber.

- No estou preso, trabalho aqui e posso sair. Todos os desencarnados que voc
v neste posto tm liberdade de ir e vir.
V aquele grupo? So desencarnados que vieram
verificar se seus desafetos esto sofrendo. Outros aqui vm para visitar, dar
esperana aos entes amados.

Uma senhora desencarnada aproximou-se do moo surrado e o abraou.

-  a me dele que est no plano espiritual; ela veio acalentar o filho -
explicou o socorrista.

O trabalhador afastou-se e eu fiquei olhando aquela mezinha, em lgrimas,
beijar e abraar o filho. Ele nem percebia.

No conheci minha me, fui criado pelo meu pai e minha madrasta. Era muito
impulsivo, a mulher de meu pai, aconselhava-me:
"Marcelo, no seja assim! Voc fica nervoso
por qualquer coisa e agride. Um dia ir se arrepender".

80


No parava em empregos, estava sempre brigando Apaixonei-me e casei, tivemos
dois filhos. Brigava muito com minha esposa
e a surrava, arrependia-me e me desculpava.
Ia a bares e bebia, mas no me embriagava Um dia, no bar, numa briga, um homem
sacou de uma faca e me feriu na perna, revidei,
conseguindo desarm-lo; matei-o. Arrependi-me,
mas fiquei preso por oito anos Nesse tempo recebi poucas visitas, soube que
minha mulher arrumou outro marido e que meus
filhos sentiam vergonha de mim. Desencarnei
sozinho e abandonado. No dei valor  famlia e fiquei sem ela.

Passei a ficar perto dos socorristas vendo o que eles faziam.

- Marcelo, passe esse pacote! Venha me ajudar! Comecei a fazer pequenas tarefas
e me senti melhor.

-  ajudando que nos sentimos bem - explicou um deles. - Por que voc no
trabalha conosco? Sabemos que se arrependeu por
ter assassinado uma pessoa. Pagou por isso
e na priso ajudava seus companheiros.

Era"Verdade. Sofri muito quando fui para o presdio. Foi um horror Briguei,
bati, apanhei muito e aprendi a me controlar.
Trabalhei na cozinha, na enfermaria e estava
sempre consolando os que sofriam. E como se sofria ali.

- Por que tenho de ajudar assassinos? Por que vocs os auxiliam? - indaguei.

 Marcelo, voc se lembra da parbola do samantano3? O que ajudou o ferido na
estrada?
3  KARDEC, Allan O Evangelho Segundo o Espiritismo Captulo 15 So Paulo Petit
Editora (N E)




1

- Sim, lembro-me! - respondi.
- Depois de alguns meses no presdio, passei a ler e a estudar a Bblia com um
grupo, e foi isso que melhorou meu carter.

- Pois ento - explicou o socorrista -, o "prximo", alm do ferido so os
bandidos que o feriram. A Humanidade toda  nosso
prximo. No se consegue amar o Pai
Divino se no amarmos nossos irmos humanos.

- Quero trabalhar! Posso aprender com vocs a ajudar! Mas para comear vou
auxiliar quem sei ser inocente. Joo da Pinha
est aqui sem ser culpado.

O socorrista sorriu concordando. Fui at a cela do Joo da Pinha.

Por causa de uma armao, ele, um inocente estava preso. Ali todos o tratavam
bem. Eu, quando encarnado, facilitava sua
vida, dava-lhe at mistura da minha comida.
Estive preso, mas era culpado, ele no.

Aproximei-me do Joo da Pinha e estranhei, ele tinha a mancha rubra que tem os
homicidas. Fiquei observando-o. Examinei
Jair, o companheiro de cela do Joo, que
fora um ladro hbil, ele no tinha o sinal de assassino. Cheguei perto do Joo
da Pinha e escutei seus pensamentos: "Matei
os dois e no me arrependo, devo continuar
mentindo, vou acabar conseguindo sair daqui".

Fiquei muito surpreso. Acreditvamos que ele era inocente. Tanto que um dia
reunimo-nos e pedimos para falar com o diretor
sobre a injustia que estava sendo feita
ao Joo, pois ele era inocente.

j

ele no era! Decepcionado corri at o socorrista.
- Ele no  inocente!" Matou mesmo sua mulher e seu scio.

- Ele tambm necessita de auxlio! - exclamou o socorrista. - Uma ajuda
diferente. Tente faz-lo pensar que erra em continuar
mentindo e em querer que um inocente
seja preso. Marcelo, aqui h presos que no cometeram os crimes dos quais foram
acusados, mas no h inocentes.

No me aproximei mais dele, estava decepcionado. Joo da Pinha, meses depois,
saiu do presdio. Eu fiquei ajudando os socorristas.

- Esse  inocente! - exclamei. - Bandidos armaram para ele!

- Na outra existncia ele cometeu um crime e no foi preso.

- Porisso que vocs dizem que aqui no h inocentes! Ainda bem que paguei pelo
meu crime.

Um socorrista me levou para ver meus filhos. Chorei de emoo, eles estavam
estudando, eram boas pessoas, tratavam o padrasto
como pai e esse gostava deles. Agradeci
o homem que ficou em meu lugar. Senti-me bem com esse gesto.

Quando voltei, o socorrista responsvel pelo trabalho no presdio, um senhor que
orientava a todos, foi conversar comigo.

- Marcelo, agiu bem, sua atitude diante de sua famlia foi correta. Tambm
estamos satisfeitos com seu trabalho. Voc est
apto a conhecer outros lugares e a estudar.
Quer ir para uma colnia espiritual?

83



J ouvira os socorristas comentarem sobre as cidades da espiritualidade. Pensei
na proposta e achei que no saberia me comportar,
dei minha resposta:

- Acho que ainda tenho muito que aprender para ir morar em uma colnia. Quero
ficar mais tempo aqui!

- Ento fique como socorrista!

Alegrei-me, senti-me orgulhoso e passei a ser um socorrista. Ajudava meus ex-
companheiros e os que desencarnavam ali.

Dez anos se passaram. Vi, no presdio, muitas coisas. Prises so lugares de
resgate, deveriam ser escolas que educam. Muitos
presos melhoram atravs de lies dolorosas.
Outros, pioram, revoltam-se, desesperam-se, odeiam e aprendem lies que os
tornam piores e capazes de cometer crimes piores.
Todos so carentes de conselhos bons,
ajuda e orientao.

Senti necessidade de estudar e fui para uma colnia. Adquiri muitos
conhecimentos nesses anos em que estive trabalhando
com os socorristas no presdio. Mas havia
muita coisa para ver e conhecer.

Aprendi pela dor a me conter, a no ser impulsivo, a no deixar a raiva me
dominar. Poderia ter aprendido pelo amor, pelos
conselhos. Atualmente sou calmo, modifiquei-me,
e isso ocorreu quando comecei a me preocupar com o prximo e passei a ser mais
caridoso.

Tenho muitos planos: quero trabalhar aqui na espiritualidade em vrios lugares e
conhecer as muitas formas de auxiliar com
conhecimento. S depois pedirei para reencarnar.

84

Quando no se tem a conscincia tranqila, a morte do corpo fsico nos d muito
medo e insegurana. Temerosos indagamos:
"E agora?". Mas a vida continua e sempre
encontramos quem nos auxilia. Somente nos sentimos bem, quando passamos a ser
teis.

Encontrei com a pessoa a qual assassinei. Tornamo-nos amigos. Compreendemos que
ns dois erramos. Ele me falou que ao desencarnar
sofreu muito e teve raiva de mim.
Depois compreendeu que ele tambm errara, ento perdoou, pediu ajuda e foi
socorrido. com o perdo a mancha rubra sumiu
de mim.

Bendito o perdo!

    Marcelo

Explicaes de Antonio Carlos

Aqueles que tm percepo de ver enxergam tanto encarnados como desencarnados
envolvidos por cores. Refletimos na aura
o que somos de verdade e as cores indicam
o que pensamos, o que fazemos etc. Pessoas boas refletem cores claras e
brilhantes, parecendo luzes. Por isso que santos
so vistos, foram e so pintados envoltos
por luzes ou aurolas nas cabeas. Os viciosos e os que se entregam aos
sentimentos fortes irradiam cores escuras e acentuadas.

Dizem que os assassinos tm sangue nas mos. No nas mos do fsico, pois essas
so lavadas e ficam

85



limpas, mas nas mos perispirituais, e para limp-las, so necessrias lgrimas
de dor ou um trabalho edificante. Assassinos
so vistos tambm envoltos de um vermelho
forte principalmente nas mos, como j disse, e na cabea. Para Marcelo, essa
era a marca dos homicidas. No deixa de ser,
porque no plano espiritual no tem como
mentir, enganar, no h como disfarar o que somos.

Marcelo tambm tinha a sua aura rubra, at que se reconciliou, sentindo-se
perdoado, no s pelo outro, mas por si mesmo.
E essa cor forte desapareceu nesse convidado
quando ele passou a fazer o bem. com seu trabalho de ajuda dirio, a marca foi
clareando e a cor rubra foi enfraquecendo
at que sumiu, dando lugar a outra mais
clara, a do aprendizado, da caridade e da compreenso.

Em todas as prises h equipes de socorristas e em quase todas existe um posto
de socorro onde trabalhadores do bem tm
um lugar para ficar e enfermarias que auxiliam
os que l desencarnam. Dos que tiveram o corpo fsico morto em prises, alguns
vo para o umbral por serem afins de outros,
ou para continuarem presos pelos desafetos.
Outros, so socorridos e levados para colnias, e h os que saem e vo para os
antigos lares ou ficam a vagar. A minoria,
como Marcelo,  orientada ali mesmo pela
equipe de trabalhadores. com o tempo, essa pequena parcela de ex-presos passa a
aprender a realizar tarefas, ficando

86



sob a orientao de socorristas mais experientes. Isso para compreender que 
ajudando que se recebe ajuda. Quando passam
a gostar do trabalho lhes  oferecido estudo
e conhecimento do plano espiritual. Preso cumpre pena, paga pelo crime sendo
privado de sua liberdade. Muitos dos que foram
presos pagam realmente, isto , resgatam
pela dor os erros que cometeram. Mas somente se livram das cores fortes dos

vcios os que se arrependeram, pediram perdo e perdoaram sinceramente.

Todos ns, onde quer que estejamos, podemos ajudar o prximo. Mas h tarefas que
requerem muito boa vontade, amor e dedicao,
como o trabalho dos socorristas que
servem no umbral, local onde h guerras, torturas e nas prises.

Tenho muita admirao por esses abnegados trabalhadores, desconhecidos dos
homens, mas conhecidos de Deus.

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Captulo 8

O Suicida


Istava muito preocupado e no me sentia bem. Dava muita importncia ao dinheiro,
colocando-o em primeiro lugar na minha
vida, e com sua escassez ficava nervoso e
inquieto. Nada mais tinha valor para mim; o resto era secundrio e esses tambm
no estavam
bem.

Minha filha me disse ao me ver preocupado:

- Papai, diga para ns o que o est aborrecendo tanto! Sinto-o nervoso e percebo
que est triste.

- No  nada, filhinha. Deve ser somente uma indisposio.

- Acho, pai - opinou meu filho -, que estamos gastando muito dinheiro. Talvez
deveramos adiar nossa viagem

ao exterior.

-Vocs, meus filhos, merecem essa viagem! - exclamei.

- Filhos - disse minha esposa -, deixem seu pai em paz. Sei bem o que est se
passando. Jos, com certeza,

88

est tendo um relacionamento com outra mulher e sua conscincia deve estar
doendo E voc, meu filho, no se preocupe com
a viagem. Se ele gasta dinheiro com mulheres,
 justo que gastemos conosco.

- No tenho amantes! - repliquei em tom cansado.

- Papaizinho, se o que o preocupa  grave, temos de saber.

O telefone tocou e minha filha correu para atender esquecendo-se de mim.

Quase contei a ela. Fiquei ali na sala, esquecido por eles. Pensei pela milsima
vez no que ia fazer.

Ia  igreja, porm agora compreendi que tive o ttulo de religioso, mas no o
fui realmente. No tinha religiosidade dentro
de mim. Achei, naquele momento, que a
igreja que freqentava no podia fazer nada por mim.

Tinha uma pequena indstria e poderamos viver de sua renda se no fssemos to
esbanjadores. No conseguia negar nada aos
meus dois filhos.

Anos antes, trara minha esposa; no foi nada srio, porm ela descobriu, ficou
sentida e passou a gastar muito. Achava
que se no sobrasse dinheiro eu no iria
gastar com outras. Para no abaixar nosso padro de vida, fiz emprstimos. Um
dia, um amigo pediu-me um dinheiro emprestado
e o fiz com juros mais altos do que os
bancrios. Julguei que achara uma forma de ter mais rendimento. Pegava dinheiro
de pequenos poupadores a uma taxa de juros
baixa e emprestava com juros mais altos.
Fiz isso por anos. Mas houve mudanas financeiras do governo, tive prejuzo e
gastos mais

89


excessivos em casa. Minha dvida estava imensa e no tinha

nem como pagar os juros. Era to crtica minha situao que nem vendendo a casa
na qual morvamos e a fbrica no quitaria
a metade da dvida.

Pensava nas pessoas que confiaram em mim, que deixaram suas economias comigo.

"So ambiciosas!" - justifiquei. - "Seria mais garantido para eles colocar o
dinheiro em bancos, mas quiseram ganhar mais,
e vo perder."

Por mais que pensasse, no achava soluo e no tinha coragem de dizer  famlia
a dificuldade pela qual passvamos.

" melhor acabar com tudo! No agentarei passar pela vergonha de estar
arruinado e pela misria."

Pensando somente em mim, planejei com detalhes meu suicdio, marquei at a data.
Na vspera, quis que minha esposa fizesse
um jantar especial. Conversamos normalmente,
disfarcei minhas preocupaes.

Seguindo meu plano, entrei no escritrio de nossa casa e dei um tiro no ouvido.

No morri! Meu corpo fsico sim, com o ferimento mortal, os rgos findaram suas
funes. Meu esprito, que no morreu,
ficou grudado no corpo carnal. Confuso, com
muita dor, vi tudo o que se passava.

Soube que havia morrido pelas conversas que ouvia, pelo choro de minha filha e
pela confirmao do mdico.

Foi horrvel! Minha esposa que j no me amava mais, sentiu mgoa e raiva.
Somente meus filhos sofreram, eles

90


no conseguiam entender o porqu do meu ato. Foi no velrio que um amigo disse a
minha mulher.

- Acho que Jos se matou porque tem muitas dvidas! E algumas pessoas no
tiveram nem compaixo; indagavam para minha esposa
e filhos sobre o dinheiro deles.

Deitado dentro de um caixo, sentia frio, sede e uma dor alucinante, como tambm
a raiva de algumas pessoas.

Apavorei-me, queria morrer mesmo, mas isso no ocorreu: continuava vivo sabendo
que j estava morto. Os seguidores da religio
que seguia tinham razo, sobrevivemos
 morte do corpo fsico.

O desespero foi maior no enterro! Fiquei ali, no escuro, sentindo horrorizado
frio e dor.

- Covarde! - falou uma voz, xingando-me. Voc pegou emprestado dinheiro de minha
mulher. A coitada vai passar por dificuldade
por sua culpa. Por que no foi honesto?
Se sabia que no iria conseguir pagar, por que fez esse emprstimo? Por que voc
no ficou encarnado e tentou resolver a
situao?

- Voc transgrediu uma Lei Divina: "No matars!". Suicidou-se e agora ir
sofrer! - disse outra pessoa.

- Ficar sozinho a no escuro, mas ouvir o que as pessoas pensam e acham de
voc! - falou outra voz.

Afastaram-se e fiquei ali, dentro do tmulo, no caixo. Fui piorando. Alm de
continuar sentindo dores, o barulho do tiro
soava na minha cabea e os vermes comearam
a me comer. Que padecimento atroz!

E, aquelas vozes tinham razo, escutei pessoas dizerem que merecia estar no
inferno. Outros me cobravam o dinheiro

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que lhes devia. O pior foi a minha famlia. Minha esposa me maldizia por deix-
la em situao difcil. At meus filhos indagavam
o porqu de no ter dito a eles
sobre a nossa falncia, de ter me suicidado, fugido do problema e deixado para
eles resolverem.

Venderam todos os bens que possuamos: a casa, a fbrica, e at os mveis do
nosso lar. Pagaram um pouco para cada um dos
credores. Mudaram de cidade. Como me foi
explicado, eu soube de tudo o que ocorria com eles porque sentia os pensamentos
deles. Meus filhos arrumaram emprego e residiam
num apartamento pequeno. A famlia
de minha esposa os ajudou. No me perdoaram e tinham mgoa de mim.

A dor era tanta e o horror de ficar na escurido era

imenso, eu dava gritos alucinantes. Seria deprimente descrever tudo o que
passei. O tempo foi passando e o fato foi sendo
esquecido.

Um vulto comeou a me falar com sua voz calma:

- Jos, pea perdo! Arrependa-se! Deus nos perdoa sempre!

- Mas os que prejudiquei no me perdoaro!

- Acabaro por esquecer!

s vezes sentia-me enlouquecido, outras, raciocinava entendendo tudo. J no
gritava, gemia. Um dia, aquele vulto me tirou
do tmulo, do caixo e me levou para um
outro local: O Vale dos Suicidas4. Ali fiquei num canto, triste, vendo

4  Vale dos Suicidas so lugares situados no umbral, onde suicidas so
agrupados. E um local de sofrimentos, em que a permanncia
depende deles prprios, do arrependimento
de cada um (N.E.)

92

muitos sofrerem como eu. Padecamos juntos. Naquele local, para mim mais
sossegado, pensei no que fiz e me arrependi. O
remorso di e, aos poucos, a dor desse sentimento
tornou-se maior do que as outras que sentira. Se pudesse voltar no tempo, com
sinceridade no me suicidaria, no seria covarde
abandonando os problemas e prejudicando
minha famlia com meu ato abominvel.

Muitos anos se passaram. Fui socorrido. No hospital para onde fui levado no
senti mais dores no ferimento, frio, fome ou
sede, somente permaneceu a dor do remorso.

Quis me recuperar, esforcei-me para isso e fui melhorando gradualmente.
Sentindo-me melhor, fui estudar para aprender a"
viver desencarnado e para ter amor  vida
em todos os seus estgios.

O tempo passou, poucos se lembram de mim e entre eles, somente alguns guardam
mgoa.

Minha ex-esposa casou-se de novo, no gosta nem de lembrar de mim, acha, e com
razo, que a fiz muito infeliz, que pelo
meu suicdio, passou muita vergonha e foi
humilhada. Ainda no me perdoou.

Meus filhos me acham covarde, ficaram sentidos com minha atitude, mas me
perdoaram Lembram-se muito pouco de mim e quando
o fazem me tacham de infeliz.

Tento esquecer o sofrimento pelo qual passei por minha prpria escolha, mas no
 fcil, esses acontecimentos me marcaram
muito. Se me lembro do momento que desencarnei,
escuto o tiro, sinto a dor e choro.

93


Estou abrigado em uma colnia que socorre suicidas. Tenho por tarefa ajudar os
recm-chegados a esta casa de caridade. Tenho
escutado muitos relatos. Deserdara vida
fsica

 um erro e as reaes no so iguais para todos. Eu sofri muito porque alm de
suicidar-me, planejei e agi friamente. Muitos
agiram pior do que eu e sofreram bem
mais. Outros tiveram atenuantes, agiram num impulso, estavam doentes ou
obsediados. Alguns se arrependeram com sinceridade
logo aps terem cometido esse ato tresloucado,
outros no.

Pela justia divina, um suicida no sofre igual ao outro. Cada caso  um caso,
analisado com carinho por dedicados socorristas
que trabalham auxiliando-os. * '
Para mim, o depois da morte fsica, foi um horror, desespero e muito sofrimento.
Aceitei o convite de vir contar o que me
aconteceu, na esperana de que meu relato
possa levar pessoas a refletirem e abolirem a vontade de se matar. No vale a
pena fugir de um dos nossos estgios da vida.
Vivos sempre estaremos, porque no se
mata a alma.

Anseio por reencarnar. Mas tenho de esperar pela oportunidade, pois esta que
tive, desprezei.

Gostaria de ser perdoado por todos a quem prejudiquei. Estou dando muito valor
ao perdo. Aquele que perdoa  nutrido pelo
sentimento maravilhoso do amor. Tambm
estou aprendendo a ser grato e quero agir de tal forma que venha a receber a
gratido de muitos.

Que Deus nos abenoe!

    Jos

94


Explicaes de Antonio Carlos

O plano espiritual  imenso. A espiritualidade que envolve a Terra  talvez do
mesmo tamanho dela. E, nesse plano espiritual,
temos o umbral, local de moradia de
imprudentes, dos que se negam a seguir os mandamentos e os ensinos de Jesus.
Temos lugares de socorro, colnias e postos,
onde so abrigados os que sofrem e querem
se modificar, e nesses abrigos moram os que querem fazer o bem, aprender,
conhecer a verdade, progredir e os que se preocupam
com os que sofrem.

As estatsticas nos informam que temos muitas mortes por suicdio, muitos matam
seu prprio envoltrio fsico. Jos narrou-nos
o que aconteceu com ele. Para no
ficar extenso o relato nem muito triste, no nos descreveu nem um quarto do seu
sofrimento. As vozes que primeiramente escutou
eram de desencarnados que se sentiram
prejudicados por ele. O vulto que tentava ajud-lo foi de um socorrista que
auxiliava desencarnados que sofrem em cemitrios.
Nem todos escutam vozes ou sabem o
que ocorre com a famlia encarnada. Muitos se perturbam tanto que no tm
condies de receber pensamentos dos encarnados.
Mas todos recebem o benefcio das oraes.
De fato, na espiritualidade no existe regra geral, fez isso e pagar assim...
Mas h algumas regras que so seguidas. Os
suicidas aqui da espiritualidade ficam

95


separados, quase sempre, dos demais. Alguns ficam no umbral, onde existem
numerosos locais que so chamados de O Vale dos
Suicidas, e que alguns denominam de Inferno
dos Suicidas e de muitos outros

adjetivos. So lugares onde ficam temporariamente esses desertores do plano
fsico. Quando so socorridos normalmente so
levados para colnias apropriadas a eles
- h muitas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Nesses abrigos existem alas
para jovens separadas dos adultos. L eles
recebem tratamentos especiais e muito amor.
So convidados a estudar, a fazer cursos que os incentivam a amar a vida que nos
 dada pela graa e pela bondade de Deus.
Muitos ex-suicidas, pelo trabalho abnegado
de socorristas, recuperam-se; outros pelo remorso destrutivo que sentem, no
conseguem melhorar e a reencarnao para eles,
alm de ser uma bno e graa,  tambm
remdio para seu atormentado esprito. Muitos como Jos tm conscincia de seu
erro e esto dispostos a agiracertadamente.
Recebem recomendaes para se prepararem
bem antes de reencarnar, isso para que, ao voltar ao plano fsico, o faam com
segurana. No  para sempre o sofrimento
de um suicida nem de forma parecida, mas
o padecimento  grande. Jos tem razo por ansiar pelo perdo. Devemos perdoar a
todos, pois somos carentes de perdo. Familiares
e amigos de um suicida devem perdo-lo
e desejar que esteja bem.

96

Aquele que perdoa, ama, e o amor  o sustentculo de nossa vida.

Jos estava presente quando fiz essa explicao e ele me indagou:

-Antnio Carlos, o que acontece com terroristas suicidas na espiritualidade?

Respondi a ele e resolvi colocar a resposta aqui, para concluir o assunto sobre
suicdio.

-A maioria desses suicidas que so tachados de terroristas, so idealistas,
lutam por uma causa que julgam ser justa. So
fanticos e erroneamente acham essa atitude
certa. No agem como suicidas normais que querem deserdar a vida fsica. Eles
querem continuar a viver, acreditam na vida
no Alm, tanto que esperam recompensas.
Sentem-se heris e corajosos. "Mas em todas as religies e dentro de ns, h
preceitos de bem viver e um deles : 'No matars!'
Leva-se em conta, na espiritualidade,
a educao que receberam e o motivo. Normalmente a inteno deles  matar o
prximo em vez de si mesmo. O suicdio  uma
conseqncia.

Existe o erro e sofrero por essa atitude errada, tero a reao dessa ao
imprudente. Eles sofrem mais com a decepo
de no ser o Alm, o plano espiritual, como
eles acreditavam. Padecem mais por serem homicidas do que suicidas."

97

captulo nove

O Vestido Vermelho

Tudo mudou. Sa de um lugar sem entender como e fui parar em outro muito
confortvel. Passei a ser tratada com carinho.

- Venha sentar-se aqui, Jlia. Veja que flores lindas! S que no pode peg-las.

Ri e peguei uma. A enfermeira veio rpido at mim, e disse enrgica:

- Por que a pegou? No recomendei para no colocar as mos nelas?

Ela no me castigou. Fiquei um pouco envergonhada e fui sentar num banco. O
mdico aproximou-se, no gostava deles, mas
esse era diferente, no mandava me dar nada
que doa.

- Jlia, voc quer alguma coisa?

- Meus dentes - respondi e gargalhei

Gostei da minha resposta, quem mandou ele perguntar. O mdico sorriu, esperou
que parasse de rir e disse:

98


- Voc ficar bem melhor com seus dentes sadios.

Venha comigo!

Fiquei com receio, mas fui, pois aprendi nos anos em que estive em hospitais que
quando queriam nos levar a algum lugar
era melhor ir, porque seno nos levavam 
fora. Atravessamos alguns corredores. O mdico conversou com um outro, que me
pediu para sentar numa poltrona confortvel.

-Abra a boca, Jlia! Vamos fazer nascer dentes sadios.

Abri com medo. Ele examinou e mediu minhas gengivas. Senti os dentes na minha
boca.

- Pronto, Jlia, olhe-se no espelho. A esto seus dentes bonitos e sadios.

Olhei e assustei-me. Minha boca que antes era banguela, porque os dentes
cariados foram extrados, agora estava com todos
os dentes sadios e realmente lindos.

- Como fez isso? Eles saem? - indaguei.

Puxei-os com fora e no saram. Estava com os dentes sem cries e perfeitos.

- Eles so seus e no saem. Plasmei-os para voc. Est contente?

- Acho que estou num hospcio diferente; aqui at os mdicos so loucos! -
exclamei. - Estranho! Estou falando

frases longas e com facilidade. Ser que estou melhorando?

- Claro que est! - respondeu ele. - No sou mdico, sou dentista, ou exerci
essa profisso quando encarnado. Aqui estou
aprendendo muito. Voc quer mais alguma
coisa, Jlia?

- Vocs do de graa? No tenho dinheiro para pagar meus dentes.

99

- Aqui tudo  gratuito - respondeu ele.

- Se puder quero meus cabelos compridos! Quando menina, e depois quando mocinha,
usava

cabelos compridos, depois no hospital cortaram-nos curtinhos; diziam que era
para ficar mais fcil mant-los limpos. Chorei
muito quando os cortaram. E nunca mais
deixaram crescer; ultimamente os cortavam to curtos que parecia corte
masculino.

O dentista sorriu, puxou-me pela mo e atravessamos outros corredores.

- Aqui - explicou ele -  a sala da diretoria. E essa  Isabel. Vou dizer a ela
sobre seu pedido.

Isabel, uma mulher muito bonita, abraou-me.

- Fao o que voc quer num instante. Passou a mo na minha cabea.

- Veja se est bom desse tamanho!

Olhei-me no espelho de novo,- espantei-me. Meus cabelos estavam abaixo dos meus
ombros e de tom castanho escuro como era
na juventude, pois atualmente estavam embranquecidos.
Passado o susto, puxei-os com fora. No saram, foram os meus mesmos que haviam
crescido.

- Gostou? - Isabel perguntou sorrindo, contente diante da minha alegria.

- Ser que no d para deix-los um pouco mais lisos? Isabel sorriu, passou as
mos neles novamente e ficaram

como desejei.

- O que mais voc quer, Jlia?

- Ser que no estou abusando? No! Queria tanto vestir uma roupa feminina. Um
vestido vermelho com renda

100


na frente, colocar um sapato preto com saltinho Nem sei quanto tempo faz que uso
somente esse uniforme do hospital.

- Deixe-me ver - Isabel leu uma ficha -, de fato faz tempo mesmo, quarenta e
dois anos que voc vive em hospitais. Merece
o vestido e o sapato. Acho que tenho um
que lhe serve.

Isabel entrou em outra sala; aguardei alguns minutos, passando as mos ora nos
meus dentes novos, ora nos meus cabelos.
Estava encantada.

- Aqui esto? Gosta! Venha aqui e troque de roupa. Maravilha das maravilhas! O
vestido e os sapatos serviram em mim. Eles
eram como eu sonhava.

- Obrigada! - exclamei felicssima.

Quis beijar a mo dela, mas Isabel emocionou-se e me deu alguns beijos no rosto
e uma caixa de maquiagem. Como uma menina
feliz com o presente, aproximei-me do espelho,
passei baton e depois esmalte nas unhas. Estava to feliz que pedi a Deus que se
fosse um sonho, no me acordasse. Isabel
me deu tambm o espelho, e disse que poderia
voltar ao jardim.

Fui caminhando, rindo e me admirando. Batia o salto do sapato no cho e ouvia o
barulho como um lindo som. Passava as mos
na roupa, sacudia a cabea para meus cabelos
balanarem. Sentei num banco e sorria diante dos elogios. Naquela noite dormi
com o vestido Foi no outro dia que comecei
a achar esses acontecimentos estranhos,
e fiquei pensando:

"Por que ser que esse hospital  assim? Posso estar louca, mas eles devem estar
mais No! Eles no esto doentes e eu sinto
que melhoro a cada dia".

101

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho - Antnio Carlos

A enfermeira veio ver se queria alguma coisa e pedi a ela:

- Quero consultar-me com o mdico! Por favor, marque uma consulta.

- Est sentindo alguma coisa? Dor? - perguntou ela solcita.

- No - respondi -, mas preciso falar com ele.

Ela se afastou e logo em seguida o mdico veio e sentou-se ao meu lado.

- Oi, Jlia! Pode falar. O que quer?

- Sou louca! - exclamei. - Fiz muitos tratamentos.

No sarei! Estou internada h muitos anos. Isabel me disse

que faz quarenta e dois anos. Desde os meus dezesseis anos quando tive uma crise
sria, no sa mais do hospital. Minha
me ia me ver, e depois que ela morreu, recebi
algumas visitas dos meus irmos; logo, todos esqueceram de mirrr. Sei que falo
coisas que ningum entende, outras vezes
digo improprios sem querer, outras falo
porque quero. No queria ser doente! Queria sarar! Quero que o senhor me
explique o motivo de estar sendo bem-tratada e
por que estou melhorando. No me lembro,
nesses anos todos, de ter falado tanto como agora. E parece-me que no estou
falando bobagens.

O mdico sorriu, pegou a minha mo com carinho e tentou explicar:

- Voc, Jlia, ficou muito bonita com este vestido vermelho!  linda! Vou tentar
esclarecer suas dvidas. Ns nascemos,
encarnamos, crescemos e um dia o corpo fsico

102


morre e ns, espritos, passamos a viver de outro modo, desencarnados. Julia,
teve um corpo carnal doente, sofreu muito,
e um dia ele morreu e voc veio para a espiritualidade.

No entendi de imediato, ele precisou explicar-me muitas vezes que estava
vivendo agora, no plano espiritual.

A desencarnao para mim foi uma libertao onde deixei o corpo fsico enfermo e
passei a viver sadia e feliz.

Sa do hospital, o mdico achou que j vivera por muito tempo nesse tipo de
ambiente. Fui morar com quatro senhoras e uma
delas ficou comigo at eu me recuperar.
Gostei demais de morar numa casinha, e a nossa era linda. Lar  uma preciosa
bno! Ganhei outros vestidos e sapatos. Encantei-me
com eles. Passei meses dando importncia
 vestimenta*Arrumava-me, penteava meus cabelos e sorria para mostrar meus
dentes.

Aprendendo a viver sem os reflexos do corpo fsico, tornei-me sadia, fui estudar
e depois quando estava apta, passei a fazer
pequenas tarefas.

Tive doenas que me fizeram enferma nessa ltima encarnao desde a
adolescncia. No cometi erro nenhum e sofri muito mesmo,
por solido, tratamentos dolorosos
e dores fsicas.

Recordo-me de todos os detalhes, porm no consigo dizer tudo o que senti.
Compreendia, s vezes, que no devia fazer ou
dizer algo, mas fazia e dizia. Tinha um
medo terrvel dos tratamentos e de ficar sozinha. Passava por perodos em que
no tinha conscincia do que fazia; em outros,
compreendia melhor o que ocorria comigo.

103

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho - Antnio Carlos

O doente mental sofre e quase sempre sabe que sofre. Foram muitas vezes que
chorei por estar doente. Tinha vontade de sair
do hospital, morar num lar, ter roupas
bonitas e comer doces e outros alimentos. Sentia saudades da minha

famlia e no queria que eles tivessem medo de mim. Mas no conseguia expressar
minha vontade, dizer que queria.

Por que tive uma encarnao assim?

A resposta  simples: reaes. Esprito sadio: vestimenta perispiritual e fsico
saudveis. No vou narrar o que fiz de
errado nas minhas outras reencarnaes, porque
sei pouco e, por enquanto, no quero me recordar. Devo ter sido m. Na minha
encarnao anterior, desencarnei e fui para
o umbral, tive muito arrependimento, senti
um remorso destrutivo. Mesmo tendo orientao, quis sofrer. Reencarnei e
transmiti ao corpo fsico muitas perturbaes,
adoecendo-o.

Graas a Deus no tenho mais aes negativas para sofrer no futuro as reaes
das dores. Quero me preparar bem, ser til
para que quando reencarnar seja com conhecimento,
para ser uma enfermeira num hospital de doentes' mentais.

Meu abrao a todos.

    Jlia

Explicaes de Antonio Carlos

Em postos de socorro e nas colnias, dentro do possvel e das normas da casa, os
servidores fazem a vontade

104

dos recm-chegados. Jlia queria to pouco: dentes, cabelo comprido e roupas.
Desejos assim, quando o abrigado aprende,
ele mesmo plasma para si, mas outros podem
fazer por eles. O esprito que foi dentista quando encarnado, plasmou para ela,
no os dentes que tivera, que creio no
eram sadios, e sim outros, perfeitos para
sua arcada dentria. Isabel plasmou as roupas que ela sonhara ter. Alegre,
feliz, Jlia recuperou-se logo. Teve de receber
ajuda para no sentir o reflexo do fsico
e fez isso fora do hospital, num lar, com outras servidoras.

Nossa convidada tem razo, resgatou pela dor o que fizera de errado. Quando se
erra e se arrepende, querendo pagar pela
dor, sofrer, o esprito tem o livrearbtrio
para faz-lo.

Vemos tambm alguns desencarnados sofrerem tanto no umbral, perturbarem-se que,
s vezes, necessitam de um corpo fsico
para ter o esquecimento e a bno. E, para
alguns deles, no plano fsico, basta passarem por dificuldades para se
desestruturarem e adoecerem. Jlia no foi obsediada.
Mas vemos em sanatrios muitos obsediados
e esses, aps receberem por algum tempo as energias negativas principalmente de
dio, acabam por adoecer o fsico.

E, com toda a certeza, esprito sem aes negativas  sadio, conseqentemente o
perisprito e o corpo fsico tambm o so.

105

captulo dez

Ateismo

Quantas tristezas, agonias, inquietaes, perturbaes e sofrimentos.

No sabia nem conseguia entender o que ocorria comigo. Eu sonhava? Era ento um
pesadelo, do qual no acordava. Fiz de tudo
para despertar daquele sono horrvel.
Bati a cabea nas paredes e belisquei-me tanto que estava toda dolorida. At
entrei n'gua. Lembrei-me de que minha me
falava que a gua despertava. Entrei num
chafariz de uma praa. E a gua passou por mim e no me molhou. Escutei de um
senhor que passava por ali:

- Saia da! A senhora morreu! E defunto no se banha! Respondi com grosseria, e
ele gargalhou:

- Sua doida! Morreu e finge no saber! At quando manter sua iluso?

Achei ento que enlouquecera. Sabia que na cidade onde eu residia havia um
sanatrio e fui para l em busca de ajuda. Se
estava doente necessitava de tratamento.

106

Morri1 E agora?

Fui andando, cheguei na frente do grande sanatrio; estava fechado. Bati no
porto. Depois de esperar alguns minutos, um
senhor apareceu  minha frente. Encabulei-me.
Ele no abriu o porto e no consegui ver por onde passou, cumprimentei-o e
depois pedi:

- Senhor, quero entrar e me consultar com o mdico.

- O que a irm est sentindo? - perguntou ele.

- Desculpe-me, no quero ser indelicada, mas essas respostas quero dar ao
mdico.

- Irm, aqui  um hospital para pessoas encarnadas, por isso devo saber o que
quer.

- O senhor  muito abusado e no sou sua irm. Exijo vir algum da diretoria. E
logo, seno vou me queixar de voc.

- Est bem, venha por aqui!

Pegoif na minha mo e atravessamos o porto. Gritei. Ele nem se importou. Levou-
me para um local que no parecia hospital.
Era um salo, com muitas cadeiras e 
frente tinha uma mesa. Meu condutor largou minha mo e disse a outro senhor:

- Essa senhora veio para se internar.  uma iludida!

- Marcinho, tenha pacincia! Lembro-o de que deve tratar bem a todos.

- Ela me destratou; acha que por ser porteiro sou inferior. Deve estar
acostumada a tratar mal aqueles a quem julga insignificante.
Deve ser por isso que est nessa
situao. Mas vou tentar ser mais educado. Estou esforando-me para ser
paciente.

O porteiro afastou-se e o outro senhor aproximou-se de mim, sorriu,
cumprimentou-me e indagou:

107

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho - Antnio Carlos

- O que a senhora deseja?

- O senhor  mdico? S falo com o mdico. Descul-

pe-me,  que estou cansada.

- Ento, sente-se aqui, sirva-se de gua fresca e descanse; assim que for
possvel o mdico vir lhe ver.

- Ficar aqui neste salo? No tem lugar melhor?

- Infelizmente, no! - respondeu ele sorrindo e com expresso gentil.

Resmunguei baixinho. Aquele hospital era um horror. Que atendimento ruim. Tomei
a gua que achei muito saborosa e sentei-me.
Pensei e conclu que ali seria, com
certeza, maltratada.

Louco raciocina? Estava raciocinando, e certamente no estava doente. Achei
ento que viera em local errado. Levantei e
olhei atravs do vitr. Vi o ptio com duas
ambulncias, uma delas ia sair. Corri para o ptio tentando me esconder. Quando
o porto abriu para o veculo passar, sa
correndo. Ningum me viu, ou fingiram no
me ver.

-  melhor mesmo eu ir embora. Que sanatrio atrapalhado! - exclamei.

Cansada e com fome, fiquei andando at que, mais exausta ainda, sentei-me no
banco de uma pracinha. Ali perto estavam trs
pessoas que julguei serem vagabundos.
E um deles disse sorrindo:

- E a, madame, como est se sentindo sendo desencarnada?

-Vai amolar outra! - respondi irada.

- Olhe l como fala comigo!

108

- Chamo a polcia! - exclamei. Eles gargalharam.

- A madame  uma burra! No sabe que desencarnados no tm como chamar a
polcia.

- J que est dando uma de sbio, explique-me o que  desencarnado? E o que 
encarnado? - perguntei.

Eles riram e um deles me explicou:

- Desencarnados, somos ns que morremos! Ou melhor, o corpo material foi para o
cemitrio, mas ns realmente no acabamos
e estamos vivendo aqui. E encarnados, somos
antes de morrer. Entendeu?

- No! No  verdade! Voc brinca comigo e no lhe dei esse direito! Acabamos
quando o corpo morre. Extinguimos! Nada sobrevive!
Deus no existe! S resta voc falar
que j viu Deus e conversou com Ele.

Pararam de rir e o que me dirigia a palavra, falou novamente:

- Deus est em todos os lugares e at dentro de ns como expresso de amor. Sou
um andarilho no plano espiritual. Gosto
de viver assim. Mas, entendo algumas coisas.
Acho que quando ns nos fazemos receptivos, sentimos Deus.  melhor rever seus
conceitos. Voc acreditava em fatos falsos.
Tudo ficar mais fcil se entender que
seu corpo morreu!

-Vo para o inferno! Loucos! - gritei.

Sa, deixando-os gargalhando, e fui para meu apartamento. Outro horror! Subi as
escadas, porque por mais que apertasse o
boto do elevador ele no vinha. A porta
do

109

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho - Antnio Carlos

meu apartamento estava aberta. Nele no estavam mais meus pertences e outra
famlia morava ali. Era um casal com dois filhos.
O som estava alto e eles riam e conversavam
animados, referindo-se a um passeio que fariam.

"O que est se passando? Estou louca? Sonho?" indaguei aflita.

Chorei por horas. A famlia saiu para o passeio e eu fiquei ali sozinha e
sofrendo. Lembrei-me de relances de quando me
senti mal, da dor forte no peito, de ter
cado na sala, de a empregada me achar no outro dia, da ambulncia, de me
colocarem na maca e de ter escutado: "Dona Carolina
faleceu!".

Desesperada, quis sair do apartamento e no consegui abrir a porta. Percebi que
estava presa. Foi horrvel ficar ali sem
poder sair. No adiantou gritar, bater,
ningum me ouviu. No consegui pegar o interfone nem o telefone. Foi um alvio
quando a porta se abriu e a famlia entrou.
Corri e sa. Fiquei no corredor e sentei-me
no cho.

"O que fao?"

Lembrei-me da Magali, uma vizinha que se escandalizava comigo por ser ateia.
Muitas vezes ela tentou me convencer que Deus
existia. Fiquei ao lado da porta do apartamento
dela. Esperei. Fiquei pensando no preconceito que sempre enfrentei por no ser
hipcrita e dizer abertamente que era ateia:
"No acredita em Deus?! No tem religio?!".
Eu escandalizava as pessoas. s vezes discutia e gostava de expressar minha
opinio, tinha vasto conhecimento e achava um
absurdo pessoas esclarecidas e estudadas
acreditarem numa Divindade.

110


Avizinha chegou, cumprimentei-a, ela me ignorou. Em outra situao lhe diria uns
desaforos e iria embora, mas entrei com
ela no apartamento.

- Desculpe-me, Magali, por entrar assim,  que estou em dificuldades.

Magali no me respondeu e foi guardar as compras nos armrios. Fiquei perto dela
que olhou o calendrio e falou:

- Hoje faz nove meses que Carolina morreu! Embora ela no acreditasse em Deus,
que Ele a proteja!

Orou por mim. A campainha tocou, Magali abriu a porta; era o porteiro trazendo
alguns pacotes. Sa apressada, no queria*ficar
presa de novo. Desci pelas escadas
e fui para uma praa ali perto, sentei-me num banco e fiquei pensando: "Quem
devo procurar para pedir ajuda? Meu exmarido?
No quero, a mulher dele e seus filhos
no gostam de mim. Depois, ele  um idiota! Era ateu e por causa da mulher virou
religioso! Para ele, todos os meus problemas
eram pelo atesmo. At Magali, para
me fazer acreditar em Deus, tentou me enganar dizendo que faleci. Alguma coisa
acontece comigo, mas o que ser?".

Sofri muito.

Algumas pessoas se aproximaram e sentaram ao meu lado para conversar.

- Vocs me vem? - indaguei.

- Claro, voc  como ns, desencarnada - respondeu uma delas.

Cansada, fiquei quieta por minutos, depois pedi para a mulher que falara comigo:

Vera Lcia Mannzeck de Carvalho - Antnio Carlos

-Voc me leva para um lugar sossegado? Quero pensar!

- Venha comigo!

Ela me levou para um local estranho em que havia pouca claridade. Parecia que
estava dentro de um filme de terror. A mulher
me deixou num canto, ao lado de umas
pedras.

-Aqui voc pode refletir bastante. Pense em sua vida e no que quer agora que
est morta, mas viva!

Fiquei sozinha. Naquela rotina em que via tudo confuso, sentia sede, fome, frio
e muita tristeza, cheguei  concluso de
que meu corpo morrera e eu era uma alma
penada, da qual tanto rira anteriormente.

"Morri e agora?"

Indaguei-me, chorei, tive medo e sofri. A decepo foi grande; para mim
morramos e acabvamos, nada existia, nem Deus.

Muito tempo se passou. Saa dali, andava pela cidade e voltava para meu
esconderijo, no umbral. Ficava quieta e muito triste.
Um dia conversei com uma senhora, tambm
desencarnada.

- Foi uma decepo, queixei-me. Morri e continuo viva.

- Acho isso maravilhoso! No queria acabar. No me queixo por estar
desencarnada, vivo bem sem o corpo fsico.

- Estou sendo castigada! No acreditava em nada nem em Deus.

- E agora?

- Acredito! - respondi com sinceridade. - J achei que sonhava, estava louca at
concluir que meu corpo falecera, fora enterrado
e continuara viva. Deus me castigou
por no ter acreditado Nele.

112


- Acho, minha amiga - falou a senhora serenamente -, que voc no acreditava em
Deus por no compreend-Lo. Nosso Pai no
nos castiga. Ele existe, independente de
alguns crerem Nele ou no. Voc est sentindo as conseqncias de sua
incredulidade.

Contei quela senhora minha vida. Meus pais diziam ter religio, mas no a
seguiam; cresci sem dar importncia aos preceitos
religiosos. Adulta, tornei-me ateia
convicta, casei-me com uma pessoa sem religio que se tornou ateu tambm. Tive
dois abortos espontneos e passei a fazer
um tratamento para engravidar. Nesse perodo
meu marido e eu j no estvamos mais nos entendendo. No quis engravidar mais e
acabamos nos separando. Vivi sozinha num
apartamento e no quis ter mais relacionamentos
srios, tive namorados e amantes. Aposentei-me e passeava muito; sentia-me bem.

No agi com maldade com ningum. Pratiquei at algumas caridades e favores que
nada custaram. Pensava: "Para que fazer algo
por algum? No h motivos para ser caridosa,
no posso me privar de algo ou de horas para auxiliar ningum, no vale a pena".

Encarnada, sentia a reao da vida egosta que levava; tinha somente conhecidos,
nenhum amigo e minha famlia no ligava
para mim, porque os ignorava. Meu ex-marido
tinha a famlia dele.

Falei por horas e a senhora escutou atenta. Quando terminei ela comentou:

- Carolina, voc mesma concluiu o que aconteceu com voc!

113

m

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho - Antnio Carlos

Espantei-me, e ela sorriu explicando:

- Voc recebeu a reao de suas aes. No se importou com ningum e por isso
no recebeu ateno. Viveu egoisticamente
e recebeu a indiferena. No acreditava que
a vida continuava com a morte do corpo fsico e quando esse fato aconteceu com
voc, achou que sonhava, que estava doente
e sofreu.

- Ser que Deus me perdoa por no ter acreditado Nele?
- perguntei.

- Por que no pede perdo, Carolina! Quando reconhecemos que erramos, pedir
perdo nos faz bem. Deus  Amor! Ele no se
ofende se um dos seus filhos no cr Nele!

Ajoelhei-me e em lgrimas pedi perdo. Fiquei assim por minutos. Estava sendo
sincera. A senhora, ento, ajudou-me a levantar.
Senti-me bem, continuei chorando,
s que as lgrimas eram de alvio. Essa senhora me levou para um posto de
socorro. Encantei-me com aquela casa de caridade.
Fui acolhida. Aliviada e grata, fui aprender
a viver desencarnada e ser til. Isso aconteceu depois de vinte anos. Sim,
vaguei por todos esses anos e padeci muito.

Hoje estou bem, trabalho e me esforo para dar ao prximo o melhor de mim, fao
tarefas nas quais aprendo a doar meu tempo,
horas do meu lazer em que poderia passear
ou descansar. No comeo era para mim um sacrifcio, hoje fao com carinho. Quero
aprender a amar!

Tenho observado que no  fcil a desencarnao para os ateus. Porque  nos
momentos difceis que exclamamos:

114


'Ai, meu Deus!". E essa expresso nos d conforto e a receptividade para receber
ajuda.

No acreditava na sobrevivncia do esprito. Achava isso uma teoria sem
raciocnio, fantasiosa e enganosa. Mas meu corpo
fsico morreu e sobrevivi, e tive de mudar
meus conceitos. Necessitei ver para crer na espiritualidade. No vi Deus, mas
aprendi a senti-Lo e, para mim, hoje o atesmo
 que  fantasioso e enganoso.

Carolina

Explicaes de Antonio Carlos

Carolina desencarnou por um infarto, teve seu desligamento no velrio por
socorristas e ficou vagando confusa e perturbada.
Foi depois de meses que conseguiu raciocinar
e comeou a narrar o que ocorrera com ela. O sanatrio citado  dirigido por
espritas e dentro dele h um local de ajuda
a desencarnados, um centro esprita.

Ela ficou presa no apartamento que tivera quando encarnada. Isso acontece com os
iludidos, os que no aceitam sua desencarnao
e no sabem como passar pela matria
densa.

Desencarnados maldosos e brincalhes que vagam, apreciam debochar dos iludidos,
dos que no querem aceitar a mudana de
plano. A senhora que a ajudou  uma socorrista.

115

Vera Lcia Mannzeck de Carvalho - Antnio Carlos

Independente de se acreditar ou no que a Terra  um planeta que gira no espao,
ela no fica parada, continua fazendo sua
volta, indiferente aos que crem ou no.

Para aquele que cr, um pingo  complemento da letra i. Necessitamos compreender
a Deus. Se uma religio no nos der essa
compreenso, procuremos outras. No acreditar
em alguma coisa, imagino que  viver sentindo-se oco, vazio e um dia, os que
assim se sentem tero vontade de mudar, de
querer preencher o vazio, achar o significado
da vida. E Deus ! Independente de alguns no acreditarem ou compreend-Lo.

J escutei de muitas pessoas: "Se isso fosse importante, Deus me mostraria para
que acreditasse. Se Deus existisse, Ele
me provaria". Como se julgam importantes!
Por que teria que lhes provar? J no basta, como muitos dizem, a assinatura do
Autor: na natureza, no espao, no nosso
corpo fsico, perispiritual e na perfeio
do nosso esprito?

Nossa convidada foi ateia, digo foi, porque sem a iluso do corpo fsico, com a
sobrevivncia do esprito depois da morte,
foi forada a mudar a forma de pensar,
a rever seus conceitos. Porm, continuou sem ver Deus. Porque nosso Criador no
 uma figura,  um ser supremo, inteligncia
suprema, e est em todos os lugares.
Compreendem-No os simples, os acadmicos, todos

116


ns, independente da designao que lhe damos e da religio que seguimos.

O atesmo leva as pessoas que desencarnam a se confundirem, a se perturbarem e
sofrerem. Muitos acham que esto loucos ou
sonhando, imaginam muitas desculpas por
no terem acabado, por continuarem a existir, apesar da morte do corpo fsico.
} vi ateus virem para o plano espiritual
com uma grande bagagem de boas obras e amigos
que foram, e so gratos por terem sido ajudados, e sua perturbao passa mais
rpido. J, para outros, o sofrimento  grande,
Vagam por anos no umbral e nos lugares
em que viveram quando, encarnados. No por castigo, mas pela descrena.
Infelizmente, muitos necessitam sofrer

para crer.

117

captulo onze

O Poltico

Sentia dores, estava inquieto no leito daquele hospital moderno e luxuoso. A
famlia me fazia companhia, eles estavam tristes,
abatidos e lagrimosos.
No dormia tranqilo, meu sono era agitado e tinha pesadelos, nos quais escutava
vozes me dizendo improprios.
Acordei e no abri os olhos; escutei meu filho e meu
genro conversando baixinho.
- Temos que tomar todas as providncias. Seu pai, pelo que nos dizem os mdicos,
ir falecer logo. Temos que tirar o dinheiro
de seu nome, at mesmo, fechar aquelas
contas bancrias.
- Voc tem razo, vou agora mesmo falar com mame, ela tem conta conjunta com
ele. Com certeza minha me nos dar autorizao
para fecharmos aquelas contas e colocarmos
o dinheiro no meu e no seu nome.  mais seguro!
Magoei-me, porm eles estavam fazendo o que eu
sempre fizera: sendo prticos. Os dois tinham razo. Aquele
118

dinheiro no deveria continuar no meu nome. Tremi de medo. Eles falaram que
estava morrendo.
E pela primeira vez, indaguei-me o que seria morrer. Havia freqentado, pelo
social, para arrecadar votos, muitas igrejas,
templos, e ouvido vrios sermes, aos
quais, infelizmente, no dera muita ateno. Mas algumas coisas do que ouvira,
vieram naquele instante a minha mente: "Eu
acabaria com a morte?"
Ao pensar nesse fato, apavorei-me. Acho que ningum
quer ser extinto. Creio que nada se acaba, at pela lei da
natureza, tudo se transforma, e comecei a pensar:
"Cu ou inferno? Prefiro que no existam, seno irei
com certeza para o inferno.
"Dormirei at o julgamento? Tambm no gostei dessa
teoria. Se houver uma sentena, por justia, no me darei bem.
"Desencarnarei, como dizem os espritas? Se assim
for, no Alm terei comigo somente os atos que fiz, os bons
e os maus.
Tinha dinheiro que sustentava o meu luxo. A famlia e os
amigos, ali ao meu lado, esperavam minha morte. Somente
restavam-me as obras, essas iriam comigo.
Abri os olhos, os dois sorriram para mim, e meu filho
disse:
- Papai, o senhor ficar bem! Mas estou preocupado. Ser que no  prudente
tirarmos o dinheiro de suas contas
bancrias?
- Sim - respondi com dificuldade. - Faa, filho, o que for melhor. Mas no deixe
sua me sem nada.
119

- Claro que no, papai. Mame tem muitos imveis em seu nome e os senhores so
casados com separao
de bens.
Ele saiu e meu genro ficou ao meu lado. Comecei a
delirar. Via vultos, ouvia algumas risadas, e fui piorando.
- Ele morreu! - ouvi do mdico.
Choros e risadas.
Minha esposa e filha estavam ao meu lado chorando.
Meu pai morreu! Que tristeza!
- Fiquei viva! Que ser de mim sem ele? Como cuidar dos negcios?
"Morri! Meu Deus! E agora?"
"Ficar a para ver e ouvir outros hipcritas como voc"
- falou um vulto, gargalhando.
Que sensao estranha. Senti a equipe mdica desligar os aparelhos e tirar as
sondas. Meus familiares se afastaram, fui
levado para outro local. Limparam-me, colocaram-me
outra roupa e me maquiaram. Depois me acomodaram numa urna luxuosa, com muitas
flores.
Sentia, via, pensava, escutava, mas no me mexia ou
falava. E a todo instante me indagava cada vez mais aterrorizado: "E agora?".
E os acontecimentos vieram. Fui levado ao velrio. Que horror! Qs familiares
chorosos, vestidos de luto, discretos, comportavam-se
como a sociedade exigia. Amigos
e mais flores foram chegando. Escutei muitos comentrios. Poucos faziam oraes.
Agiam como eu quando ia a velrios. Vrias
conversas, pessoas que havia tempos no
se viam, falavam
120

de tudo: negcios, esportes, mulheres, fofocas e muito sobre mim. Infelizmente,
no mentiam.
Minha esposa comportava-se com dignidade. Parecia
que adivinhava o que alguns diziam: "Fora trada". Tive
muitas amantes.
Os filhos no sentiam muito, sempre fora um pai distante. Dinheiro e poltica
sempre vieram em primeiro lugar.
Foi um horror! Via e ouvia tudo. Apelei mentalmente e
pedi: "Deus! Misericordioso Pai, ajude-me!
"Quantos lhe pediram por Deus! Voc os atendeu?
Ficar aqui e ver tudo."
Notei ento, que trs vultos estranhos estavam do
lado de trs do meu caixo, observando-me, e fora um deles
quem falara.
Ouvi desesperado que estava na hora do enterro. "E
agora?" - perguntei de novo com muita aflio.
Fecharam a tampa. Estranho, vi-me dentro e fora da urna funerria. Discursos.
Quanta hipocrisia e mentiras! Colocaram o
caixo no tmulo luxuoso com muitas coroas
de flores. Todos se afastaram. Um dos vultos me disse:
- Agora ter a resposta para o que tanto indaga. Ver o que  de fato a morte
para voc que  ladro e corrupto! Ficar
a dias junto do corpo de carne que tanto
cultuou. Aproveite para pensar no que fez de errado!
O escuro, o silncio e o nada. No sei explicar como, pois no os via ou ouvia,
mas sabia que aqueles trs vultos continuavam
por perto, vigiando-me. Apavorei-me
com o fato de estar ali preso. Achei que iria enlouquecer. Somente tinha a
certeza de que de fato morrera. Mas que continuava
vivo!
121

Foi apavorante. Estava sozinho. A famlia, quando terminou a cerimnia do
sepultamento, foi embora. Estavam cansados e pelas
suas feies, estavam ansiosos para
que tudo terminasse. Amigos... acho que poderia tachar de amigos somente uns
trs, os quais no podiam fazer mais nada por
mim, O resto eram conhecidos, companheiros
e at inimigos disfarados. Dinheiro; lutei tanto para t-lo, e o que ele me
deu? Uma urna de luxo, flores e um tmulo de
mrmore. E naquele momento a riqueza material
no me valia para nada.
No vou intensificar o horror que passei. Vermes me
comendo, dores, frio, sede, fome e muito medo. Estava enlouquecendo. Padeci
muito!
-Vem!
Escutei uma voz e algum me puxou. Fora do caixo,
sentei em cima do tmulo. Consegui ver os vultos, eram trs
homens e um deles falou:
- Voc merecia ficar a at seu corpo carnal virar p. Mas o chefe quer julg-
lo. Vamos.
Pegaram-me pelos braos, saram comigo do cemitrio.
Estava confuso, senti um certo alvio pelo ar que batia no
meu rosto.
Chegamos a um local estranho e me deixaram num salo. Senti muito medo. Eu,
acostumado a mandar, receber agrado e elogios,
estava sendo humilhado e tratado como
um ser desprezvel.
Vi ento uma cena aterrorizante. Era um julgamento conjunto de pessoas como eu,
mortas-vivas. Para julgar, estavam ali um
homem e uma mulher. Outro homem falava
sobre os julgados e o que eles haviam feito.
122

Chegou a minha vez.
- Voc foi poltico! A lista de seus erros e pecados  grande! Gostava de
orgias! Mulheres lindas e noites de farras! Disse
muitas mentiras! Enganou o povo j to
sofrido. Recebeu dinheiro para fazer favores etc.
De fato, a lista era grande e tudo verdade. Fui con denado.
- Ser escravo! Chega de ser servido! Vai aprender a
trabalhar!
Colocaram um aro de ferro em meu pescoo e fiquei preso a uma corrente. Um homem
me puxou. Comeou para mim um longo perodo
de muito sofrimento e humilhao. Gargalhando,
um grupo de homens de aspecto maldoso, aproximou-se, despiu-me, deixando-me
somente de cala; bateram-me muito, cuspiram
em mim e xingaram-me.
Sabia que havia morrido. Ou melhor, que havia desencarnado. Meu corpo fsico
estava l no cemitrio virando
p
e meu esprito vivo. Ali sofri horrores.
Foram muitos anos de padecimento. Antnio Carlos me pediu para no narrar tudo o
que passei seno o relato ficaria extenso,
pois no teve um dia no umbral que no
sofri, sempre fui humilhado e maltratado. Eles riam do meu padecimento.
- Por que reclama? - diziam meus carrascos. - Voc se importou com as pessoas
que sofriam? O dinheiro que roubou, que pegou
indevidamente no foi causa de sofrimentos
a outros?
Certo dia, comecei a achar que agira errado. Que vivera
encarnado enganando e enganado. Meu choro passou a ser
diferente e passei a ajudar os companheiros de infortnio.
123

Recordei-me de alguns atos bons que fizera, as esmolas que dera, favores que
prestara e mesmo os que foram realizados por
interesse. Nesses momentos sentia um pouquinho
de alvio. Lembrei-me de Deus de modo diferente, como um Pai, o qual antes
desprezara e que agora sentia falta. O remorso
me fez ver que era merecido meu
sofrimento.
Abusara dos prazeres, no seguira nenhuma religio e sentia falta de uma crena.
Sabia que muitos outros polticos sofriam muito mais do que eu. Os que foram
muito desonestos e corruptos padeciam ali no
umbral, de forma pior do que se fosse no
inferno, se esse existisse. Muitos ficavam presos na caverna dos horrores, num
buraco escuro e ftido sendo torturados e
humilhados.
Um dia, um moo aproximou-se de mim, abriu o aro do meu pescoo com facilidade e
me disse
- Vou tir-lo daqui, siga-me quieto!
Samos daquela cidade, paramos em frente de um veculo, entramos nele, e fui
levado a um hospital. L, fui tratado com dignidade,
bondade e me recuperei.
Muitos desencarnados ao passarem pelo que passei, enlouquecem, tornam-se dbeis;
porm eu tive conscincia e muito sofri.
Padeo ainda, no consigo esquecer o que
fiz de errado, sinto remorso, e esse sentimento me cobra, mas tambm me faz ter
vontade de acertar.
Mas o que mais sinto  ver meus familiares seguirem o mau exemplo que dei. Com
certeza iro passar e sofrer o que sofri.
E no posso fazer nada. Poderia at tentar,
mas eles no acreditariam. Para minha famlia morri e acabei.
124

Penso que seria bem mais fcil morrer e acabar. Mas no  assim.
Foi longo o tratamento com aprendizado que recebi.
Sei de pessoas honradas e idealistas que foram e so polticas. E queles a quem
muito foi dado e souberam usar, dignos
sero de receber mais. E espritos que passam
por essa prova e trabalham se dedicando com amor  arte de governar, so
vencedores, eu os admiro. Sei que  difcil ter
dinheiro e poder. Mas se muitos aprenderam
a usar sem abusar, outros podem seguir seus bons exemplos.
Para mim, foi apavorante defrontar com a desencarnao. No com o ato em si, mas
com as conseqncias de meus erros. Aprendi
com a dor. E tenho um propsito de colocar
em prtica esses ensinamentos.
Quero reencarnar para ter a bno do esquecimento
e de um recomeo. Desejo esquecer o que fiz de errado e
tentar fazer o certo.
Tenho orado muito para ser honesto, anseio por ter
essa virtude e provar a mim mesmo que posso ser uma
pessoa de bem.

Explicaes de Antonio Carlos

 de fato na hora da desencarnao que temos as companhias do plano espiritual
s quais nos ligamos. Esse convidado no
quis se identificar. Denominaes so passageiras.
Nos seus ltimos dias encarnado, escutava os desencarnados que esperavam a morte
do seu corpo fsico.
125

De fato, eles fizeram guarda no cemitrio para que ele no sasse do tmulo e
eles o perdessem.
O julgamento que ele narrou, infelizmente  muito realizado em diversos lugares
do umbral. Andr Luiz, atravs da mediunidade
de Chico Xavier, no seu livro Libertao5,
relata-nos um desses julgamentos com muitos detalhes.
Pedi que ele no descrevesse seus padecimentos, porque esse amigo est ainda em
tratamento e fica triste e amargurado quando
recorda o que passou. Realmente, foi
muito difcil.
Essas sentenas acontecem porque h no umbral os que se denominam justiceiros e
os que se sentem culpados. So julgados
os que tm dentro de si, em suas conscincias,
atos errados. Isso no acontece com pessoas que no cometeram aes ms.
Muitos perguntam: "Por que os espritos bons no socorrem todos os que sofrem?"
Muitos dos que desprezam as lies que a vida oferece para aprender, recebem a
dor, que tenta ensin-los, impulsion-los
a caminhar.
No basta pedir somente para ficar livre do sofrimento. Agir assim  como no
querer a ressaca, o sofrimento ocasionado
pela reao, e sim querer continuar no vcio,
na prtica dos erros. Para ser socorrido tem que se fazer receptivo, pelo
arrependimento sincero, com
5  XAVIER, Francisco cndido. Libertao. Esprito Andr Luiz. Rio de Janeiro:
FEB (N.E.).
126

vontade de melhorar e se puder voltar no tempo, agir de outra forma.
Esse convidado foi socorrido quando se modificou, arrependeu-se, reconhecendo
seus erros e passou a ajudar outros desencarnados
que sofriam mais do que ele.
Socorristas vo a todas as partes do umbral, auxiliando. Os que se sentem
enlouquecidos e dbeis so socorridos quando esses
abnegados servos do bem sentem que eles
querem se modificar ou que a dor foi persistente e que a lio pode ter sido
assimilada.
Os imprudentes so muitos. Os que querem ser servidos tambm. Resta para serem
socorristas os prudentes e trabalhadores.
A messe  grande, os servos so poucos,
disse-nos Jesus, e infelizmente nada ainda se modificou. Poderamos mudar se
todos quisssemos servir...

127

captulo doze

Maria, a Sequinha

- Seca! Sequinha!
Um grupo gritou ao passar por mim. Cansada, no reagi.
Costumava responder gritando que no era, e revidava os
desaforos levando-os a rir.
Nos ltimos dias estava diferente, mais quieta, pensativa e j no achava to
injusto estar naquele lugar sofrendo.
Nair aproximou-se e sentou-se ao meu lado, numa
pedra.
- Est quieta hoje, Seca, quer dizer, Maria.
Nair era uma mulher que se julgava esperta, entendida,
e s vezes conversava comigo.
- Hoje quero escut-la com ateno. Fale-me, por favor, onde estou e o que
aconteceu comigo.
- Devia cobrar pelos meus conhecimentos! Mas como gosto de falar, vou lhe
explicar. Fique atenta! Voc morreu!
No fique com medo! Nada de pior poder lhe acontecer e...
128


Algum a chamou. Nair levantou-se, caminhou para perto de um moo e ficou
conversando. Pensei no que ela
me disse.
"Morri! Estava havia tempos naquele lugar e ali eles me diziam sempre que
morrera. Achava que ao morrer iria para o cu,
pois merecia. Mas como no fui, tive medo,
pavor e vivia aterrorizada me indagando: E agora?"
E o pior, no obtinha resposta.
Nair despediu-se do moo e sentou-se novamente perto
de mim.
- Como ia falando, voc morreu, porque todos morrem. Certamente no foi,
encarnada, boa coisa porque veio para c. Eu sei
bem como tudo isso acontece,  a morte.
Alguns dizem que no morremos, e eles tm razo, j que apenas o corpo carnal
vira p l no cemitrio. Por isso, dizem que
desencarnamos, deixamos a carne. Pessoas
que viveram fazendo o bem vo para outros lugares, j vi de perto as casas
delas. E outras como voc e eu vem para c.
O segredo  fazer amigos. Eu tenho muitos
por aqui. Apesar de que eles no confiam em mim nem eu neles. Dizem que entre os
bons existe confiana. Mas no tive nenhum
amigo bom.
Aproveitando que ela fez uma pausa, indaguei-a:
- Voc  feliz? Sou muito infeliz!
-Voc  infeliz porque vive reclamando! Com d de voc mesma! Pelo menos est
consciente. No v  sua volta muitos sofrerem
bem mais? Vemos por a os dementados
que padecem tanto que j nem sabem quem so. Existem
129

os que so tratados como escravos e so maltratados e h os que so presos em
buracos ou ento em prises horrveis. Sou
alegre!
- Feliz? - insisti.
- Acho que no. Tenho pensado e acho que somente pessoas boas so felizes. Aqui
 um tal de d l e toma c.
- Nairzona, vamos l? - chamou-a um moo.
Nair levantou-se e seguiu um grupo, sem se despedir
de mim.
- E agora? E agora? - resmunguei.
O umbral6 no  um lugar agradvel, detestava-o. Andava por ali sentindo os
reflexos do meu corpo fsico, sentia dores e
fome, no tinha sede porque tomava gua
de um filete sujo. Sentia muito frio.  noite era pior, escuro e muito frio.
Tinha muito medo. Mas como Nair me disse, existiam
muitos que sofriam mais do que eu.
Fiquei recordando minha vida encarnada. Fui abandonada muito pequenina num
orfanato. Deram-me o nome de
Maria. Nunca tive um amigo.
- Acho que era uma criana problemtica! - exclamei
baixinho.
Apesar de no ter sido feia, no fui escolhida para adoo e fui ficando.
"Maria, tenho muito o que fazer!" - diziam as funcio nrias.
6  Umbral: ambiente espiritual trevoso e infeliz criado pela fora do
pensamento
de milhares de criaturas em desajuste (N.Ej.
130
"Maria, no  somente voc que temos aqui! Temos de cuidar de todos. Venha nos
ajudar" - diziam as bondosas
irms, as freiras que cuidavam do orfanato.
No ajudava. Queria ateno, desejava que algum ficasse comigo o tempo todo.
Quando alguma das meninas, internas como eu,
me dava um pouco de ateno, queria que
fosse somente minha amiga e fizesse o que eu quisesse. As garotas se cansavam,
deixando-me sozinha.
"Maria" - dizia sempre Madre Terezinha -, "voc no
pode agir assim. V brincar, converse, d amizade para
tambm receb-la.  dando que se recebe.
E eu somente queria receber.
Na adolescncia pensava: "No recebo nada, por que
ento dar?"
Amarga, desiludida, rancorosa e at invejosa, fui ficando
sozinha.
A diretora do orfanato me arrumou um emprego de domstica, trabalhava durante o
dia e dormia no orfanato. No era agradvel
fazer todos os dias a mesma coisa - servios
de casa -, mas era bem melhor do que ficar o dia todo no orfanato; pelo menos
trabalhava, tinha um ordenado e alimentava-me
melhor. Comprava, com o meu salrio,
objetos para mim. Nunca dei nada a ningum. Achando que as meninas mexiam nas
minhas coisas e que tinham inveja de mim,
pedi para meus patres me deixarem dormir
na casa deles.
As irms se reuniram para a despedida, contrariada
escutei-as, no prestei ateno nos conselhos nem no pedido
para visit-las.
131

- Comeo a achar que fui injusta e ingrata - resmunguei baixinho. - O orfanato
foi o meu lar, a casa que me abrigou,
e onde recebi cuidados.
Meu patro matriculou-me na escola para completar meus estudos. L tambm no
fiz amizade com ningum. A escola era simples,
para mim, freqentada por pobres e invejosos.
At que no comeo algumas garotas tentaram conversar comigo, mas diante de minha
indiferena, no se aproximaram mais. Preferi
assim.
Trabalhava direito, fazia do melhor modo possvel
minhas obrigaes. Ganhava roupas que desprezava por
serem usadas, mas as vestia assim mesmo.
"Maria!" - disse meu patro. - "Vai ter um concurso
para faxineira em uma repartio pblica. Voc quer se
inscrever? O salrio  bom.
"Mas se eu passar, onde vou morar? E quem cuidar de
vocs?"
"Coitadinha, ela se preocupa conosco!" - disse
minha patroa.
No me preocupava com eles, mas sim comigo. Na casa deles tinha um quarto nos
fundos, com banheiro e alimentava-me bem.
Meu patro sorriu e falou.
"Maria, com o salrio que ir receber, voc alugar uma
casinha e ns buscaremos outra mocinha no orfanato para
trabalhar aqui em casa.
Uma casinha, um lugar somente meu, era um sonho, o
que mais desejava. Esforcei-me para passar e ganhei o emprego. Meus patres
ajudaram-me a alugar uma casinha e
132

a comprar,  prestao, os mveis. Deixaram-me instalada. Agradeci-os, porm foi
somente por educao. Achei que eles deviam
estar satisfeitos pela boa ao que
fizeram.
- Fui injusta com eles! - falei.
E fui mesmo. Nunca mais fui visit-los e quando eles
tentaram me visitar, fingi que no estava em casa e no abri
a porta. Desistiram.
No meu emprego fazia bem meu trabalho. Mas no fiz amizades. No gostava dos
companheiros, achava isso de um, aquilo de
outro, via neles muitos defeitos. Novamente
queria somente receber.
E quando recebia no dava valor e queria mais, achando
que as pessoas tinham obrigaes comigo. Espantava todos
os que se aproximavam de mim.
"Maria, me faz um favor?"
"No!"
Nem queria saber o que era. Achava que todos queriam abusar de mim.
- E com isso tambm no recebi! Que pena! - exclamei.
Uma vez, interessei-me por um colega que era risonho, agradvel e conversava com
todos. Achei-o lindo! Fiz planos e me iludi.
Um dia ele chegou muito feliz, mostrou
a todos a aliana, ficara noivo. Odiei-o. Resolvi vingar-me e acabar com ele.
Planejei com detalhes um roubo em que ele
seria acusado. Mas no tive coragem. Afastei-me
ainda mais de todos.
Percebi que ao chegar e encontrar meus colegas de
trabalho conversando, eles paravam ao me verem. Meu chefe
at tentou orientar-me dizendo que deveria ser mais socivel.
133

"O senhor no est satisfeito com meu trabalho? Fao algo errado?"
"No" - respondeu ele.
Desistiu tambm. Um dia escutei dois companheiros
de trabalho conversando. Um deles falou:
"Maria me seca! Sinto-me mal perto dela.
Aposentei-me. Sa do ltimo dia de trabalho como outro qualquer. Mas senti muito
a falta do emprego e a solido. No conversava
com os vizinhos, achava que eles
somente queriam favores. Fiquei doente e no tinha ningum nem para me
acompanhar s consultas mdicas. Por causa de uma
enfermidade nos rins, sentia muitas dores.
Em uma consulta, o mdico me internou. No conversei com ningum no hospital, e
ali morri sozinha. Agora sabia que morri
ali, internada. Porque no momento no percebi.
Achei que estava sendo desprezada, que no me davam remdios nem conversavam
mais comigo. Resolvi ir embora e ningum se
importou. Sa andando, arrastando-me e fui
para casa. L me assustei, haviam tirado tudo o que era meu e outras pessoas j
moravam ali. Gritei e ningum me ouviu.
Fui ento  polcia; havia uma delegacia
perto de casa e fui andando com dificuldade.
L, vi muitas pessoas estranhas. Do lado de fora do
prdio estava um grupo esquisito que riu ao me ver.
- 01, Seca! J sabe que morreu? Se no sabe, fique
sabendo!"
- Doido! - respondi.
Discuti com eles e os ameacei, dizendo que ia dar queixa
ao delegado. Eles me pegaram pelos braos, arrastaram-me
134

e deixaram-me nesse lugar horrvel que, segundo a Nair,  chamado de umbral, um
local parecido com o inferno.
No tive religio e quando me indagavam respondia ser de qualquer uma que me
vinha  cabea; no gostava muito de orar.
Sempre achara que Deus fora injusto comigo.
No tive famlia, fora rf.
Sempre fui magra, quando doente fiquei magrssima,
e agora de tanto escutar que era seca, estava parecendo
realmente seca.
- Ei, voc a, ajude-me!
Olhei para quem falava e vi duas mulheres deitadas
no cho
"No posso nem comigo como vou ajud-la?" - pensei.
Mas fui ver o que se passava.
- O que quer? - perguntei.
- Que nos ajude a sentar, pediu uma delas.
Ia me afastar, xingando, mas estava cansada de fazer isso. Nunca havia parado
para atender a algum. No havia
dado e no recebera.
Com esforo as ajudei.
- Estou bem melhor sentada! - exclamou uma delas, que me olhou, indagando: -
Voc gosta daqui?
- No!
- Por que voc  to seca? - perguntou a outra.
Ia xingar, mas respondi bruscamente
- Porque sou!
- Morri e vim para c. Acho injusto! Mas vou apelar! Tenho uma amiga que, por
ser boa, deve ser amiga dos bons.
135

Vou pensar nela e pedir ajuda. Fiz favores a essa pessoa, no vou cobrar, e sim
pedir. Voc no tem amigos?
- No, respondi.
Cansada de ficar sozinha, sentei-me ao lado delas e
fiquei escutando-as.
- Sentia um medo horrvel de morrer. Algo me dizia, talvez minha conscincia,
que ao morrer ia me dar mal. E me dei. Muitas
pessoas se souberem que estou aqui iro
dizer:
"Bem feito!" - falou uma das mulheres.
As duas sofriam e estavam preocupadas, tinham famlias, amigos e uma delas at
queria encontrar-se com eles para pedir que
mudassem de comportamento, para que no
viessem, ao morrer, para esse lugar.
- Seca! Sequinha!
Um grupinho passou e mexeu comigo rindo.
Elas me observaram e uma indagou-me novamente o porqu. Senti pela primeira vez
a sinceridade na minha resposta
- Fiquei assim, porque fui assim! Seca de sentimentos!
- Foi, mas no deve ser mais. Voc nos ajudou! - expressou-se uma delas.
Perto de ns, um homem cado no cho gemeu. Levantei e fui para perto dele.
Estava machucado, ajudei-o a sentar, peguei
um pouco d'gua do filete ali perto e lhe
dei, passando-a tambm em seus ferimentos. Escutei pela primeira vez:
- Obrigado!
Senti ao ouvir o agradecimento, um leve bem-estar.
Voltei para perto das minhas recm-conhecidas e encontrei
somente uma delas que me informou:
136

- Ela orou para a amiga e esta a levou embora. Acho que vou tambm orar. Estou
cansada de sofrer e comeo a
entender que no foi injusto estar aqui.
No briguei mais e passei a ajudar ao meu modo os
que ali sofriam mais do que eu.
- Olhe, a vm os bonzinhos! - disse uma senhora, mostrando-me um grupo que
silencioso e respeitoso passava
por ali.
J os vira, e por muitas vezes jogara pedras neles com
os outros. Agora os olhava com respeito.
Aproximaram-se de ns e um deles indagou:
- Quem auxiliou aquele homem?
Tremi de medo, mas diante de seu olhar bondoso e voz agradvel, respondi
baixinho:
- Fui eu!
- Fez um bom trabalho. Parabns! No quer aprender a ajudar melhor? No quer vir
conosco?
No sabia se queria ir, ento no respondi. A senhora
que estava ao meu lado me cutucou:
- V, no seja boba! Essas pessoas so de fato boazinhas e realizam muitas
ajudas. Com eles voc certamente
no sofrer mais. Talvez deixar de ser sequinha.
Ele, o socorrista, estendeu-me a mo, segurei-a com firmeza. Minha vida mudou.
Fui para um posto de socorro, uma das casas
que j vira; fui tratada com carinho e
esforcei-me para ser simptica e til. Minha aparncia mudou, no era mais seca.
Depois de meses, tornei-me trabalhadora,
fazendo favores. Aprendendo a dar, principalmente
amizade, fiz amigos. Estou bem.
137

Quando estava no umbral, essa pergunta: "E agora?", muito me angustiava.
Soube que desencarnara por outros desencarnados que
vagavam, de modo maldoso e com ironia.
Achara que no fizera maldades; afinal, no trara, no matara, no roubara etc.
Mas fora ingrata, intolerante e no fizera
o bem. Por mais que me esforasse, no
umbral, no consegui me recordar de ningum que me devia um agradecimento por
algo que fizera de corao, com bondade.
Fiquei de fato magrssima, sequinha, como era chamada. Acho que foi por sentir-
me assim, vazia; no dei a ningum a sombra
de uma amizade, no dei frutos de favores
ou de compreenso. De vazia  seca. Sei que em muitas de minhas encarnaes fui
intolerante, no dei valor aos afetos e,
nesta ltima, tive por lio a orfandade,
e em vez de entender e de me esforar para conquistar as pessoas pela amizade,
desprezei-as e sofri.
Ainda bem que temos sempre vrias oportunidades de
preencher o vazio com o bem. Estou aprendendo!
Nada mais certo do que este ensinamento:  dando
que se recebe,  compreendendo que se  compreendido,
tolerado e amado!

   Maria

Explicaes de Antonio Carlos

Tenho conversado com muitos desencarnados que tiveram grandes decepes ao mudar
de plano e no
138

foram socorridos, ficaram vagando ou at foram para o umbral, gabando-se de no
ter feito o mal, mas tambm, no fizeram
o bem que poderiam ter feito.
Maria se sentiu vazia de atos e como escutou muitos a chamando de seca, sentiu-
se assim.
E foi somente quando comeou a se preocupar com o prximo, ajudar, que foi
sentindo-se melhor e pde ser socorrida.
A vida sempre nos d oportunidades de aprendizado, de fazermos o bem, estando
encarnado ou desencarnado. A Lei do Retorno
nos faz ter reaes boas ou ms, e aquele
que no fez nada, no tem o que receber. E por no ter amizade e amor, sofre
muito.
Poderia ter sido diferente para Maria se quando encarnada tivesse sido mais
agradvel, prestativa e caridosa. Ainda bem
que reconheceu que errou e est se esforando
para mudar a forma que agia. Porque  realmente dando que se recebe.

139

captulo treze
Q f / 1
Sombra de uma rvore

No estou passando bem! - expressei-me depois de vomitar novamente
- Capataz! Z Rolha no est bem - falou Marcinho, companheiro.
O capataz, com seu jeito arrogante, aproximou-se e fez cara de nojo ao ver meu
vmito. Depois me olhou examinando. No estava
com boa aparncia, havia vomitado muitas
vezes, sentia dores fortes no abdome, que estava inchado.
- V para o alojamento! - ordenou-me o capataz.
- Ele precisa consultar um mdico - opinou um outro
companheiro.
- Z deve estar se sentindo mal pela comida ruim que nos do - falou Marcinho.
- Deixem de conversa, disse o capataz rispidamente. A comida daqui  boa, vocs
 que so enjoados. V logo, Z, e descanse
por hoje.
140

Fui andando devagar, estava muito cansado. Desde o dia anterior eu no estava me
sentindo bem. Deitei-me,
nosso leito era de folhas e capim, dentro de barracos.
- Nunca pensei que minha situao nessa fazenda pudesse piorar e, piorou! -
reclamei baixinho.
Sozinho, naquela hora do dia, no barraco, fiquei pensando na vida.
De minha famlia, conheci somente minha me, uma morena bondosa e trabalhadeira.
Nunca soube quem fora meu pai. No freqentei
a escola, nem meu nome sabia assinar.
Mame trabalhava de diarista; trabalhava muito e ganhava pouco. Tentava ajudar
nas despesas de casa, e desde garoto ia para
as fazendas trabalhar nas plantaes
com a enxada nas mos.
Era tmido, achava-me feio e ningum queria me namorar. Mame e eu nos dvamos
muito bem e gostvamos
um do outro.
- Se em vez de folha e capim meu leito fosse de palha, diria que essa cama era
como a manjedoura em que Jesus nasceu - balbuciei
e tentei me acomodar do melhor modo
possvel ao meu improvisado colcho.
Lembrei-me ento das festas natalinas, da poca festiva em que se comemora o
nascimento do menino Jesus. Quando pequeno
queria tanto ganhar um presente, mas no
tnhamos dinheiro. Nunca fora revoltado, mas no entendia o porqu de algumas
pessoas terem e outras no. Ali, deitado e
com dores, recordei-me com detalhes da resposta
de minha me, quando certa vez perguntei o porqu de vrias
141

crianas possurem muitos brinquedos, alimentos, roupas, e outras, como eu, no
terem nada.
"Z Pedro, meu filho, no sei lhe explicar o porqu dessa diferena, mas nunca
culpe Deus, Nosso Pai Amoroso. Somos ns
mesmos que fazemos essas diferenas. Acho
que  porque erramos, e Deus bondoso no nos manda para o inferno, mas para c
novamente.  melhor no reclamar, aceitar
e ser bom. Viva de tal forma que quando
voc vir Deus no tenha do que se envergonhar.
O rosto de minha me veio em minha mente. Como gostava de v-la sorrir. Falei
baixinho:
- Mame, tenho feito o que me aconselhou. Estou sofrendo muito aqui, mas nunca
me desesperei, tampouco digo maldies. A
senhora tem razo. Fazemos e pagamos. Acho
que se eu vir Nosso Pai do Cu no vou me envergonhar.
Uma musiquinha de Natal veio em minha mente, no estava disposto a cantar e
lembrei-me do nico Natal em que ganhei um presente.
Mame me levo a um local, num centro
esprita, onde estavam distribuindo alimentos e brinquedos. Ganhei um carrinho,
uma bola e uma roupa nova. Como mame e
eu ficamos contentes! Segurar aqueles brinquedos,
sabendo que eram meus, foi uma doce alegria que inundou meu corao de gratido.
- Como foi agradvel aquele dia! - exclamei baixinho.
Mame fez uma comida gostosa e brinquei muito.
Antes de dormirmos, rezamos juntos agradecidos.
"Vamos orar" - disse ela -, "por aquelas pessoas bondosas, para que elas no
desanimem nunca de fazer o bem."
42

Talvez, conclu ao recordar esse Natal, as diferenas sociais e financeiras
existam para que todos, tanto os que fazem o
bem quanto os que recebem, aprendam a se
amar como irmos.
Olhei as pontas dos meus dedos e sorri ao recordar:
Tive um acidente h alguns anos, cortei a ponta de dois dedos da mo esquerda.
Estava no campo quando um faco me cortou,
saiu muito sangue! Um garoto que estava
ao meu lado apavorou-se e me indagou:
"Z, o que fao com voc para que seus dedos parem
sangrar?"
"Coloque uma rolha!" - exclamei.
A histria se espalhou e ganhei o apelido: Z Rolha.
Estava com quase trinta anos quando me apaixonei por Luzia, uma morena faceira,
que tinha dois filhos. Fomos morar juntos.
Mame no gostou, achei que era por cimes.
Fiz de tudo para agrad-la. Ajudava-a no servio de casa e tratava bem os filhos
dela. Para mim, estava tudo bem, j fazia
quatro anos que estvamos juntos quando
percebi que meus amigos me olhavam de modo diferente ao me cumprimentarem, davam
sorrisinhos marotos. Descobri que Luzia
me traa. Fiquei desgostoso e voltei a morar
com minha me.
- Como sinto saudade da senhora, mame! - exclamei
suspirando.
Voltei a lembrar:
Um amigo me falou que em determinado local estavam
contratando pessoas para trabalhar numa fazenda. Fomos l.
De fato, um senhor estava mesmo admitindo homens para
de
143

trabalhar numa fazenda longe dali. Dava preferncia a jovens e solteiros. J no
era jovem, estava com trinta e cinco anos,
mas era solteiro.
- Devia ter desconfiado! - resmunguei. Vomitei novamente, sentia-me fraco. E os
pensamentos
continuaram..
Despedi-me de mame e vim para esse lugar. Muito longe. Aqui ficamos isolados.
No recebemos nada do que nos foi prometido.
Temos de comprar tudo, at alimento,
que  muito caro. E para compr-los, contramos dvidas, e tornamo-nos todos
devedores. No temos onde dormir, no podemos
ir embora e somos obrigados a trabalhar
muito, e todos os dias. Os capatazes nos vigiam e at batem em quem os
desobedece.
- Somos escravos! - murmurei baixinho.
No tive mais notcias de minha me.
- Mame, como a amo! Que saudades - falei.
J fazia trs anos e no soubera mais nada do que acontecia fora daquela
fazenda. Minha me devia estar sofrendo muito no
tendo notcias minhas. Ela deveria achar
que eu morri. Chorei de saudade e de mal-estar. S que no escorriam lgrimas
dos meus olhos, achei estranho. Somente depois,
na espiritualidade, soube que esse
fato pode ocorrer com pessoas desidratadas.
Quando meus companheiros retornaram ao entardecer ao acampamento, foram
solcitos, ajudando-me a me banhar. Tomvamos banho
num riacho perto dos barracos. Eles tambm
lavaram minha roupa. Eu no quis me alimentar.
144

 noite, cada um se acomodou no seu canto. Meus companheiros, cansados,
adormeceram logo; eu no conseguia dormir, estava
com dores, enjo e vomitei vrias vezes.
Ao amanhecer estava muito mal. No conseguia ficar
em p. Meus amigos chamaram os capatazes.
- Z, fique descansando! - ordenou um dos capatazes.
- Vocs tm de lev-lo ao mdico, ele no est bem, vejam como sua barriga est
inchada - comentou um dos
meus amigos.
Houve uma discusso. Os capatazes no queriam me
levar  cidade nem ao hospital, porm meus companheiros
exigiam.
Os trs capatazes se afastaram, conversaram baixinho e voltaram com a deciso:
- Vamos levar Z Rolha para o hospital da cidade.
Marcinho e Leo, meus companheiros, ajudaram-me, colocando-me deitado, atrs da
camionete. Dois dos capatazes entraram no
veculo e partimos. A estrada de terra com
muitos buracos fazia o carro dar solavancos, que me maltratavam; vomitei muitas
vezes.
Depois de um tempo, pararam. Os dois me pegaram
pelos braos e me tiraram do veculo.
- Infelizmente, Z Rolha, voc vai ter de ficar aqui.
- Por favor, no brinquem! O que farei aqui sozinho? Nem andar consigo. No
faam isso - pedi implorando.
- No d para lev-lo ao mdico ou ao hospital. Se fizermos isso, eles iro nos
denunciar. Depois, quem mandou
voc ficar doente?
145

No estava acreditando no que acontecia. Eles me arrastaram para fora da
estrada. Ali era uma mata. Pararam
num local.
- Vamos fazer logo, disse um deles.
Atiraram em mim. Foram dois tiros no peito. Senti uma
dor aguda e terrvel me queimar. Fiquei no cho. A dor foi
amenizada. Vi os dois cavarem um buraco.
Esforcei-me e levantei. Melhorei dos enjos e do mal- estar, somente sentia uma
dorzinha no peito. Fiquei olhando os dois
cavarem e pegarem meu corpo, somente o
corpo, porque eu continuava ali, olhando-os. Colocaram-no dentro do buraco e
cobriram de terra.
Caminharam para a camionete.
"Hei! Vocs no vo me deixar aqui, ou vo?" - gritei.
- Voc falou alguma coisa? - perguntou um deles.
- No! - respondeu o outro.
E foram embora.
Observei o local e vi uma rvore muito bonita, andei devagar at ela e deitei 
sua sombra.
- Bem - resmunguei. - H muito tempo queria me deitar durante o dia embaixo de
uma rvore. Vou fazer isso agora.
Acomodei-me, observei-a, achando-a linda. Gostei de
ficar ali, foi me dando sono e dormi.
- No  que adormeci - falei baixinho - embaixo de uma rvore como desejava!
Sinto-me melhor. Nem parece
que estou doente. Que fao aqui mesmo?
Lembrei-me. Os dois capatazes me largaram perto da
estrada, do mato, atiraram no meu corpo e o enterraram.
146

Apavorei-me e tremi de medo. Pensei nos meus companheiros l da fazenda e os
escutei:
- Z Rolha est no hospital. Tomara que fique bom!
- O capataz nos disse que ao sair de l, ele ir embora. J no serve mais para
trabalhar.
Ouvi os comentrios, mas sabia que eles estavam l
no acampamento
"Estou louco? Delrio? Estou sonhando? Ou... morri?"
- pensei.
Senti a resposta na ltima pergunta. J escurecia, encolhi-me perto do tronco da
rvore, como se essa fosse me proteger
e gritei:
- E agora?
"Nos momentos difceis, ore!"
Era como se algum me falasse. E foi o que fiz. Ajoelhei-me no cho e roguei
ajuda.
- Minha Me do Cu, Senhora Nossa, socorra-me! Acho que morri! Mande-me, por
favor, seu tero para que eu possa
por ele subir ao cu. Amm!
Orei mais ou menos assim, porm repetindo muitas
vezes o nome de Nossa Senhora, chamando por auxlio. E
ele veio.
Vi uma luz que julguei ser Maria, me de Jesus e escutei algum me pedir para
ter calma. Vi dois vultos que foram tomando
a forma de dois homens risonhos e de semblante
tranqilo.
- Morri? - perguntei a eles.
- Somente seu corpo fsico - respondeu um deles.
147

- Que ser de mim agora? - indaguei-os, sentindo grande autopiedade.
- Vai continuar vivendo em um local que fez por merecer. Ser feliz, amigo!
Venha conosco!
Ajudaram-me a levantar; demos alguns passos e entramos num veculo, achei que
era uma camionete. Somente tempo depois vim
a saber ser um aerobus, um transporte que
se usa aqui na espiritualidade.
Acomodamo-nos no veculo; dormi tranqilo. Acordei num leito macio e cheiroso e
estava com roupas tambm limpas. Senti-me
maravilhosamente bem. Espreguicei-me e
um senhor me cumprimentou sorrindo:
- Bom dia, Jos Pedro! Como est? Quer se alimentar?
Ofereceu-me uma bandeja com sucos, frutas e pes.
- Sinto-me um rei sendo servido. Obrigado!
Fiquei dias ali e me senti felicssimo. Estava num quarto com banheiro, comendo
alimentos gostosssimos. Tudo era muito
limpo, eu estava descansando e sentindo-me
bem. Agradecia a Deus e s pessoas que me serviam.
Minha adaptao no plano espiritual foi prazerosa.
Passei a fazer pequenas tarefas e, o melhor, fui para a escola
aprender a ler e a escrever.
Desencarnei por causa dos tiros, mas meu corpo fsico, com apendicite aguda, ia
mesmo desencarnar. Em momento algum tive
rancor, raiva dos dois capatazes ou de outras
pessoas.
Soube de minha me; ela estava muito triste por no saber de mim. Sozinha e
doente, vivia de esmolas. Nem dois
anos haviam se passado, quando mame desencarnou e pde
148

vir ficar comigo. Nosso encontro foi emocionante, choramos abraados. Assim que
ela se recuperou, fomos morar juntos numa
casinha linda. Minha mezinha tambm foi
estudar.
Aprendi muito na espiritualidade, podendo colocar os ensinamentos em prtica.
No recordei de minhas outras passagens pelo
plano fsico, minhas outras encarnaes.
Soube somente que fora anteriormente um capito do mato, um perseguidor de
escravos. Por atos maldosos que pratiquei sofri
muito por remorso e essa encarnao foi
uma bno, quitei minhas dvidas. E, graas a Deus, no me sinto mais devedor.
No tenho mais carma negativo7.
Anos se passaram, tive a bno de ser til em vrias formas de servir. E,
sempre gostei de sentar embaixo de uma rvore,
nas minhas horas de folga, durante o dia.
Fiz desse ato um exemplo que deveria ser seguido por todos. As rvores nos do
muitos benefcios e nada nos cobram por eles.
Desse modo devo agir, fazendo o bem,
porque assim tem de ser feito. Quando desencarnei acomodei-me debaixo de uma
rvore, e aquela sombra foi um acalento, um
abrigo. Assim, desejei ser tambm um abrigo
de consolo para os outros, e tenho me esforado para conseguir.
Quando pude escolher em que trabalhar, fui contente
fazer parte de um grupo de socorristas que auxiliam pessoas
-que foram assassinadas. Tenho, nesta tarefa, visto muitos
7  carma: expresso popularizada entre os hindus, que em snscrito quer dizer
"ao" a rigor, designa "causa e efeito". Leia mais: Ao e reao. Francisco
Cndido
Xavier. Ditado pelo Esprito Andr Luiz. Captulo 7, 1 6 edio. Rio de Janeiro:
FEB,
1993 (N.E.).
149

fatos tristes de torturas e crimes cruis. Tentamos amenizar essa passagem
difcil, s vezes, sem poder fazer nada, ento
oramos ao lado dos que agonizam. Tenho
a impresso de que somos como as rvores que lhes do sombra contra o calor do
dio. Temos carinho e damos ateno especial
para crianas que tiveram o corpo fsico
assassinado. O socorro  realizado de muitas formas. Tentamos desligar o
esprito da matria morta, dar os primeiros socorros,
mas somente so levados para os abrigos
aqueles que perdoam e querem receber o que as casas de auxlio, aqui no plano
espiritual, tm para oferecer. Muitos desses
socorridos no ficam nos nossos postos
de socorro, no aceitam o que oferecemos, acham rgida a disciplina das casas,
saem e quase sempre querem se vingar.
Para ns, os socorristas, no importa o que fez o desencarnado para receber a
reao de ter o corpo fsico morto nessas
circunstncias. Fazemos tudo para auxili-lo
e oramos tambm pelos assassinos. Sabemos que quem faz, para si faz. E crimes
cruis trazem conseqncias terrveis para
quem os comete. A crueldade  como um lodo
ftido grudado no perisprito, e so necessrias muitas lgrimas de dor para
limpar.
Amo o que fao e respondo carinhosamente s indagaes que escuto dos
socorridos: "E agora? Que fao?".
- Perdoe, pea a Deus auxlio e confie! Porque no acabamos com a morte do
fsico, a vida continua. E sempre encontramos
sombras de rvores a nos dar descanso nas
caminhadas da vida.

  Jos Pedro

150

Explicaes de Antonio Carlos

Vemos, na histria de Jos Pedro, que ele resgatou pela dor, erros cometidos em
vida passada. Agiu como algum que, tranqilo
e aliviado, foi quitando suas dvidas
e no trmino ficou feliz por dizer: "Quitei!". Poderia, Jos Pedro, ter
resgatado com trabalho no bem, ajudando a outros.
A escolha foi dele. Mas esse meu amigo
ajudou muitas pessoas. Caridade material, segundo ele, fez pouco, pois no teve
condies. Mas, no esqueamos do bolo
da viva8, do Evangelho. Foram muitas as
vezes em que ele se alimentou pouco para dar sua poro aos outros, trabalhou
mais para os companheiros descansarem, e fez
muito bem ao seu prximo; porm, para
ele que era humilde, achou que no fizera nada, mas fez, pois foram esses atos
que lhe deram crdito.
O socorro realizado, no qual necessitados so levados aos abrigos, postos de
socorro, colnias,  visto pelos socorridos
de muitos modos. Para alguns estar na enfermaria
num hospital da espiritualidade no  bom. Como tambm outros no acham bonitos
os lugares simples como essas casas de auxlio.
Muitos se incomodam com a ordem e
a disciplina que tem de existir nos abrigos. E para outros como Jos Pedro,
8  KARDEc, Allan O Evangelho Segundo o Espiritismo. Captulo 13, item 5. So
Paulo: Petit Editora (N.E.).
151
so realmente locais de alegrias, felicidades, pessoas assim se afinam e os tm
por moradia.
O grupo de socorristas, do qual Jos Pedro faz parte, realiza um excelente
trabalho de auxlio, e, infelizmente, eles tm
tido muito o que fazer. A violncia aumenta
em perodos difceis, e eles com carinho, muito amor tentam socorrer vtimas
dessa violncia e, dentro do possvel, de suas
metas de trabalho, fazem de tudo para
ajudar pessoas que foram assassinadas.
E Jos Pedro no somente d sombra aos seus acolhidos como tambm doa frutos de
amor para alimentar almas, deixando em cada
corao consolado uma semente da gratido
que certamente um dia germinar, despertando neles a vontade de mudar a forma de
viver.

152

captulo quatorze

Os abusos do Sexo

- Voc morreu, Mercedes! Est mortinha! - exclamou
com maldade um homem de aspecto sinistro.
- No!  mentira! - gritei desesperada.
- Est morta, sim! Infelizmente  verdade! - disse uma mulher suja e muito
pintada.
- Quem  voc? - indaguei-a.
- Pombagira9!
Estava muito perturbada, cansada e com falta de ar. Estava no meu quarto, no
casaro - chamvamos de casaro o bordel. Era
uma construo antiga, muito grande e
com vrios quartos. Residia ali havia anos e gostava muito. A casa era
organizada, os proprietrios eram um casal de estrangeiros,
que alugava os quartos, promovia
festas, mantinha os empregados e seguranas.
9 Pombagira: ou Pombajira  uma expresso original do dialeto banto da frica.
 a companheira de Exu. Fonte: Dicionrio Aurlio (N.E.).
153

Eu no freqentava nenhum culto ou igreja, mas orava
e pedia sempre para Nossa Senhora me amparar. Algumas
mulheres do casaro freqentavam um terreiro de candombl
e elas diziam que Pombagira era a protetora das prostitutas.
Olhei-a, examinando-a. Achei que estava sonhando.
A porta do meu quarto abriu e trs mulheres que
residiam comigo entraram conversando.
-Vamos pegar para ns as roupas da Mercedes, as que podem nos servir. O resto
vamos doar.
- Que morte estpida! Vocs no acham?
- Toda morte  um horror! No acredito que Mercedes tenha se suicidado!
- Para mim, ela no se suicidou!  mais fcil para a polcia e para os
proprietrios dizer que ela se matou. Um
crime sempre  mal visto.
- Temos de nos cuidar! Ningum d valor  vida de uma prostituta!
Conversavam sem parar, falando de mim. Pegaram tudo
o que era meu e saram.
- Quero acordar! - gritei batendo a cabea na parede.
- Mercedes - falou a mulher que se denominou Pombagira -, calma! Voc de fato
morreu!
- Eu?! Morri?! E agora? Faleci como? Eu no me suicidei!
- Claro que no! Se tivesse se suicidado estaria junto de seu corpo fsico,
vendo e sentindo os vermes devorando-a. Vou
ajud-la a se lembrar. Chantageou aquele
homem e ele a matou de forma que pudessem achar que voc se suicidou.
154

Lembrei-me, estava encontrando ultimamente com um homem que tinha fama de
maldoso. Ele estava me tirando dinheiro e eu o
ameacei: "Se ele no parasse eu ia contar
para a mulher dele tudo o que fazia de errado". Ele riu e no se importou. No
dia da minha morte eu estava na banheira tomando
banho e ele apareceu de repente, devia
estar escondido no banheiro. Tampou meu nariz e boca com um pano molhado em
algum remdio que me fez perder os sentidos,
depois afundou minha cabea dentro d'gua
e afoguei-me.
- Que horror! - falei chorando. - Ele no vai ser punido? Assassinou-me!
- Nossas companheiras de prostituio tm razo, ningum se interessa muito pelo
que acontece com uma prostituta. Ainda
mais quando j se est ficando velha! Mas,
ele matou,  um homicida, pode at ficar sem punio no corpo fsico, mas um dia
ter a reao. Pois tudo o que fazemos
de ruim fica marcado em ns, pecados nos
pesam de tal maneir'a que no conseguimos ir para lugares melhores.
- Voc no est alegre! Pombagira no  animada?
- Fui prostituta quando encarnada e no consigo me livrar dos meus vcios de
fumar, beber e fazer sexo, por isso,
fico mendigando as sensaes dos encarnados.
- Est tudo complicado demais! - expressei-me, lamentando. - No entendo, morri
e estou viva! Irei para o
inferno?
- Ser que voc ainda no percebeu que inferno  tudo isso? Vou lhe mostrar como
ser sua vida de agora em
diante! - falou ela.
55
Vera Lcia Marinzeck de Carvalho - Antnio Carlos

Puxou-me pela mo e me levou a um lugar estranho,
mas conhecido por mim.
- Voc, Mercedes - explicou-me a mulher-, vinha aqui quando deixava seu corpo
carnal dormindo. Estamos ligados ao que cultuamos
- suspirou. - Tive um nome quando
encarnada, chamava-me Vera. Agora me chamam l no terreiro de Pombagira. Voc
tambm ser uma Pombagira, uma das secundrias
como eu. Vai viver neste lugar e para
se alimentar ter de sugar energias dos que esto encarnados l no bordel. Voc
 viciada, e a morte no nos livra dos vcios.
Sentir vontade de fumar, beber e
fazer sexo, como tambm de se alimentar, ter sede e dores. Voc deve ter
cuidado e ser cautelosa. Aqui temos chefes e a
aconselho a obedecer, seno receber castigos
terrveis.
Aquela mulher me mostrou tudo. Ali havia algumas casas e um salo enorme para
festas. Vi muitas pessoas que pareciam ter
relaes sexuais no cho, pelo gramado feio
e seco, sem se importar com os outros. Havia pessoas ali que eram diferentes.
Ela me explicou:
- Esses com cordes so encarnados e os outros, desencarnados como voc e eu,
Encarnados afins visitam este lugar quando
seu corpo fsico dorme. Alguns lembram como
sonhos erticos.
- Est sempre na penumbra? - perguntei.
- Sim est - respondeu ela. - Mercedes, ali naquela casa, mora a chefe que
comanda este local. Se ela precisar de voc,
manda cham-la. Para viver razoavelmente
aqui  melhor evitar complicaes e brigas. Agora tenho de me
156

ausentar, voc fica por a,  noite venho busc-la para lev-la ao bordel.
Fiquei sozinha, tive medo e vontade de chorar. Um homem tentou me agarrar, tive
de lutar para me livrar dele. Vi outro homem
chorando, sentei perto dele que me falou
desabafando:
- Estou cansado! Nunca pensei que cansaria de sexo. Tenho pensado muito na minha
av, no que ela me dizia:
"Todo abuso cansa!". E esse cansao me faz sofrer!
Uma mulher o puxou e rolaram pelo cho.
Quando minha companheira veio me buscar, falei a ela:
- Aqui, alguns parecem estar infelizes! Por qu?
- A morte do corpo  complicada e ao mesmo tempo simples. Sentir de um jeito ou
de outro depende da pessoa. Por isso no
complique a sua. Aqui, Mercedes, no  um
paraso, deve ter percebido. Voc no estaria num local desses. Inferno tambm
como nos ensinaram, fogo eterno, tambm no
o , chamamos esse lugar de umbral. E
aqui, especialmente, moram os que abusaram do sexo, sejam homens ou mulheres.
Para uns  uma escola de correo, para outros
ainda  por algum tempo uma fonte de
prazer.
- No pensei que depois de mortos continuaramos abusando do sexo - falei.
- Somente o corpo de carne morre. Continuamos vivos e ns construmos,
encarnados, a nossa vida depois que desencarnamos.
Somos agora desencarnados e no usufrumos
do sexo como os que esto no plano fsico; para ter as sensaes temos de
vampiriz-los. No percebe, Mercedes, que isso
aqui  um castigo!
157

- Voc sente-se bem,  feliz? - indaguei-a.
- No sou! Queria ter morrido mesmo. Acabado! Meu corpo fsico ficou doente,
morreu e continuei a viver errada-
mente. Chega de conversas desagradveis. Vamos ao bordel.
L, vi muitos desencarnados ficarem perto de encarnados e sentirem como se
estivessem fumando, embriagando-se e sentindo
os prazeres do sexo.
Senti muita vontade de fumar e fiz como os outros
desencarnados que estavam l. Saciei minha vontade, senti
como se estivesse fumando etc.
E assim vivia, ora estava no umbral, naquele estranho lugar onde era visitada
por muitos encarnados, ora estava no bordel
vampirizando os encarnados. Tornei-me uma
Pombagira secundria, aquela que somente pode vampirizar e fazer pequenos
favores aos freqentadores do bordel para ter
o gozo de seus vcios.
Via sempre meu assassino que continuava a enganar, a trair e no tinha nenhum
remorso de ter me matado. Ele estava envolto
por uma sombra negra, caracterstica dos
homicidas. No gostava de v-lo.
Cansei de viver daquele modo. O vazio dentro de mim
passou a doer. Comecei a sofrer. Tinha medo de dizer e
receber castigo.
Passavam por ali, no umbral, alguns desencarnados diferentes que eram chamados
por ns de muitos nomes depreciativos. Comecei
a prestar ateno neles, observava-os
de longe. Eram tranqilos e felizes. Um dia, aproximei-me deles e pedi com
sinceridade:
158

- Por Deus, ajudem-me! No quero ser mais m! Quero auxlio!
Eles me levaram para um hospital. Fui tratada pela
primeira vez como um ser humano, como o prximo deles.
Compreendi que errara muito e quis me modificar.
Erramos muito com o abuso e quando nos perdemos nos vcios. Tive de fazer um
longo tratamento para me livrar dos reflexos
que sentia do meu corpo fsico, pois ainda
eram muito fortes no meu perisprito, e tambm para no ter mais vontade de
fumar, embriagar-me e entender a funo verdadeira
do sexo.
 muito triste lembrar de tudo o que me aconteceu. Em bordis, locais como
motis e onde as pessoas bebem, fumam, drogam-se,
h sempre desencarnados para sugar,
vampirizar para sentir sensaes. Depois, quando esses encarnados mudam de
plano, quase sempre continuam indo a esses lugares
para vampirizar a outros.  um crculo!
Escutei quando estava no umbral de uma companheira de infortnio: "Mercedes,
voc j gostou muito de um determinado alimento?
Comeu tanto que enjoou? Gostamos de
sexo, abusamos e aqui o temos at enjoar. E quando enjoamos  o comeo do
castigo, no conseguimos parar".
Tive a vida que escolhi. Fui prostituta por opo. Fui humilhada, levei muita
surra, mas bati tambm. Odiei meu assassino;
mas o dio passou e tive d dele porque
sei que ele sofrer um dia. Conheci no bordel algumas mulheres que no tiveram
escolha, estavam ali por vrios motivos e
no gostavam. Quando morei no casaro, ajudei
159

muitas moas a sarem de l e a obterem outra forma de
sobrevivncia.
Agora que conheo a vida digna que um desencarnado pode ter, compreendo o tanto
que os viciados sofrem. Fui viciada em sexo,
fumo e bebida. Desencarnei, e a eles
fiquei presa. Continuei a fazer com a minha mudana de plano o que fazia quando
encarnada, porm de modo diferente, mas
tentando usufruir dos vcios. Sofria e no
conseguia largar. At que tive coragem para mudar. A indagao que fiz ao ter
meu corpo fsico morto, foi confusa, primeiro
pensei que estava sonhando, depois entendi
que a vida continuou e para mim sem muitas diferenas.
Ainda estou em tratamento, estudo e fao pequenas tarefas. Somente vou pedir
para reencarnar quando estiver bem segura.
Sei que terei de passar por provas no plano
material e s poderei dizer que me curei dos vcios tendo oportunidades de
usufru-los e neg-los. E benditas so essas
oportunidades!

   Mercedes

Explicaes de Antonio Carlos

Escutamos conselhos cautelosos para sermos cuidadosos com aquilo a que nos
dedicamos na vida encarnada. Vcios nos prendem,
virtudes nos libertam, Os reflexos do
corpo fsico so muito fortes naqueles que cultuaram o envoltrio carnal. Alm
de sentir fome,

160

sede, frio, dores, tambm sentem desesperadamente a falta do objeto de seus
vcios.
Sabemos de muitos desencarnados que saem de locais de socorro por causa do fumo,
da bebida e das drogas. Temos a liberdade
de nos ligar ao que queremos, a atitudes
boas ou ms, s que se as aes so consideradas nocivas, teremos muita
dificuldade para nos libertar.
Novamente digo, j repeti muitas vezes, desculpe-me o leitor, mas so nossas
aes que nos acompanham,  a nossa propriedade
verdadeira. Sei de muitas mulheres que
foram prostitutas, que desencarnaram com muitas boas aes e no passaram pelo
que essa nossa convidada passou.
Mercedes foi assassinada e desligada por desencarnados que freqentavam o
ambiente onde vivia. Esse processo de desligamento,
de tirar o esprito vivo, pois este
no morre, da matria carnal morta,  tarefa para os que sabem e muitos
moradores do umbral sabem e fazem.
Pombagira so desencarnados, principalmente os que vestiram quando encarnados
uma roupagem feminina, que foram promscuos
sexualmente e continuaram na espiritualidade
viciados. Chegam at a incorporar se a encarnada for mdium. Fazem favores aos
que esto no plano fsico desde que possam
usufruir do prazer. No  uma entidade
somente que recebe esse ttulo de Pombagira. So muitas que se apresentam em
terreiros,
161

ou seja, em lugares que usam a mediunidade sem estudo e conhecimento que visam a
melhora do indivduo. Obedecem normalmente
a chefes e tentam viver desencarnadas
do melhor modo possvel. Porm, como ela nos narrou, cansam-se e sofrem. Porque
vcio e prazer nos deixam um vazio e essa
vacuidade di.
O perisprito  idntico ao corpo fsico, e aqueles que cultuam muito o sexo,
podem ir a esses locais no umbral e plasmarem'
uma relao sexual. Mas  vampirizando
encarnados que julgam ter prazer. Muitos se iludem vivendo com o perisprito,
achando que esto na vestimenta fsica e fazem
quase tudo o que os encarnados fazem.
Pelo umbral existem muitos lugares onde se agrupam desencarnados, tanto homens
quanto mulheres que abusaram do sexo. So
locais que causam tristeza. E esses moradores
tanto ficam l como junto de encarnados afins.

10  Plasmar: criar alguma coisa por meio do pensamento, manipulando o fluido
csmico (N.E).

162

captulo quinze

A guerra


Eu Darcyllei, Darcy, como me chamavam e chamam,
desencarnei numa guerra.
Lembro-me de todos os acontecimentos e fao o relato
como se falasse a voc, amigo leitor.
Vivia encarnado muito bem. Se s vezes reclamava era por aborrecimentos simples
ou corriqueiros. Compreendo agora que era
feliz. Famlia estruturada, pais bondosos,
irmos que me queriam bem, e eu a eles, esposa amada e uma filhinha linda e
saudvel.
Militar por vocao, almejava fazer carreira e me aposentar com patente de
general. Para isso, era dedicado e
estudioso.
Surgiu a guerra, num pas longnquo. No tnhamos
nada que ver com essa disputa sangrenta.
Fui convocado junto com outros companheiros para
participar do conflito. Fomos enviados para patrulhar o
local como emissrios de paz.
163
Vera Lcia Marinzeck de Carvalho - Antnio Carlos
A despedida foi muito emocionante; sofremos. Abraamos nossos familiares
demoradamente. Recebi recomendaes e fiz algumas.

Mame, minha esposa e minha filhinha abraaram-me
chorando.
- Deus o abenoe, meu filho!
- Tchau, papaizinho!
- No esquea de ns, amor!
E, l fui eu. Terra distante, costumes diferentes, lngua incompreensvel,
tivemos de nos esforar para fazer nosso trabalho
a contento. Fomos bem recebidos pela
maioria da populao, percebemos que eles sofriam demais. Muitos deles ansiavam
pela paz. Soubemos de vrios abusos, barbaridades
e atrocidades. A guerra d oportunidades
para que muitas pessoas cometam atos que no seriam cometidos em outras pocas.
Percebamos o sentimento de dio nos olhares,
nos gestos e nas falas.
Ficamos acampados perto de uma cidade. Por ali, eram poucas as famlias que no
tiveram um de seus membros padecidos com
aquela guerra. Por todos os lados havia
sinais de violncia; vimos sangue na terra batida de uma estradinha, que por ela
amos em direo a uma fonte de gua.
Reunamo-nos todas as tardes para orar pelos mortos,
por aqueles que sofriam e por ns. Estvamos temerosos.
- No estamos protegidos aqui - disse meu superior. - Eles se odeiam muito e
desejam vingana. No iro parar de
guerrear. Devemos estar alertas.
Fomos atacados numa emboscada,  noite. Fui ferido,
senti um ardume no peito como se tivesse sendo queimado.
164

Foram momentos de agonia, correria, gritos e tiros. Eu sangrava muito. Um mdico
aproximou-se de mim.
- Salve-me, por favor! No quero morrer! - roguei.
Ele no entendeu o que falei, mas sentiu meu apelo, olhou-me com bondade.
Examinou-me rapidamente, colocou uma atadura no
meu ferimento e disse algo que no entendi.
Compreendi que ele me acalentava, tentava me dar nimo. Mas percebi seu
pensamento, meu estado era grave.
Senti dores, fui sumindo, ou apagando, estava perdendo os sentidos, esforcei-me
ao mximo para ficar acordado. Recordei-me.
Foi como ver um filme dentro de minha
mente. Vi-me pequeno recebendo os beijos estalados de minha me. Papai sorrindo,
abraando-me. Meus avs me agradando e
fazendo afago. Vi-me andando com mame, ns
dois, passeando com nosso cozinho. Minha me sorridente cumprimentando a todos:
bom dia! E ela me dizendo:
"Filho, devemos desejar com sentimentos bom dia s
pessoas! A felicidade est nas pequenas coisas, nos atos
simples."
E os cumprimentados respondiam alegres e sorrindo.
Minhas formaturas. Lembrei-me da pr-escola, estava vestido de beca. Vi, num
relance, os fatos importantes de minha vida:
meu casamento, o nascimento de minha filha...
Ao me recordar dela, tive vontade de lutar pela vida. Com muito esforo abri os
olhos.
Os tiros haviam parado, chegou o reforo. Outros mdicos e enfermeiros entraram
no nosso acampamento, colocaram-me numa
maca e entramos numa ambulncia. Mais confiante
relaxei e apaguei de vez. Dormi.
165

Acordei e senti algo estranho, sem entender como, vi-me sendo levado para o
hospital, onde desencarnei. Em lances rpidos
vi meu corpo ser levado para meu pas e
enterrado como heri. Senti por momentos a dor de meus pais, o choro de minha
esposa e a lamentao de amigos.
- No devo pensar nisso - disse baixo. - No devo dar ateno a sonhos.
Abri bem os olhos e sentei no leito. Olhei curioso para
o local em que estava e continuei a falar:
- Estou num hospital!
Estava numa enfermaria com muitos leitos, todos ocupados. Vi, no leito ao meu
lado, um companheiro e amigo,
estudamos juntos, e fomos convocados na mesma poca.
- Voc tambm est ferido? - indaguei-o.
Ele me olhou de forma estranha, parecia embriagado,
pensei que talvez estivesse anestesiado.
- No sei - respondeu ele. - Parece que levei um tiro, senti-o na cabea e
desmaiei. Acordei e no tenho nenhum
ferimento.
- Vocs no esto desconfiando de nada? - disse um outro soldado do leito ao
lado. - Fomos feridos e no temos ferimentos.
Acho que morremos! Deve ser isso, nosso
corpo teve suas funes cessadas e, como espritos no morrem, estamos nos
sentindo vivos, porm estamos mortos.
Olhei para o meu peito, abri a camisa. Nada. No havia ferimento. Alegrei-me.
Sonhara. No tivemos ataque e no fora ferido.
Mas por que estava naquela enfermaria?
Senti um medo terrvel e indaguei ao moo que falou:
166

- Por que disse isso? Acha mesmo que morremos?
- No  agradvel essa idia. Mas estou raciocinando. Estvamos no meio de uma
guerra horrorosa. Todas as guerras so horrveis!
Fomos atacados. Fui atingido aqui
na testa, senti o sangue escorrer. Agora estou aqui nesta enfermaria
desconhecida. Li alguns livros espritas, algo a esse
respeito. Minha av segue essa Doutrina
e, segundo ela, morrer  assim mesmo. Algo bem natural.
- No! No quero morrer! S tenho vinte e seis anos, estou noivo! No quero
morrer! Por Deus, no quero! - Meu
amigo gritou desesperado.
Tremi de medo em pensar que fosse verdade, e tambm de ver meu amigo gritando.
Duas pessoas vestidas de branco vieram correndo
para perto de ns. Tentaram acalm-lo.
No sei como, fizeram-no dormir, no vi aplicarem nada nem injeo. Fiquei
encolhido no leito. Perguntei para a moa que
viera com um senhor ajudar meu amigo:
- Estamos mortos? E agora?
- Acalme-se e confie! Em qualquer lugar que estejamos, Deus est conosco!
Tive vontade de chorar; ela se aproximou de mim, pegou
na minha mo e continuou a falar:
- Darcy, voc est entre amigos, no se desespere, ore e tente ficar tranqilo.
Vivos estamos sempre, ocorreu com
vocs uma mudana e...
- Malditos! Mato-os! Ignorantes! - gritou um rapaz que estava perto de ns e que
saiu chutando tudo o que
via pela frente.
167

O outro que estava ao meu lado me disse:
- Darcy, no faa como ele, se sair daqui ir vagar entre os mortos da guerra
que se odeiam.
No odiava, tinha pena de todos, principalmente dos
que padeciam e de mim. Fui morto num conflito que nem
era meu. A moa sorriu e me disse:
- Ainda bem, Darcy, que no odeia e sente que o conflito no  seu. Deite-se
direito, relaxe e durma.
Ela, pelo visto, tinha muito que fazer. Escutei gritos de dor e revolta, e a
moa afastou-se apressada. Olhei para o moo
ao lado - o que havia falado comigo -,
ele sorriu e disse:
- Chamo-me To, no se apavore!
- O que ir nos acontecer? - indaguei aflito.
- Temos de dar graas a Deus por estarmos aqui. Pelo que sei, estamos
socorridos. Os desencarnados bons devem ter nos trazido
para c e nosso corpo fsico deve ter
sido enterrado. Venha c! Venha espiar l fora pela janela.
Levantou-se e aproximou-se de mim, puxando-me pela
mo. Levantei, estava tonto, mas fui com ele at a janela
que estava fechada por um vidro.
- Olhe, Darcy! L fora h guerra! Veja! Ali esto os que morreram sentindo dio,
eles continuam lutando. V
aqueles ali? Sentem tanta revolta que se agridem.
Creio que nunca vou esquecer o que vi: muitos mortos como ns, sangrando,
feridos; alguns pareciam atirar; outros se agrediam
com facas, pedras, murros e tapas.
Xingavam-se e blasfemavam com muito rancor.

168

Chorei. A moa aproximou-se novamente. Ns dois a olhamos. Pedi explicaes com
o olhar. Ela falou compassadamente:
- Sentimentos fortes nos acompanham aps o corpo fsico ter falecido. Aqueles
que vemos ali, so todos desencarnados, isto
, vivos em esprito. No somente guerreiam,
mas se odeiam. O dio os perturba e continuam querendo o mal do prximo, dos que
julgam inimigos.
- At quando ficaro assim? - perguntou To.
- At se sentirem cansados de sofrer e resolverem perdoar e pedir perdo -
respondeu ela.
- O que vai ser de ns? - perguntei.
- Sero transferidos para o pas de vocs. L iro para as cidades espirituais,
as quais chamamos de colnias, e que se
localizam no plano espiritual, perto da cidade
em que residiam quando encarnados. Nesse local iro receber orientaes e
aprendero a viver com o corpo que agora revestem:

o perisprito. Vero que a vida continua!
Senti muita pena de mim, chorei e lamentei-me:
- Nada ser igual! Deixei os que amava!
- Tem razo - disse a moa -, nada ser igual! A vida na espiritualidade 
diferente, embora muitos a achem parecida. Darcy,
quando amamos, o amor nos acompanha,
e esse sentimento nos fortalece. Voc vai se acostumar! Tambm deixei o corpo
jovem, famlia, um noivo e muitos amigos.
Pensei, ao voltar para a espiritualidade,
que os havia perdido. Mas no, eles continuaram me amando e eu a eles. Senti
muito por ter feito essa mudana, mas como
sempre, resolvi
169

reagir. Aceitei a desencarnao quando passei a preocupar-me e ajudar os que
sofrem.
Fomos transferidos. Embora achando tudo muito bonito, estava triste. No queria
ter feito a mudana de plano. Mas tive uma
agradvel surpresa: meus dois avs me
esperavam e deles recebi afago, incentivo, carinho e orientao. No foi fcil,
a saudade doa e queria estar encarnado.
Desejava estar em casa, vendo minha filhinha
crescer, ajudar minha esposa e beijar meus pais. Atos simples que gostava tanto
de fazer e que agora eram to valiosos para
mim.
Meu tempo foi preenchido. Para aprendr a viver no
plano espiritual fui estudar. Passei a realizar tarefas, a participar de um
coral, a praticar esportes e a ler livros.
Um dia, percebi que estava adaptado. Recebi visitas de
meus familiares encarnados e pude v-los em ocasies rpidas.
Sou til e me esforo para ser cada vez mais. Nos dois planos, fsico e
espiritual, faltam servidores. Sabendo disso, desejo
ser um servo e fazer com carinho um
trabalho de auxlio. Aquela socorrista, que me ajudou no posto de socorro
daquele pas em guerra, tinha razo: somente estaremos
bem quando a preocupao com o prximo
for maior do que conosco.

Darcylley

Explicaes de Antonio Carlos

No  agradvel ver uma batalha onde as pessoas se
ferem ou se matam.  mais triste ainda ver esses
170

acontecimentos do plano espiritual. Muitos que desencarnam numa guerra podem ser
socorridos de imediato, outros no. Vimos,
no relato desse convidado, que ele e
alguns companheiros puderam receber o socorro. Os que odiavam, desligaram-se do
corpo fsico morto; porm sentiram os ferimentos
e a dor lhes dava mais revolta,
por isso continuaram guerreando.
Devemos orar sempre para que os homens se entendam e que no se faa mais
guerras.
Darcy sentiu a mudana de plano, e  natural que muitos a sintam. Deixar tudo o
que se ama no  fcil. Mas, diante da desencarnao,
temos de nos esforar para
acostumarmos a viver na espiritualidade e amar tambm outras coisas e pessoas.
Jesus nos recomendou que nos cingssemos com cinto para a viagem. Naquele tempo
as viagens eram feitas quase sempre a p
e era necessrio um bom preparo.
O Mestre Jesus compara a desencarnao com uma viagem que teremos de fazer, e
como no sabemos quando iremos viajar, devemos
estar preparados. Reencarnar, viver
provisoriamente no plano fsico encarnado e desencarnar so acontecimentos
naturais; sbios so os que conseguem compreender
isso.
E esse convidado terminou seu relato com uma grande verdade que se resume em: 
dando que se recebe.

171

captulo dezesseis

Somos espritos

Tinha muito medo, pavor mesmo de espritos. Se me falassem que em tal lugar
havia espritos no passava nem perto. Somente
depois de ter voltado  ptria verdadeira,
a espiritualidade, foi que compreendi que somos espritos e que eles coexistem
no corpo fsico.
Minha vida encarnada foi complicada. ramos cinco irmos, meu pai era pessoa
severa, que nos educou dentro dos bons costumes,
porm ele no tinha muita pacincia
comigo. Meus familiares achavam que eu era estranha, diferente dos outros.
Normalmente sabia o que iria acontecer com todos
ns, quem da famlia morreria ou se acidentaria
etc., isto , previa o futuro. Via vultos, ouvia risadas e tinha horrveis
pesadelos que se repetiam. Sonhava que estava
num caminho estreito que contornava uma
cachoeira alta e as guas batiam nas pedras. Pegava trs crianas e as jogava
172

l de cima, e ria. Depois escutava um homem dizendo:
"Recorda seu crime! Voc pagar por ele!"
Corria desesperada e caa. Acordava quase sempre
gritando, suando e tremendo.
No gostava de estudar e freqentei a escola somente por quatro anos. Meus
irmos arrumaram empregos e eu fiquei ajudando
minha me nos servios de casa. Mesmo sendo
estranha, medrosa e saindo pouco de casa, arrumei um namorado, que era nosso
vizinho. Meus pais gostaram dele, pois era
um moo simples, trabalhador e bondoso.
Num domingo, meu pai, um dos meus irmos e esse moo foram pescar. Aconteceu um
acidente: eles estavam num barco e afastaram-se
muito da praia, quando foram surpreendidos
por uma forte tempestade. O barco virou e somente meu irmo se salvou.
A tragdia me abalou muito e nunca mais fui a mesma. Sentia-me perseguida, ouvia
sempre as risadas, os pesadelos se intensificaram
e comecei a ver meu ex-namorado
afogado me pedindo para tir-lo do mar.
Sofri muito. No ficava sozinha, passei a dormir com minha me. Estava sempre
chorando, minha famlia me levou a mdicos
e tomei medicaes fortes. Depois de um
tempo parei de ver meu ex-namorado.
Minha me me levou a muitos lugares para receber
bnos, mas no melhorava.
Fomos a um centro esprita e l disseram para mame
que eu necessitava voltar mais vezes. Mas com medo at do
nome do local que tinha esprita, no quis ir mais.
173

Passei a ver nos pesadelos o dono da voz que me acusava, era um homem que
deveria ter sido bonito, mas quando me olhava
com seu olhar frio, transmitindo dio, era
aterrorizante. Acordava e sentia-o ao meu lado.
Anos se passaram. Minha me ficou doente e se preocupava muito comigo. Meus
irmos casaram e ela sabia que quando morresse
no iriam me querer na casa deles. s
vezes, at meus sobrinhos tinham medo de mim.
Escutava uma voz, sabia ser daquele homem que via
nos pesadelos, ele me dizia:
- Suicida! No seja covarde! Se voc matou as crianas, tenha coragem e se mate!
- No! - respondia e s vezes at gritava. - No vou me matar! No vou
assassinar mais ningum!
Todos achavam que eu falava sozinha, mas estava
respondendo  voz que escutava, do obsessor.
- Mame - eu pedia -, vigie-me, no quero me matar!
Um dia sa de casa para dar uma volta e tive vontade de me jogar na frente de um
caminho. Cheguei a ficar parada no meio
da rua escutando a voz: "Mate-se covarde!
Morra!".
Pessoas que passavam pela rua ao me ver ali parada,
gritavam comigo: - Sai da rua, Maria do Carmo! Vai para casa!
Uma vizinha me pegou pelo brao e me levou para meu
lar. Chorei muito e resolvi no sair mais de casa sozinha.
Esse esprito me falava muito para que me matasse.
Mas resisti, somente iria morrer quando Deus quisesse,
quando findasse meu tempo de encarnada.
174

Tomava remdios fortes que me davam um pouco de alvio, mas tinham muitas
contra-indicaes, davam-me dores
no estmago e na cabea.
Como  ruim estar o tempo todo com algum que
nos odeia.
Mame passou a freqentar um centro esprita, melhorou de sua doena e eu
tambm. Embora com muito medo
eu ia, s vezes, com ela e comecei a me sentir melhor.
As pessoas que freqentavam esse centro esprita eram bondosas e me tratavam
muito bem. Para no dizer que ia num lugar
onde tinha o nome esprita, referia-me a
ele: A Casa do Caminho, era como chamava. Eles me deram de presente O Evangelho
Segundo o Espiritismo" e passei a l-lo,
gostava muito do captulo: Amai os inimigos
e as oraes pelos obsessores'2.
Foi-me recomendado que perdoasse aquele desencarnado qu me perseguia e lhe
pedisse perdo. Comecei a
falar com ele quando o sentia por perto
- Meu irmo, no sei o que lhe fiz. Deve ter sido uma grande maldade para voc
me odiar assim. Peo-lhe que me perdoe! Se
fui m, no o sou mais. Hoje no fao nem
sou capaz de fazer mal a ningum. Rogo por Deus que me perdoe!  perdoando que
somos perdoados!
11  KARDEc, Alian. OEvangelhoSegundooEspiritismo. So Paulo: Petit Editora
(N.E.).
12  Maria do Carmo se refere ao livro O Evangelho Segundo o Espiritismo,
captulo 12 "Amai os Vossos Inimigos", item 5
"Os inimigos desencarnados". E tambm ao
captulo 28 "Coletnea de Preces Espritas", item 5 "Pelos doentes e
obsediados". Se o leitor quiser saber mais sobre o
assunto, consulte: O Livro dos Espritos
de Allan Kardec. So Paulo: Petit Editora. Captulo 9 "Interveno dos espritos
no mundo corporal" (Nota do Autor Espiritual).

175

Quando mame desencarnou eu estava com quarenta e dois anos e meus irmos me
colocaram num asilo. No achei ruim, pois l
no ficava sozinha, dormamos em quartos
coletivos. Eles me deixavam ir duas vezes por ms na A Casa do Caminho.
Um dia, aquele homem, o obsessor, num sonho, despediu-se de mim, dizendo:
- Vou embora, Maria do Carmo! Adeus! Aproveite os anos que lhe restam na carne e
seja boa!
No tive mais pesadelos. Sentindo-me melhor, passei
a ajudar meus companheiros. Minha famlia me esqueceu,
raramente recebia a visita deles.
Desencarnei com cinqenta e oito anos. Fiquei doente
por meses, cncer nos pulmes, sofri muito, mas tive uma
mudana de plano tranqila.
Mame me esperava, foi um reencontro alegre, adaptei-me facilmente a minha nova
maneira de viver.
Naturalmente, recordei-me de alguns fatos da minha reencarnao anterior. Tive
por amante um homem, aquele que foi meu obsessor,
que era casado e tinha sete filhos.
Ele no me quis mais e me vinguei dele. Consegui enganar seus dois filhos
pequenos que brincavam com um priminho deles.
Levei os trs para um lugar perigoso, numa
cachoeira que ficava perto de onde morvamos. Joguei-os nas pedras. Os trs
desencarnaram. Ningum ficou sabendo do que
fiz, porm meu ex-amante desconfiou.
- Foi voc quem os matou! - acusou-me.

176

Como neguei, ele fez um juramento.
- Se foi voc, eu saberei um dia e a voc me pagar, saberei cobrar at o
ltimo centavo!
Separamo-nos e no o vi mais. Anos depois, sofri
um acidente e fiquei paraltica. Passei a morar sozinha numa casinha simples e
pobre, necessitava de esmolas para me alimentar.
Numa tempestade, um raio caiu em
minha casa, e essa acabou pegando fogo. No podendo
sair, morri queimada.
Sofri muito quando desencarnei, foi um horror defrontar com a realidade, ir para
a espiritualidade com tantos erros cometidos
e sendo homicida. Padeci no umbral
por anos. Fui socorrida quando me arrependi com sinceridade,
e fiz uma promessa a mim mesma de no errar mais. Reencarnei e recebi o nome de
Maria do Carmo e esse que fora meu amante,
o pai de duas das crianas que assassinei,
ao desencarnar soube de toda a verdade, procurou-me,
encontrou-me encarnada e vingou-se obsediando-me.
Vivi no envoltrio fsico atormentada. Quando comeamos, mame e eu, a
freqentar o centro esprita, os trabalhadores desencarnados
de l foram orientando-o e aos
poucos ele foi compreendendo que o dio no  bom, que
deveria perdoar e cuidar da vida dele, pois ele tambm errara, trara a esposa,
havia me iludido e depois me perseguido.
Fiquei livre do seu dio, mas no da reao
de meus erros. Vivi sozinha, sendo incompreendida, sofri muito com medo e por
minha doena, o cncer.
'77

Desencarnei sem perceber, tive uma crise forte e essa foi suavizando, adormeci
tranqila e acordei sentindo-me bem. Como
tinha escutado o pessoal da A Casa do Caminho
falar muito sobre desencarnao, desconfiei que estava na espiritualidade e
quando vi minha me, tive certeza, e foi uma
alegria.
- Mame - disse ao v-la -, o que ser de mim agora?
- Ser feliz, porque merece!
Confiei na minha mezinha e hoje sou feliz, como tambm muito grata por termos a
oportunidade da reencarnao. Desencarnar
tendo como bagagem os erros cometidos
 muito triste, deixa-nos inseguros e com medo. Mas quando voltamos ao plano
espiritual sem erros e com algumas boas aes,
esse retorno  agradvel.
s vezes, perseguies como obsesses, impulsionam
as pessoas a melhorar seu carter. Esse meu ex-amante me
perseguiu, mas no me impediu de progredir.
Quando me senti adaptada tivemos um encontro. Ele se
preparava para reencarnar. Pedi-lhe perdo, perdoamo-nos e
abraamo-nos como amigos.
Fui, quando encarnada, obsediada! E isso foi possvel porque somos donos de
nossos atos. Sentindo-me culpada deixei que
outro me cobrasse. Tudo o que fazemos prejudicando
o nosso prximo nos faz correr o risco deste no nos perdoar e nos perseguir.
Estou estudando muito para poder fazer parte de uma
equipe que ajuda tanto os obsediados quanto os obsessores.
Quero, com carinho, auxili-los, motivando-os a se perdoarem.
178

Hoje, acho engraado o medo que eu tinha dos espritos. Somos todos ns
espritos, esteja esse revestido ou
no do corpo fsico.

    Maria do Carmo

Explicaes de Antonio Carlos

Maria do Carmo tem razo,
so obsediados os que permitem. Sentindo-se culpados e devedores aceitam a
interferncia de outros que lhes
cobram, que querem que sofram o que fizeram
sofrer.
Ambos, obsediado e obsessor, necessitam de tratamento onde o perdo tem de ser
sincero. A reconciliao  necessria.
Nossa convidada recordou-se de duas de suas desencarnaes e pde compar-las:
na anterior, em que fez a mudana de plano
levando consigo muitos erros, fora homicida,
sentira um medo terrvel, e sofrera muito. Nessa ltima, confiou plenamente em
sua me que lhe disse que seria feliz. Mereceu
o socorro e fez sua passagem tranqila.
Maria do Carmo sofreu por medo, por se sentir diferente e por solido. Embora
tenha aceitado essa perseguio, lutou contra
as sugestes desse desencarnado que a
odiava e que dizia: mate-se. Esse obsessor sabia que suicidas padecem muito, e
como queria v-la sofrendo mais, queria que
ela se matasse. Mas se ela
179

 tivesse se suicidado no teria sido como ele queria, pois seria levado em
considerao essa subjugao. Na ltima encarnao,
nossa convidada no fez mal a ningum
e quando teve oportunidade, ajudou os companheiros do asilo. No reclamou de seu
sofrimento, suportou as dores da doena,
o cncer, sem se queixar, e no teve receio
da desencarnao.
Nem todas as obsesses so como a que aconteceu com Maria do Carmo, em que houve
a reconciliao e nenhuma tragdia. Muitos
obsediados trocam dio com os obsessores
e no se perdoam. Infelizmente temos visto muitos obsediados se perturbarem
tanto que at adoecem. E muitos outros fazem
o que os inimigos desencarnados querem,
mais atos errados, aumentando sua colheita de sofrimento. Ou at se suicidam
perdendo a oportunidade do aprendizado no plano
fsico. O perdo  o remdio. O amor
 o preventivo. Quem ama no faz o mal. E a obsesso  o resultado de maldades,
erros e ausncia de amor.

180

captulo dezessete

A Eutansia

A dor era insuportvel! No consigo descrev-la. Era tanta que tive certeza de
que sofrimento no mata. Minha doena era
incurvel, tinha cncer nos ossos, e isso
me fazia padecer, havia me transformado. Antes era bonita e, agora, com muitos
quilos a menos, estava magrssima, sem cabelos
e com expresso de sofrimento. Causava
pena. Ningum reconhecia, naquele leito de hospital, a Emlia de antes.
- Voc quer morrer, Emlia? - perguntou meu marido.
Pensei antes de responder. Sempre gostei de viver; era disposta, alegre, animava
as festas, os bingos de caridades, fazia
reunies que eram famosas e nas quais recebia
amigos. Meus dois filhos eram adultos e me admiravam, tinham orgulho da me
bonita que aparentava ser mais jovem. Amava
meu marido e era amada. Queria viver, sim,
mas como antigamente, antes da doena.
181

Doente, minha maneira de viver mudou, ia somente a mdicos e hospitais. Estava
cansada e respondi com dificuldade a pergunta
do meu esposo:
- Sim!
Ele me beijou, meu irmo me acariciou. Dormi. Que sono estranho, queria acordar
e no conseguia. No sentia mais as dores
fortes, mas os mal-estares e os enjos
permaneceram. O que mais incomodava era no conseguir acordar daquele sono ruim.
Com muito esforo abri os olhos. Estava numa enfermaria, onde no tinha
aparelhos nem soro. Respirei profundamente e isso
me deu um pouco de alvio; dormi de novo.
O sono me causava horror, no queria dormir daquele modo.
E assim foi por um tempo, acordava e dormia at que consegui ficar mais
desperta. Demorei a conseguir falar. Continuava
na enfermaria, porm no recebia mais as
visitas dos meus familiares. Era bem-tratada, sentia poucas dores, tinha enjos
e vomitava uma gosma escura. E ainda tinha
aquele sono estranho.
Fui melhorando e quis saber o que ocorrera comigo.
Por que minha famlia no me visitara? Como e por que
melhorava? Por que estava numa enfermaria?
E as respostas que ouvia me deixavam nervosa; vomitava
mais.
Colocaram-me num veculo e descemos num determinado local. A enfermeira que me
amparava explicou-me:
- Aqui  um local de oraes, um centro esprita. J ouvira falar de curas
realizadas por pessoas, mdiuns
achei que me levaram ali para me curar. Alegrei-me e
e
182

prestei ateno. Gostei das oraes, do carinho dos que estavam ali. Mas, depois
fiquei inquieta. Aproximavam os doentes
dessas pessoas pertencentes ao centro esprita,
eles falavam, elas repetiam e outras pessoas as orientavam.
Quis mais do que nunca acordar daquele terrvel pesadelo, mas sentia estar
acordada.
Chegou minha vez. Com carinho uma mulher me fez
ver a diferena que existia entre meu corpo e o corpo de
quem repetia o que eu dizia. Explicaram-me o que  a morte
do fsico para todos ns, e que eu havia mudado de plano.
Chorei desesperada. Fui consolada.
Voltei para a enfermaria, fiquei aptica e no quis
levantar do leito. Queria ter a vida de antes, estar bem,
junto de minha famlia e amigos.
Novamente fui levada ao centro esprita. Gostei de conversar com eles, que me
animaram; senti-me melhor. No aceitei a mudana
de plano, mas no tinha como reverter
a situao e acabei me conformando.
Quando melhorei, soube que meu irmo e meu marido
pediram para o mdico aplicar-me uma injeo que acabasse
com meu sofrimento. Praticaram a eutansia.
Quando ele me perguntou se queria morrer, respondi que sim. Mas nem desconfiei
que eles fossem fazer isso. Quando estamos
sentindo uma dor forte, insuportvel, queremos
nos livrar dela. E se achamos que a morte nos livrar do sofrimento, a resposta
 "sim", para cessar a dor e no propriamente
morrer.
No queria morrer, nunca desejei. Ainda bem que a morte
no  o fim, o extermnio. No sabia, quando encarnada, o
183

que era a morte, nunca me preocupei em saber. Queria viver,
no queria a doena nem o sofrimento.
O medicamento que me deram me fez dormir, dificultando o desligamento do meu
esprito do corpo fsico morto.
Como ainda tinham alguns dias na matria, onde deveria passar pelo sofrimento, o
desencarne no me deu o alvio
que me daria se eles no tivessem realizado a eutansia.
Fiquei um tempo no hospital de um posto de socorro da espiritualidade, fui me
recuperando aos poucos. Fiquei meses dormindo,
e no quis acreditar que havia feito
a mudana de plano, assim, fui trazida numa sesso de orientao a
desencarnados. Depois, como fiquei aptica, novamente
me levaram a um centro esprita, nas abenoadas
sesses de auxlio, a comecei a me sentir melhor.
-Volte, Emlia, a ser alegre! A vida aqui  maravilhosa!
No quis discordar, no era ruim viver ali, mas gostava de
festas, de viver encarnada. Esforava-me para me acostumar.
Saber de meus familiares foi ao mesmo tempo bom e ruim. Eles estavam bem, meus
filhos haviam se casado, amavam as esposas
e os filhos, e lembravam-se pouco de mim.
Meu marido casou-se de novo e era feliz.
- Voc, Emlia, tem tudo para estar bem, esquea a maneira que viveu quando
encarnada e aprenda a amar a vida
na espiritualidade - aconselhavam-me os novos amigos.
No foi fcil para mim a desencarnao, embora no
tenha ficado vagando nem fui para o umbral. "O agora", a
vida depois que meus rgos cessaram suas funes, foi de
184

difcil aceitao. Primeiro, sofri com aquele sono horrvel, os enjos e mal-
estares. O reflexo do meu corpo doente era
forte em mim, preferia mil vezes ter ficado
no corpo fsico mesmo com dores alucinantes at que findasse o tempo que eu
mesma havia planejado antes de reencarnar.
Segundo, demorei a acostumar com a vida simples e ordeira do plano espiritual.
Gostava mesmo era a vida encarnada. Minha
adaptao foi lenta. Os orientadores me
aconselhavam:
- Emlia, por que voc no estuda? Tente!
As aulas para mim eram chatas, nunca gostei de estudar;
quando garota ia  escola obrigada.
- Leia esses livros!
Mais de um! Acho que nunca lera um inteiro.
- Ento v ao teatro!
Fui, mas as pessoas iam para ver a pea e eu gostava de ir para me exibir.
Passei a fazer tarefas e reclamava:
- Coma e no ache ruim! Se no quer, fique sem comer!
A orientadora pacientemente me orientava:
- Emlia, no fale assim. Algum aqui j se referiu a voc desse modo? Aprenda a
ser educada.
Era educada, s que perdia a pacincia. E mudei de
tarefa. Passei por umas dez.
- No gosto de livros, por que tenho de organiz-los?
- Emlia, por que voc reclama tanto? O que quer fazer?
- Trabalhar com moda - expressei-me.
185

- Aqui no temos esse trabalho.

Fui com uma equipe socorrer alguns desencarnados
no umbral. Detestei. Achei o local sujo, o cheiro de l ficou
em mim, vi somente tristeza.
- Muitos esto aqui porque, no gostando de nada, vm conhecer outra forma de
viver; aqui  um local desconfortvel, e isso
faz com que eles dem valor ao que possuem
- explicou-me um socorrista.
Arregalei os olhos e parei, ou pelo menos me contive, de reclamar. Ficamos dez
dias num posto de ajuda, andando pelo umbral.
No fiz nada, somente fiquei observando.
Senti nojo da sujeira e dos que ali estavam. Mas assimilei a lio. De volta 
colnia onde estava abrigada, fui varrer
os ptios e voltei a estudar. Se sentia vontade
de reclamar, lembrava-me do umbral.
Faz cinco anos que desencarnei, fao outras tarefas, estudei e achei algo que
gosto de fazer: cuidar de crianas. Estudo,
preparando-me para trabalhar no educandrio
com a garotada. Passo horas com outros orientadores e com as crianas, ensinamo-
las a danar, cantar e brincamos com elas
nos ptios. Amo a meninada!
Sei que meus familiares no tiveram a inteno de me
matar, mas sim de me livrar do sofrimento, mas no  certo,
eles no agiram dentro das normas crists.
Eu fui socorrida porque no fui m, no agi errado com ningum e pratiquei
muitas caridades, algumas para aparecer. outras
que ningum ficou sabendo. Mereci ajuda
tambm porque sofri muito com a doena.
186

Leitor, d valor  vida!  muito bom viver tanto a no plano fsico quanto aqui
na espiritualidade, depois que
acostumamos.

Emlia

Esplicaes de Antonio Carlos

Devemos amar a vida como nica em seus estgios, encarnados e desencarnados.
Aceitar o que nos  oferecido no momento, sermos
gratos, tentarmos sempre ser til e
fazer o bem.
Reclamar  um vcio que nos leva ao pessimismo, fazendo-nos ver somente os atos
negativos e esquecer dos positivos.
Emilia foi socorrida, mas continuou a sofrer. Esse sono inquieto  muito
doloroso. Continuou abrigada porque no quis sair,
em momento algum quis voltar para seu
antigo lar.
Foi vaidosa, ftil, mas caridosa e realmente no fez nenhuma maldade. E a doena
a fez sofrer muito. Demorou a se adaptar,
necessitou vir por duas vezes  reunio
de desobsesso em um centro esprita; e como essas reunies de caridade
auxiliam! Emlia iria, com certeza, sem esses esclarecimentos
sofrer muito mais, ficar mais
tempo confusa. Nesses trabalhos de orientao, no somente so esclarecidos os
desencarnados que vagam e que esto no umbral,
mas tambm
187


os que esto nos hospitais do plano espiritual. Eles so convencidos de que
mudaram de plano quando comparam seu corpo e
conversam com os encarnados. Emlia precisou
conhecer o umbral para parar de reclamar.
Nos postos de socorro e nas colnias h muitos abrigados que no gostam do modo
de viver que essas casas oferecem, ou de
realizar tarefas, e reclamam. Necessitando
se educar, s vezes so levados para conhecer outros locais, como o umbral.
Entre os trabalhadores novatos, s vezes h
discusses, discrdias e reclamaes, por
isso eles sempre se fazem acompanhar por um trabalhador experiente que interfere
e os orienta.
Eutansia. Emlia, como nos narrou, antes de reencarnar, havia planejado a
doena e o tempo que ficaria enferma. Ela poderia
ter amenizado o sofrimento se quando
encarnada tivesse se dedicado mais ao trabalho no bem. Ao abreviar seu tempo,
continuou sofrendo, desencarnada.
Nada na espiritualidade  regra geral. Aqui temos a histria dela. Mas no 
certo a prtica da eutansia. Emlia me indagou:
 Meu irmo e esposo erraram ao decidir pela eutansia?
 Sim, erraram, no agiram corretamente. No tiveram a inteno de matar. E a
inteno pesa muito nos erros que so cometidos.
Voc continuou sofrendo, no aliviaram
seu padecimento.
188

Se Emlia tivesse a inteno realmente de se suicidar, iria, com certeza, sofrer
mais. Ao responder sim, foi como ela disse,
queria parar de sofrer.
Existe a eutansia praticada de muitas formas. Muitos pacientes nem sabem nem
opinam. Normalmente esses so desligados com
certa dificuldade, fato que no ocorreria
se fosse pelo desencarne natural, O socorro est no merecimento deles.
Emlia me perguntou de novo:
 Se no se aplicar nenhuma medicao que leve  desencarnao, se no se der o
socorro ou algum remdio que anime o paciente,
isso seria considerado eutansia?
 Deve ser feito de tudo para o indivduo ficar no corpo fsico. Na minha
opinio, suprimir a medicao que permite ao paciente
continuar encarnado no  eutansia,
j que o termo significa: morte sem sofrimento, abreviar sem dor a vida de um
doente
reconhecidamente incurvel.
 muito forte o termo matar. Se dermos algo a algum que leve  morte do fsico,
isso  matar.
Existe a eutansia realizada de forma consciente. Os doentes pedem para morrer
aps pensarem e se acharem certos de que
 isso que querem. Suicdio? Quando se quer
morrer, deixar o corpo fsico, mat-lo ou pedir para outros fazerem, isso 
suicdio. Mas nesses casos h atenuantes. So
levados em considerao pelo plano espiritual
os motivos. Se o indivduo 
189

religioso no pensar nisso, se cr na continuao da vida abominar essa idia,
e se entende a lei justa e misericordiosa
da reencarnao compreender a razo do
seu sofrimento e no vai querer abrevi-la, deserdando-se do estgio fsico.
Eutansia no alivia o sofrimento de ningum. Se o desencarnado no opinou, ele
no  responsvel, se o fez, sua inteno
 realmente analisada. Aqueles que cometeram
ou cometem a eutansia, respondero por esses atos.
A vida  bno!
E o sofrimento, quando estamos encarnados, , s vezes, mais fcil de suportar
do que quando estamos desencarnados.
No  eutansia!
190

captulo dezoito

Deus lhe pague e Obrigado

- Obrigada, dona Mariquinha!
Deus lhe pague!
Saram duas mes com seus filhos de minha casa e
meu marido sorriu dizendo:
Mariquinha, voc sabe quantos agradecimentos j recebeu em sua vida?

No sei, no benzo crianas por isso  respondi.
Uma amiga que estava em casa, opinou:
 Se esses agradecimentos enchessem barriga, voc estaria redonda de to gorda.
 Gratido fortalece a alma  respondi sorrindo.
 J faz quarenta anos que Mariquinha benze crianas de quebranto, susto e tantas
outras coisas. Somente deixou de participar
da assistncia social da parquia porque
adoeceu. Ela ia todas as tardes fazer a sopa para ser distribuda aos pobres, e
hoje ainda faz croch para o bazar da igreja
 disse meu esposo.
191

 O senhor tem orgulho dela, no ?  perguntou minha amiga.
 Tenho! J sabia que Mariquinha benzia a garotada quando comeamos a namorar.
Quando a conheci, encantei-me com seus lindos
olhos azuis. Agora entendo que no foi
somente pela cor deles, mas sim pela bondade e meiguice que eles transmitem.
Minha mulher  um anjo!
 Dona Mariquinha, que sorte a senhora tem, tantos anos de casada e o marido
ainda est apaixonado!  expressou-se minha amiga.
 Como consegue fazer tantas coisas?
 Tenho tentado  expliquei  fazer tudo do melhor modo possvel.  s repartirmos
bem nosso horrio, organizarmo-nos para
fazer tudo o que queremos. Minha av me
ensinou a benzer crianas e vou fazer at quando Deus quiser!
A amiga foi embora e fiquei pensando na minha vida, tive realmente de me
organizar para dar conta de tudo o que tinha para
fazer. Tive cinco filhos e mais dois adotivos,
que j estavam casados, e conosco morava uma neta, rebento da minha filha mais
velha que estava na sua segunda unio. Essa
neta era do seu primeiro casamento e era
nossa alegria.
Ultimamente eu no estava bem de sade, tomava
muitos remdios e tinha dores pelo corpo.
Lembrei-me de uma vizinha que tinha falecido havia trs anos e que devia, com
certeza, estar no cu, pois ela mesma se achava
merecedora. Ela ia freqentemente 
igreja e dizia ser muito religiosa. Essa senhora costumava me criticar.
O que faz Mariquinha no  certo! No se deve benzer
crianas. As mes deveriam lev-las  igreja para o padre
192
abeno-las. Ou: No foi  missa porque ficou tomando conta de dona Adelaide! 
Pecado! Primeiro Deus, depois os outros!.
Ela me criticava tanto que encuquei e fui falar com o padre, e dele escutei:
Tudo isso, essas bnos no servem para nada.
Se houver melhora  porque iam melhorar
mesmo. Benzimentos so crendices, supersties, nada valem.
Chorei muito e foi meu marido que me consolou.
Mariquinha, Jesus benzia as pessoas. Ele estendia as mos sobre os enfermos e
orava. O Mestre Nazareno disse que todos
poderiam fazer isso, que bastava crer e querer
fazer o bem. O padre estudou muito e esqueceu das coisas simples. No d ateno
a essa vizinha. Ela  orgulhosa como pavo.
Continue a fazer o bem.
E continuei.
Palmas no porto me fizeram parar de pensar. Outras
crianas para benzer.
Fui dormir no horrio costumeiro e acordei num local
diferente. Uma moa, enfermeira, toda sorridente aproximou-se de mim.
 Bom dia, dona Mariquinha! Quer um suquinho? Est delicioso.
 Bom dia!  respondi.
Ela colocou uma bandeja na minha frente, ajudou-me a acomodar-me deu o suco. A
moa
falava sem parar:
que o dia estava lindo, as flores perfumadas etc. Depois de ter pela terceira
vez indagado se necessitava de alguma coisa,
ao que eu respondi que no queria mais
nada, ela se afastou.
193
Fiquei sozinha pensando o que poderia ter me acontecido. Um senhor com aparncia
de mdico entrou no quarto, cumprimentou-me
e indagou gentilmente:
 Est precisando de alguma coisa, dona Mariquinha?
 O senhor  mdico?  perguntei em vez de responder.
Ele sorriu e afirmou com a cabea.
 Estou estranhando!  exclamei.  Por que estou aqui? Fiquei doente de novo? Esse
ano  a terceira vez que me internam. Que
hospital  esse? Estou sendo bem atendida
e at agora no tomei injees. Tive alguma crise? E...
  melhor fazer uma pergunta de cada vez  respondeu ele rindo.  A senhora est
se recuperando e no necessita de injees.
Dona Mariquinha, o que a senhora acha
que acontece com as pessoas que falecem?
z So julgadas por Deus  respondi.
 Isso se d em algum lugar? Onde? Ser que Deus est somente nesse local ou em
toda parte e dentro de ns? Se Ele est dentro
de ns e em todos os lugares no necessitamos
ir para um lugar particular para sermos julgados. Julgar? Acredita mesmo que
Deus premia ou castiga? O Pai Celeste  amor!
E se por acaso existir esse julgamento,
o que ser dos julgados depois? Sofrimento sem piedade para os que agem
erroneamente, ou descanso para os bons?


O mdico saiu e fiquei pensando no que ele dissera. Por que ele me falara tudo
aquilo? Pareceu-me ser uma pessoa
sria, tinha o olhar vivo e inteligente.
194

Realmente, era incoerente achar que Deus estaria num local em que s os mortos O
vissem. Esse julgamento tambm me pareceu
improvvel, como tambm o descanso eterno
que deveria ser uma chatice.
O mdico entrou no quarto novamente e chamei-o com um aceno de mo. Ele se
aproximou e sentou-se numa
cadeira ao lado do meu leito.
rtrite, meus dedos das mos estavam tortos e agora no esto mais. No sinto
falta de ar nem tonteira.
Aqui  muito sossegado para ser um hospital comum, e estou num quarto sozinha,
luxo que no poderia pagar. E o senhor me
disse umas coisas estranhas. Por isso eu
lhe peo, diga-me a verdade.
Em vez de falar, ele me olhou, seu olhar era tranqilo
e bondoso. Recordei-me:
De madrugada acordei com muita falta de ar e dores.
Meu esposo acendeu a luz, levantou minha cabea e parei
de respirar.
A viso desapareceu e me vi no quarto do hospital. Aquele bondoso mdico segurou
minha mo. Pensei de novo e assustei-me
com a minha viso. Vi meus familiares correndo,
o mdico conhecido dizer que morri, depois o velrio com muita gente, flores e o
enterro.
Vi-me novamente no quarto, olhei para esse senhor,
apertei sua mo, fiquei triste e chorei baixinho. Tive medo.
 Por que teme?  indagou ele.
 Morri! E agora?

195

 Continuar a fazer o bem aqui, na espiritualidade.
Explicou-me que desencarnara, estava abrigada numa
colnia e que a vida continuava. Conforme ele me esclarecia
meu medo foi passando
Recuperei-me logo e adaptei-me facilmente ao plano espiritual. Sa do hospital e
fui recebida com alegria por companheiros
numa linda casinha, onde passei a residir.
Fui aprender a viver sem o envoltrio fsico.
Em pouco tempo estava apta a servir. Alegrei-me, fui fazer minha primeira
tarefa: ajudar, numa enfermaria do hospital, os
desencarnados ali abrigados que ainda sentiam
os reflexos do corpo fsico. Admirada, ali encontrei, necessitando de auxlio, a
vizinha que me criticava.
 Mariquinha!  exclamou ela assustada.  Voc aqui!
trabalhando? Tem condies de ajudar? Quando voc
Est
morreu?
 Desencarnei h pouco tempo  respondi.  Como estava bem, foi me dada a
oportunidade de servir. E voc,
por que est aqui?
 Mariquinha, tenho pensado muito em voc. Vivemos l na Terra de modo diferente.
Eu no perdia uma missa, orava, cultuava
um Deus humano, com atos externos e fceis.
Agora compreendo que Deus  supremo, e quer que O amemos, que oremos, mas que
faamos o bem ao prximo. Ainda bem que voc
no me deu ateno e continuou fazendo
o bem. Voc, Mariquinha, amou muito mais a Deus do que eu! Desencarnei pensando
que seria recebida no cu, julgada com pompa
e decepcionei-me muito. Para mim,
196

bastava ser religiosa e orgulhei-me disso. Dei mais valor
aos atos externos.
Chorou muito, e eu a consolei:
 Logo voc estar bem, confie!
Continuei fazendo meu trabalho, no final a orientadora me cumprimentou,
motivando-me:
Mariquinha, voc ser uma tarefeira excelente! Mas,
o que a preocupa?
Contei-lhe do encontro com minha ex-vizinha, e ela
me explicou:
Ver muitos casos aqui na espiritualidade assim, como de sua ex-vizinha. Pessoas
que praticam atos externos, apenas para
manter aparncias, e julgam-se merecedoras
de um cu de ociosidade. No so errados os atos externos, desde que eles sejam
realizados com sentimento. A orao nos
liga s energias benficas, mas so nossas
boas aes que nos levam  fonte dessas energias. Voc, Mariquinha, fez muito
bem. Sabe quantos Deus lhe pague e obrigados
com sinceridade voc recebeu no perodo
em que esteve encarnada?
A orientadora sorriu e, depois de alguns segundos,
concluiu:
 Pois foram muitos!  fazendo o bem que nos preparamos para nos tornarmos bons.
Muitas pessoas fazem o bem com algum objetivo,
mas, com o treino, passam a fazer
porque querem, amam e fazem-no ento espontaneamente. A gratido que recebemos 
uma
bno Que recebemos. aprende a amar; quem recebe gratido ama, e esse possui um
bem de
incalculvel valor.
197

Ao voltar para nossa casinha  agora meu lar  fiquei pensando. Estava feliz
encarnada, mas a desencarnao para mim foi fcil
e continuei feliz. Tive a certeza
de que o bem que fiz a outros, para mim o fiz. E os Obrigados e Deus lhe pague
so tesouros que me acompanham.
Pude ver meus familiares em visitas peridicas; continuam a viver com problemas
e alegrias. Sou sempre lembrada com carinho,
pois deixei aos meus entes queridos
um bom exemplo de vida e isso foi a melhor coisa que fiz a eles que tanto amo.
Depois de dois anos de tarefas diversas e estudos, fu
trabalhar no educandrio local onde so abrigados os que
desencarnaram em tenra idade.
Cuido com muito carinho das crianas que sempre amei.
Minha desencarnao foi prazerosa!

Maria do Rosrio

Explicaes de Antonio Carlos

Como seria bom se todos tivessem uma mudana de plano como essa nossa convidada.
A morte no nos causaria mais medo. Que
bom saber que existe desencarnao assim.
 to fcil ser merecedor dessa ddiva.  s fazer o bem, ser bom, amar de forma
simples, verdadeira e sincera a ns mesmos
e ao prximo.
13  Se o leitor quiser saber mais sobre educandrios leia o livro: Flores de
Maria,
do Esprito Rosngela. So Paulo: Petit Editora (N.A.E.).
198

Mariquinha benzia crianas, usava frmlas, repetia trs vezes determinadas
frases e orava. Semelhantes aos passes que os
espritas aplicam, nesses atos trocam-se
fluidos negativos por outros positivos. Quando queremos fazer o bem, basta a
vontade, mas se ainda no sabemos faz-lo sem
frmulas, no tem por que no us-las.
Um dito antigo: A caravana passa e os ces ladram. Mariquinha caminhou com a
caravana. A vizinha que a criticava nos pareceu
como o co que latiu e no caminhou.
Quem presta muita ateno no que os outros fazem, normalmente no tem tempo para
fazer algo de til nem caminhar. Tambm
essa nossa convidada no parou para receber
flores de elogios. Sejamos como os que caminham na caravana, no parando para
nenhuma crtica.

199

captulo dezenove

Depois de muito tempo endaguei: "E agora?"

Vivi encarnado de modo muito errado. Cometi muitos atos ruins. Mas tambm fiz
coisas boas.  difcil uma pessoa ser somente m,
como so raros os que so totalmente bons.
Mas as aes ms pesam muito mais.
Numa briga de gangues rivais, fui assassinado. Foram dois tiros no peito. Ca.
Perdi a conscincia somente por minutos.
Tonteei e, o nada. Fui voltando do que pensei
ser um desmaio, e escutei gritos, xingamentos, percebi que ainda havia luta.
Silncio. Pararam os tiros. Percebi que um
dos meus companheiros aproximou-se de mim
e falou:
 Vamos embora! A polcia no tarda a vir. Z, voc tem certeza que Janu morreu?
Senti dois deles agacharem-se ao meu lado, olharam
meus ferimentos. Z colocou a mo na frente do meu nariz.
200

 Est morto! Malditos! Eles vo pagar!
Mais blasfmias. Saram.
Senti muito dio, um sentimento to forte que me fez levantar. Sa em
perisprito4, deixando o corpo fsico morto no cho.
Sentia-me ferido, e do meu ferimento
saa muito sangue. Ouvi risadas. Vi outras pessoas que no conhecia, julguei
serem do outro bando. Um deles falou rindo:
 Voc est mortinho, boneca!
Fraco, tonto e confuso, ainda assim avancei nele e
apertei-lhe o pescoo.
 Ei, calma! O chefe nos mandou busc-lo!
Novo desmaio, mas antes ouvi as sirenes da polcia.
Acordei num quarto pequeno e na penumbra. Olhei tudo, havia somente a cama, onde
estava deitado, e uma mesinha. As paredes
e a roupa de cama eram de cor cinza. No
alto, uma minscula janela, achei que era de noite porque por ela entrava pouca
claridade. Olhei para meu peito, l estavam
os dois furos sangrando, sem curativos
e doloridos.
 Oi Janu! Voc est bem instalado?
Observei a visita, no o conhecia, temi estar prisioneiro,
ia responder com xingamentos, mas aquele homem alto,
magro e bem vestido, no me deu tempo e falou:
Voc no est numa priso, mas sim num bom quarto descansando. Vou ajud-lo a se
lembrar. Trocaram tiros, foi
14  Perisprito: substncia vaporosa semimaterial, que serve de envoltrio ao
esprito e liga a alma ao corpo. Nos encarnados,
 o intermedirio entre o esprito
e a matria. Nos espritos libertos do corpo fsico, constitui o seu corpo
fludico N.E..
201

atingido e seu corpo morreu. Sobrevivemos a essa tragdia. Est conosco, com
muitos desses sobreviventes, ou seja, desencarnado
numa cidade do Alm. Logo aprender
a viver aqui.
 Voc  o chefe?  indaguei-.
 Sou chefe de muitos aqui, mas temos um comandante geral, um sujeito que 
maneiro com os fiis, camarada
com o bando. Vai gostar.
 No vou sarar dos ferimentos?
 Voc j viu algum se curar num estalo? No! Ento pacincia. Fique aqui
deitado, duas escravas o serviro. Quer
alguma coisa?
 Acabar com o bando rival! Sinto dio deles!
 timo! dio nos sustenta! Ter tempo para prejudicar seus inimigos!
Duas mulheres me deram tudo o que queria. Os ferimentos doam muito. Depois de
doze dias, aquele homem
que veio me ver, voltou novamente.
Ven comigo, Janu, vou lev-lo  presena do nosso
chefe.
Ajudou-me a levantar e me colocou numa cadeira de rodas. Observei tudo curioso.
Samos da casa e vi uma rua estranha. Muitas
pessoas andavam por ali, achei-as esquisitas.
Entramos num prdio luxuoso. Admirei-o, achando muito lindo, era do meu gosto,
exagerado, com cores fortes e muita ostentao.
Aqui  a sala de audincia  explicou meu acom panhante.
Ficamos numa fila. Um homem muito bem vestido,
cala e camisa combinando, estava sentado numa poltrona
202

confortvel e atendia as pessoas. Chegou a minha vez.
Ele me observou e indagou:
 Esto lhe tratando bem?
 Sim, mas ainda sinto muitas dores nos ferimentos.
 Isso  simples de resolver. Pense que quer ficar bom.
Colocou as mos sobre meus ferimentos e os fechou. Levantei no sentindo mais
dores. Meu companheiro sorriu
e falou baixinho ao meu ouvido:
Ajoelha e agradea ao nosso, chefe!
 Obrigado, senhor!  falei ajoelhado.
 Agora que est bom  disse ele , far parte da equipe que me serve.
K mostrar tudo a voc, depois que estiver
apto, ir nos servir. Pode ir. O prximo!
Tive vontade de fazer algumas perguntas para entender o que me acontecia. O
homem que me levou ali, que agora sabia chamar-se
K, puxou-me. Samos da sala de audincia.
Indaguei-o:
 Onde estou? Quem  esse chefe? O que irei fazer?
 Voc est numa cidade organizada pelos que esto fora da lei, no das leis dos
homens, mas do Outro, de Deus. Aqui estamos
bem instalados num local que se chama
umbral, para no dizer inferno. Nosso chefe  um safado, vingador e de muitos
conhecimentos. Vou lhe mostrar tudo, e aos
poucos ir aprender o que deve ser feito.
Voc, quando encarnado, j estava acostumado a viver com privaes, em barracos,
entre bagunas, malandragens e bandidos,
no dever estranhar.
 Ele me curou!  exclamei.
203

 Poderia ter feito isso assim que voc chegou  esclareceu K.  Mas preferiu
deix-lo sofrer um pouco como primeira lio.
Tm conhecimentos aqueles que trabalham
e estudam. Muitos acham que somente os bons sabem das coisas. Ns aqui sabemos,
s que  mais difcil de se aprender. Gostamos
mais de vadiar, farrear e no se encontra
fcil quem ensina, Aqui reina o egosmo. Adiiro nosso governador, o chefo, ele
 poderoso e no gosta que o desobedeam.
Estava acostumado a obedecer. Havia tido muitos chefes. Prestei muita ateno no
que via para aprender. Ali muitos sofriam,
poucos mandavam e a minoria se divertia.
Indaguei K:
 Por que uns sofrem aqui e outros no?
 No se pode dizer que ningum sofre nesse lugar. Acho que o mais certo  dizer
que uns vivem melhor, outros pior. Voc
e eu somos ruins e os que mandam aqui, no
umbral, admiram os que so maldosos e que ainda no se arrependeram, pois pelo
que sei, o remorso vem, para uns mais cedo,
para outros mais tarde. Eles, os chefes,
necessitam de gente assim como ns, para servi-los. Protegem-nos, porm exigem
que trabalhemos com fidelidade para eles
e para a comunidade.
 E por que alguns so maltratados?
 Esses tambm no foram bonzinhos  K me explicou.
 Porque se fossem estariam em outros lugares.  merecido
o castigo que lhes damos. Alguns no servem para fazer
parte da equipe. No gostam de obedecer e muitos so
hipcritas demais. No se pode confiar. Outros esto sofrendo aqui, porque temos
muitas queixas deles. Aqui tambm
204
fazemos justia. Tiraram dos pobres ou podendo, no praticaram a caridade.
 Justia?!  exclamei espantado.
 Por que no? Se achamos que a pessoa necessita sofrer, fazemos com que sofra.
 No existe Deus para isso?  perguntei.
K riu, depois me esclareceu:
 Na lei das pessoas boas  um ajudando o outro. Aqui  o contrrio, castigamos.
Mas, no se preocupe nem tenha d. Se no
merecessem, no estariam aqui e no conseguiramos
maltrat-los. Com o tempo voc ver que muitos ao se arrependerem, com
sinceridade, e querendo melhorar, so levados pelos
bons que entram em nossa cidade. No entanto,
sofrem porque merecem.
Adaptei-me facilmente. Fazia o meu trabalho da melhor
maneira possvel. Continuei cometendo maldades a outros
desencarnados e encarnados.
Um dia, nosso chefe sumiu, houve muitos comentrios:
que no fora cauteloso e os desencarnados bons o pegaram, ou fora preso pelos
grupos rivais. Falavam at que ele desistira
de sua posio porque se cansara. Outro
passou a ser o chefe. Estvamos sempre brigando entre ns mesmos ou com outros,
tinha de estar o tempo todo alerta e nunca
confiava em ningum.
Recebemos em nossa cidade um folheto de outra localidade do umbral, dizendo que
precisavam de desencarnados que gostavam
e tinham talento para escrever. Interessei-me.
Desde que chegara ali, no escrevera mais. Mas, quando garoto, na escola, fazia
boas redaes, gostava de escrever
205
cartas e textos. Resolvi ir e me informar direito o que eles queriam. Gostei do
lugar e de todos. Desejei fazer parte desse
grupo e pedi para meu chefe, que autorizou.
O que mais gostei foi que ali, naquela pequena cidade, no fiquei sob domnio de
ningum. ramos autnomos, denominvamo-nos
camaradas, no tinha de obedecer a tantas
ordens.
Passei na prova de redao, fui aceito e comecei a estudar. O objetivo era
instruir encarnados ou usar da mediunidade deles
para narrar o que a organizao queria.
Depois de meses estudando juntos, fomos didos
em trs grupos que se especializariam nas atividades d bando.
Na primeira turma ficaram os que iriam instruir ou usar
da mediunidade para incentivar a vingana, dio, brigas e
endeusar o sexo.
O segundo grupo se especializaria em desanimar e levar descrena aos que
poderiam vir a ser e os que estavam
sendo teis.
Passei a fazer parte do terceiro. Nosso aprendizado era mais sutil, iramos
enganar, iludir para tentar levar diviso e
confuso dentro da Doutrina Esprita que
era um campo frtil a eles por ter muitos mdiuns.
Para fazer isso, tivemos de ler muitos livros espritas. Compreendi o porqu de
os moradores do umbral quererem combater
o espiritismo. Os livros narravam o que
acontecia com as pessoas que tiveram o corpo fsico morto. Era desagradvel ler
tantas coisas sobre Jesus e sobre o Evangelho.
Mas o estudo era srio, tnhamos de
faz-lo.
206
 Vocs tm de saber o que eles sabem. Somente se engana com perfeio dominando
o assunto  dizia nosso
orientador que no gostava que o chamssemos de chefe.
Alguns dos que estudavam conosco sumiram no decorrer do curso.
  o perigo que corremos  esclareceu o orientador.  Por mais que escolhemos
nossos trabalhadores, h desertores. Quero pessoas
capazes de enganar, odiar e camuflar
esse dio. Quero os fingidos!
Terminamos o curso com a turma bem menor. Mas os
que concluram estavam treinados, com conhecimentos e
vontade de atingir os objetivos.
Nosso orientador no forava ningum e no se importava com os que deserdavam.
 O trabalho  bem-feito quando se faz espontaneamente  dizia ele.
Passamos a observar encarnados que seriam, ou que
queramos que fossem, nossos instrumentos.
 Agora vocs escolhem por quem querem se passar. Leiam com ateno tudo o que
essa pessoa escreveu, imitem seu estilo, vo
para perto dos mdiuns psicgrafos e
boa sorte!  recomendou nosso orientador.
Todos ns escolhemos nomes importantes e conhecidos. Para enganar melhor,
modificvamos at nossos perispritos. No tem
graa nem como imitar desconhecidos. Nosso
grupo adquiriu a forma de pessoas respeitadas e l fomos ns colocar em prtica
o que aprendemos. Fomos enganar.
Fui todo entusiasmado. Na primeira tentativa me dei
mal. Aproximei-me de um jovem que comeava a treinar a
207
psicografia. Ditei a ele uma mensagem bonita, propondo um trabalho dirio para
escrevermos um livro. Ele duvidou ser o esprito
que assinei. O moo deu a mensagem
para o pai, que era um esprita estudioso e cauteloso, analisar. Descobriram a
fraude e fui repelido. Conforme soube depois,
o mentor dele permitiu que eu me aproximasse
desse encarnado e ficou feliz com a prudncia de seu pupilo. Aquele jovem no
seria enganado.
Na segunda tentativa, fui melhor. Aproximei-me de uma mdium, fiquei meses
observando-a; ela freqentava um centro esprita
onde pouco se estudava e achavam que
dificilmente seriam enganados. Quando escrevi por intermdio dela e assinei um
nome conhecido e respeitado, ela se empolgou,
sentiu-se importante, j se via dando
autgrafos e todos a respeitando. Mas era uma pessoa preguiosa, queria tudo
pronto, no tinha tempo para se
dedicar ao trabalho de psicografia e dava muitas desculpas.
Desisti no tive pacincia de enganar essa mdium.
Alguns da minha turma estavam se dando bem, outros no. Muitos encarnados no se
deixavam enganar, por no serem vaidosos,
por analisar e indagar o porqu de um
esprito conhecido escrever por ele. Como tambm davam esses escritos para
pessoas que entendiam de literatura, principalmente
esprita, analisarem. Outros foram
enganados para a alegria do nosso orientador, que sabia que esse trabalho daria
frutos de separao e discrdia.
Achei interessante visitar uma pessoa que j trabalhava
com a psicografia, pelo menos essa no era preguiosa.
208
Aproximei-me, fui tratado com educao, mas no deu para enganar. Ela orava
demais, era uma chatice ficar perto dela, suas
preces me incomodavam muito.
Vendo que ia fazer um livro com muitos convidados, pedi para escrever. Queria
contar aos encarnados que a desencarnao
de pessoas ms pode ser prazerosa e que viver
fazendo o mal tinha vantagens.
A mdium me respondeu que quem coordenava seu trabalho era seu mentor
desencarnado. Que se quisesse escrever, deveria falar
com ele. Ao desejar comunicar-me com
ele, vi-o, estava ali o tempo todo. Fiquei nervoso, mas disfarcei, esse esprito
aproximou-se de mim e apresentou-se:
Chamo Antnio Carlos! Que Jesus esteja com voc, Janurio. Poder escrever, ou
seja, ditar sua histria, desde que assine
seu nome. Mas, como todos os convidados,
voc ter de fazer um breve estudo em uma de nossas colnias.
Ele sabia o meu nome e com certeza sabia muito mais sobre mim. Fiquei de pensar.
E passei dias rodeando a mdium. Ela no
teve medo, acho que nem se importou. Fiquei
curioso para saber como era esse estudo e como seria a colnia deles. Aceitei.
Antnio Carlos me levou  Colnia A Casa do Escritor5,
onde, segundo ele, desencarnados que queriam escrever por
mdiuns vinham aprender.
Olhei tudo curioso, mas disfarcei fingindo no estar interessado. Achei-a
simples, porm encantadora. Impressionei-me
15  Caso o leitor amigo queira saber mais sobre essas colnias de estudo, leia
o
livro: A Casa do Escritor, escrito por Patrcia. So Paulo: Petit Editora
(N.A.E.).
209
com a fraternidade que ali existia e com a forma carinhosa que se tratavam.
Antnio Carlos me deixou numa sala com doze alunos. Todos me cumprimentaram,
ningum me indagou nada e o primeiro encontro
transcorreu normalmente. Estava resolvido
a engan-los. O assunto estava interessante, prestei ateno e participei.
Quando a aula terminou, ao sair da sala, encontrei
com Antnio Carlos, que estava me esperando
e me trouxe de volta. Compreendi que no conseguiria ir a essa colnia sozinho,
no a acharia, isso me chateou.
Antnio Carlos todos os dias me esperava num local, levava-me  colnia e me
trazia de volta. Nas primeiras aulas, tudo
bem, deu para fingir. Mas percebi que j
no estava fingindo, estava gostando.
Seriam dez lies. Na stima, pedi a Antnio Carlos:
 Vamos sentar aqui um pouco?
Sentamos num banco do jardim da colnia, ele ficou quieto. Comecei a chorar,
nunca havia chorado daquele to sentido e dolorido.
Sofria. Ele esperou que chorasse,
o que fiz por minutos, depois me olhou com carinho. Foi eto que temi e
indaguei-o apreensivo:
 E agora?
 Caminhe! Mude o rumo de sua vida  respondeu ele bondosamente.
 Fiz muito mal. Como ser minha colheita?
 Quando nos preparamos para a colheita, sabemos que ir ser trabalhosa, O
trabalho no bem facilita.
 Terei muito o que fazer!  exclamei em tom de queixa.
210

Chorei de novo.
 Janurio  disse Antnio Carlos carinhoso , se voc tem de caminhar duzentos
quilmetros e ficar sentado chorando, pensando
no tanto que andar, ter sempre esses
quilmetros pela frente. Mas se der passo por passo, um dia ter percorrido toda
a quilometragem. E voc j andou alguns
metros.
Compreendi. Pedi abrigo, ajuda aos orientadores do
curso. Aconselharam-me a terminar o estudo e vir, como havia
prometido, escrever minha histria ou parte dela.
Antnio Carlos, meu novo e sincero amigo, levou-me a uma outra colnia, onde
existe uma escola especial para desencarnados
que foram imprudentes a ponto de serem
tachados por eles mesmos de trevosos. Ali eram educados, recebendo a orientao
de que necessitavam. Gostei demais do que
vi, de todos, e quis com sinceridade freqent-la.
Escrevo hoje, no dia em que se comemora um feriado na cidade que a mdium mora,
a Nossa Senhora, Maria, me de Jesus. Orei
muito para ela me dar foras e conseguir
mudar minha forma de pensar e de viver. Sei que terei de me esforar para me
modificar.
E foi depois de muito tempo de desencarnado que,
angustiado e temeroso, indaguei: E agora, que fao?.
Ainda bem que recebi ajuda. Entendo que ningum 
perfeito e que o importante  cobrarmos de ns mesmos o
que podemos fazer, e no observar o que o prximo faz.
Quando me aproximei pela primeira vez da mdium,
queria escrever uma coisa, acabei escrevendo outra, pois
211
Vera Lcia Marinzeck de Carvalho  Antnio Carlos
compreendi que no estava bem como julgava. Ningum  feliz no se sentindo bem
com as Leis Divinas, afastado de Deus.
No queria continuar fazendo o mal, e decidi parar com a plantao da maldade e
me preparar para a colheita. Quero e desejo
fazer essa colheita com trabalho. Agradeo
a oportunidade que estou tendo. Fiz muito mais mal a mim mesmo do que aos
outros.

    Janurio

Explicaes de Antonio Carlos

Janurio teve uma desencarnao violenta, sentia dio do inimigo e lutava com
rancor. Esse sentimento forte, o dio, fez
num impulso, seu esprito sair do corpo
fsico morto. Desencarnados que vibravam igual a ele, desligaram-no levando-o
para uma cidade do umbral. Se ele no tivesse
se enturmado e ficado submisso, teria
sido preso ou se tornado um escravo.
A desencarnao para Janurio, de imediato, no mudou muito sua forma de viver e
agir.
No umbral, os chefes que l moram, costumam agir de forma que seus companheiros
sofram, para depois
ajud-los. Isso tudo para que tenham medo e sejam obedientes.
Muitos livros espritas tm descrito as cidades do plano espiritual. Bonitas e
agradveis so as moradas

212

dos bons espritos ou daqueles que querem melhorar. Confusas, barulhentas e no
to bonitas so as moradas dos que preferem
trilhar o caminho da maldade. L tambm
vivem os imprudentes, que so maltratados, normalmente os que fizeram vtimas e
essas no lhes perdoaram.
Os que se denominam moradores, fingem estarem bem e so alegres. H os que
mandam, e a maioria tem de obedecer s leis,
que normalmente so cruis.
Nessas cidades vemos muitas coisas estranhas, que no diferem muito de certos
lugares da Terra, onde encarnados vo para
usufruir paixes e vcios. Ns os vemos
vestidos de muitos modos. H os que se vestem acompanhando a moda dos
encarnados.
Janurio, na primeira vez que veio nos visitar, estava todo de branco, talvez
por tentar se passar por outra pessoa. Depois
veio vestido de preto. Acabou por ltimo
vestindo-se de roupas claras e simples.
Somente alguns se vestem de forma muito estranha e os motivos so quase sempre
tentar assustar ou amedrontar quem os v.

Janurio viveu muitos anos no umbral. Pedi a ele que no escrevesse o que fez.
Errou muito.
Convidei-o a fazer o curso. Queria que ele conhecesse outra forma de estudar a
literatura e que conhecesse desencarnados
bons.
Deu resultado. Todos, professores e alunos, sabiam o porqu de ele estar ali e
ajudaram-no.
213
Somente se indagou: E agora?, quando teve conscincia de seus erros. Ele
soube, pelo estudo na Colnia A Casa do Escritor,
que nossos atos nos pertencem. Somos
donos absolutos do que fazemos. Ficar inerte e chorar pelo que se fez de errado
no resolve, necessita-se caminhar e ser
til.  o que ele vai tentar fazer. Em muitas
colnias existem escolas que orientam desencarnados que muito erraram. L, eles
estudam por um tempo. Depois de conclurem
o curso, h vrias opes:
continuar a estudar em outras colnias, reencarnar, ou servir em muitos locais.
Desde que esse desencarnado, que se denomina orientador, fundou no umbral uma
escola para literatos, ns da Colnia A Casa
do Escritor sabemos e os temos acompanhado
de perto. Temos nosso livre-arbtrio, eles tambm.
Esse orientador, esprito talentoso na arte literria, sente muito dio por tudo
o que melhora o indivduo e principalmente
pela Doutrina Esprita. Acha ele, como
muitos outros perseguidores, que no adianta combater os bons. Segundo eles,
quanto mais as pessoas sofrem presses, mais
se fortalecem. Acham, ento, que devem
incentivar indivduos sem preparo, mdiuns vaidosos, a escreverem para que faam
livros sem treino, estudo e preparo. Pensam
que se criticarem, gerando discrdia
e rancor, criaro desunio, e tudo o que se separa, divide, enfraquece-se e
acaba.
Vou dar um exemplo referindo-me a mim. Eu, Antnio Carlos, era desconhecido no
meio esprita, atualmente

214

algumas pessoas sabem quem sou pelos livros que escrevo.
Vera Lcia, a mdium e eu, temos uma histria de vivncia juntos, onde erramos,
e agora queremos reparar esses erros. Organizamo-nos
para fazer um trabalho. Temos
um motivo forte para termos treinado juntos durante nove anos at o primeiro
livro ser editado. No sou uma mquina de fazer
livros. Preciso sentir o que escrevo,
fazer e refazer histrias no plano espiritual para depois ditar a ela outras
vezes. No escrevo por mais ningum nem tenho
planos de faz-lo. Todo trabalho que se
inicia tem continuidade, termina, e esse nosso, ter fim. E pelo meu
aprendizado, irei com certeza fazer outro. Certamente
isso se dar quando a mdium desencarnar.
Mas, se fosse para escrever com outro encarnado, no usaria o nome de Antnio
Carlos. Teria caridade com o mdium que certamente
receberia crticas e muitas indagaes:
Ser ele? De fato  ou no Antnio Carlos? Esse mdium mistifica? Quer
aparecer? Por que escreve por algum j conhecido?
Pegou o bonde andando! Etc., etc., etc.
Temos, nos ensinos de Jesus, as setas para nossa caminhada, nas orientaes dos
livros de
Allan Kardec diretrizes seguras para quem deseja fazer um bom trabalho
com a mediunidade.
Como Janurio narrou, ele tentou enganar primeiro um jovem que desconfiou de um
nome importante dentro da Doutrina Esprita
e agiu certo pedindo opinies.

215

Mas, no  somente de nomes importantes que temos de nos acautelar,  tambm de
histrias confusas, exageradas, com mensagens
distorcidas e tambm quando o desencarnado
escreve criticando o mdium com quem trabalhou ou trabalha h tempos. Dizendo
que ele  isso ou aquilo, que quer escrever
com algum com mais instruo, com vocabulrio
mais rico etc.
Sem treino, estudo, prudncia e humildade da parte do encarnado, fica fcil
enganar.
Felizmente, h dentro da Doutrina Esprita encarnados srios, estudiosos,
perseverantes, trabalhadores que a sustentam,
fazendo um bom trabalho.
Sugiro cautela e prudncia para voc que recebe mensagens pela psicografia. No
tenha pressa em editar o trabalho. As rvores,
para darem frutos, necessitam de tempo
para crescer, fortalecer, dar flores e finalmente os frutos. A boa rvore
somente d bons frutos.
Estude com toda ateno os livros de Allan Kardec, principalmente O Livro dos
Mdiuns. Recomendo tambm o livro No invisvel,
de Lon Denis6. Transcreveremos aqui
alguns trechos por acharmos de grande importncia:
Nada verdadeiramente importante se adquire sem trabalho. Uma lenta e laboriosa
iniciao se impe aos que buscam os bens
superiores. Como todas as coisas, a formao
e o exerccio da mediunidade encontram dificuldades, bastantes vezes j
assinaladas;
  DENIS, Lon. No Invisvel. captulo V Educao e funo dos mdiuns. Rio
de Janeiro: FEB (Nota da Mdium).
216

convm insistirmos nisso, a fim de prevenir os mdiuns contra as falsas
interpretaes, contra as causas de erro e de desnimo.

Uma multido de espritos nos cerca, sempre vidos de se comunicar com os
homens. Essa multido  sobretudo composta de
almas pouco adiantadas, de espritos levianos,
algumas vezes maus, que a densidade de seus prprios fluidos conserva-os presos
 Terra.
O mdium inexperto recebe ditados subscritos por nomes clebres, contendo
revelaes apcrifas que lhe captam a confiana
e o enche de entusiasmo. O inspirador invisvel
conhece-lhe os lados vulnerveis, lisonjeia-lhe o amor prprio e as opinies,
superexcita-lhe a vaidade, cumulando-o de
elogios e prometendo-lhe maravilhas. Pouco
a pouco vai desviando de qualquer outra influncia, de todo exame esclarecido e
o leva a se insular em seus trabalhos. 
o comeo de uma obsesso, de um domnio
exclusivista, que pode conduzir o mdium a deplorveis resultados.
Esses perigos foram, desde os primrdios do espiritismo, assinalados por Allan
Kardec; todos os dias, estamos vendo mdiuns
deixarem-se levar pelas sugestes de
espritos embusteiros e serem vtimas de mistificaes que os tornam ridculos e
vm a recair sobre a causa que eles julgam
servir.
A boa mediunidade se forma lentamente, no estudo calmo, silencioso, recolhido,
longe dos prazeres mundanos e dos tumultos
das paixes.

217



Voc, caro leitor amigo, espero que medite sobre as histrias verdadeiras que
leu, que possa ter uma mudana de plano tranqila,
e no se apavore ao se defrontar
com a desencarnao. Que a resposta  indagao: E agora?, traga-lhe paz. E
que tenha o merecimento de estar entre os
bem-aventurados, os que escolheram o caminho
estreito, mas que o levar a uma sobrevivncia harmoniosa.
E tenha sempre em mente: somente voc pode desfazer o que fez de errado e fazer
o bem que ainda no fez,
e isso deve ser feito no presente, neste momento. Que Deus
o abenoe!



Ao terminar a leitura deste livro, provavelmente voc tenha ficado com algumas
dvidas e perguntas a fazer, o que  um bom
sinal. Sinal de que est em busca de explicaes
para a vida. Todas as respostas que voc precisa esto nas Obras Bsicas de
Allan Kardec.
Se voc gostou deste livro, o que acha de fazer com que outras pessoas venham a
conhec-lo tambm? Poderia coment-lo com
aquelas do seu relacionamento, dar de presente
a algum que talvez esteja precisando ou at mesmo emprestar quele que no tem
condies de compr-lo, O importante  a
divulgao da boa leitura, principalmente
a literatura esprita. Entre nessa corrente!
218
Conhea um trecho do magnfico livro
Reconciliao
Romance do Esprito
Antnio Carlos
Psicografado pela mdium
Vera Lcia Marinzeck
de Carvalho
Um dos romances mais emocionantes do Esprito Antnio Carlos. Dramtica, a
narrativa inicia-se com o assassinato de Raul
e sua me. O criminoso  Manuel, o prprio
pai do menino. A partir da o desdobramento dos acontecimentos levar a momentos
inesquecveis e a incrveis surpresas.
Uma nova reencarnao aguarda Raul. Seu pai
ser, novamente, o mesmo: Manuel. Enquanto sua me recusa-se a superar o dio
que toma conta do seu
esprito, Raul regressa ao corpo fsico junto ao assassino.
Um dos grandes sucessos de Antnio Carlos, este livro
destaca a misericrdia de Deus, agindo por intermdio da
reencarnao, valioso aprendizado das Leis Divinas.
 Me! Por que est aqui? No deveria estar no cu? Por que est toda suja? A
senhora morreu, beijei seu corpo frio e ftido.
No est com a vov? E Raul? Morreram
juntos. Que faz aqui? Quer oraes?
Tas falava depressa, cada vez mais assustada e com medo. Mame ficou parada,
no conseguiu falar nada, olhava Tas com
admirao e espanto. Minha irm quis chorar,
tremia toda. O professor Eugnio aproximou-se de Tas, transmitiu-lhe um passe
de paz, tranqilidade, fez com que retornasse
ao corpo.
Ns, como mame, vimos Tas como duas, seu corpo e sei esprito; mame teve um
choque ao presenciar esse fato e pelo que
escutara, saiu correndo do quarto. O professor
ficou com Tas e acalmou-a com passes, at que serenou.
 Tas est bem, Raul, no dever lembrar-se do fato.
 Se lembrasse, seria triste para ela recordar a mezinha
neste estado.
Fomos encontrar com mame, voltara para a escada. O professor se fez visvel
novamente a ela e recomendou-me:
 No interfira, Raul, fique perto, ore, vibre, conversarei novamente com ela.
Fiquei a dois degraus dela e orei com f, pedi a Deus que
nos inspirasse e fizesse com que meu mestre a convencesse, a
doutrinasse. O professor falou-lhe, calmamente:
 Filha, ainda por aqui?
Mame assustou-se, quis fugir. Depois, reconheceu o confidente que encontrara 
tarde, acomodou-se novamente, no respondeu.
Nisto, passou meu pai em esprito, desligado
pelo sono fsico, embaixo da escada. Estava tranqilo, parecia que passeava.
Mame escondeu-se no vo da escada.
 E ele! No quero que me veja. Tenho medo!
 Como quer se vingar dele se tem medo?
 Ele matou e pode matar de novo.
 Est morta, ento?
 No sei,  to confuso. Primeiro sinto a presena de minha me, que morreu h
tanto tempo. Depois, vi meu Raul, o meu filhinho
querido que morreu. Aqui ningum
fala comigo, parece que nem me vem. Agora mesmo, minha filha virou duas, uma
deitada na cama e a
outra estava como eu, falou comigo, disse que morri. Mas o senhor me v, no ?
Fala comigo.

Voc gostou deste trecho?
Ento no deixe de ler este belssimo romance!
Romances do
Antnio Carlos

Filho adotivo
Dois irmos so dados para adoo ainda crianas. J adultos, voltam a se
encontrar e comeam a namorar. Como a espiritualidade
os ajudar? No deixe de conhecer
essa histria repleta de surpresas.
Muitos so os chamados
Marcos, jovem mdico recm-formado, v em sua profisso apenas um meio de ganhar
dinheiro e ignora totalmente os apelos
da espiritualidade na ajuda aos mais necessitados.
Mas, um dia, perceber seu erro...
Reconciliao
Um dos mais belos romances espritas publicados at hoje. Tudo comea com um
duplo assassinato, o pai matando a facadas
o filho e a prpria esposa. Depois, uma lio
maravilhosa de perdo e reconciliao. Se voc gosta de um belo romance, no
pode deixar de ler este livro.
Reparando erros de vidas passadas
Conhea a histria de dois mdicos que em encarnaes passadas fizeram
experincias cientficas com seres humanos e assumiram
assim inmeros dbitos. Um livro fascinante!

Leia e recomende!
 venda nas boas livrarias espritas e no-espritas

Cativos e libertos

 Jorge, ao retornar de Paris, onde foi terminar os estudos, encontra seu lar
tumultuado. Seu
pai havia falecido e o irmo foi assassinado
justamente no momento de sua chegada. No
entanto, Jorge continua a acalentar sonhos abolicionistas... No deixe de ler!
Novamente juntos

O que h por trs de encontros inusitados, de almas que de repente se encontram,
se apaixonam e decidem compartilhar sonhos,
alegrias e desventuras? Um livro surpreendente,
para quem gosta de um belo romance.
Aqueles que amam
Acompanhe a trajetria de duas famlias de imigrantes que vm para o Brasil
colnia em busca de uma vida melhor. Conhea
a vida na fazenda, a luta contra a escravido
e o encontro de velhos inimigos de vidas passadas.

Palco das encarnaes

Augusto experimenta duas encarnaes diferentes neste livro. Na primeira, 
filho do dono do engenho. Na segunda, volta
como escravo no mesmo engenho. Uma histria
fascinante!


 venda nas boas livrarias.

LvrosdeAlceu Cosia Filho;]

Na poeira dos sculos
Romance do Esprito Filipe
Um grupo de cristos busca pelos desertos depoimentos e escritos a fim de
registrarem para a posteridade as passagens da
vida de Jesus entre ns.

Razes para um dia feliz
Uma conversa amiga com o Esprito Filipe
A verdadeira felicidade  um estado de esprito, conquistado por aquele que
sente a vibrao divina no corao, iluminando
sua jornada terrestre.

O tempo de cada um
Romance do Esprito Cornlio Pires
Por meio de uma histria bem-humorada Cornlio nos mostra os perigos que os
dirigentes espritas enfrentam ao se acomodarem.

Para vocs com saudade
Ditado pelo Esprito Filipe
Muitas das mensagens deste livro ainda no encontraram seus respectivos
destinatrios. Independente disso trazem ensinamentos
preciosos e teis.

Memrias da mediunidade
Ditado pelo Esprito Filipe
Filipe nos leva a conhecer vrios casos de derrotas de trabalhadores das casas
espritas que negligenciaram o orai e vigiai.

O portal da conscincia
Ditado pelo Esprito Filipe
A caravana de Filipe nos leva a conhecer o posto de socorro Portal da
Conscincia, onde os espritos socorridos ficam frente
a frente com a prpria conscincia.

Leia e recomende!
 venda nas livrarias espritas e no-espiritas
- e redeno
 areias do Deserto do Saara, o encontro de almas divididas por crenas
religiosas Enfrentando-se em lutas que se prolongam
muito alm da vida material sofrem o terrivel
calor, a sede, a falta de recursos e a
ferocidade de espritos que desconhecem o bem Animis A rnmaas, nossos irmos

Animais tem alma? Eles reencarnam? Eles tm carma? E emoes? Estas e muitas
outras questes voc encontrar neste livro.

Infidelidade e perdo
Romance do esprito Josu
Infidelidade a vida implode em alicerces de paixes, deixando os envolvidos em
escombros Um alerta do Espiritismo para aqueles
que se deixam levar pelas aparncias.
Sempre h uma esperana
Romance do esprito Roboeis
Karen quer subir na vida a qualquer custo, nem que para isso tenha de pisar em
outros. Um romance esclarecedor!

Os teceles do destino
Romance do esprito Domitila
Turmalina vai receber uma grande lio da vida.
Sua fortuna ser capaz de afastar as sombras da
morte que rondam sua felicidade?
Ari e Luza eram ricos e bem-sucedidos. No entanto, os inmeros compromissos
sociais distanciam o casal dos filhos. Uma
histria que envolve amor e poder eoferece
uma bela lio de fraternidade.
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